Como Pedro Bueno, 24 anos, assumiu o comando da rede Dasa

Filho do bilionário Edson Bueno, Pedro virou presidente da rede de laboratórios Dasa aos 24 anos. Sua missão agora é colocar em prática o plano de seu pai

São Paulo - Como centenas de jovens ambiciosos e bem-nascidos de sua geração, o economista Pedro Godoy Bueno saiu da faculdade direto para um banco de investimento — no seu caso, o Credit Suisse em 2012. Poucos meses depois, aos 22 anos, chegou ao banco BTG Pactual.

Como seus colegas, virava noites no escritório da avenida Faria Lima, na zona oeste de São Paulo, analisando planilhas para ajudar no fechamento de aquisições e reestruturações de empresas. Apesar dos horários imprevisíveis, Bueno tinha um emprego cobiçadíssimo, remuneração anual de até 300 000 reais e a perspectiva de um dia tornar-se sócio do BTG.

Mas ele ficou menos de dois anos no emprego até pedir demissão. Isso porque, como pouquíssimos jovens ambiciosos de sua geração, Pedro é filho de bilionário. Seu pai é o empresário Edson Bueno, fundador da operadora de planos de saúde Amil, vendida à americana United Health por 10 bilhões de reais. Pedro é o único filho homem e tem uma irmã, Camila, que trabalha na holding da família. Para ele, o BTG e o Credit Suisse representaram apenas um treinamento.

Depois de pedir demissão do BTG, há quase dois anos, Pedro ficou trabalhando no fundo de investimento da família, o DNA Capital. Até que, em janeiro deste ano, assumiu um cargo com o qual gente com sua idade jamais poderia sonhar: virou presidente da maior rede de laboratórios do Brasil, a Dasa.

Com 521 unidades de marcas como Delboni e Lavoisier, a Dasa vale 3 bilhões de reais na bolsa de valores e é controlada por Edson Bueno desde 2014. Pedro é o executivo mais jovem a ocupar esse cargo numa empresa de capital aberto no país. A falta de experiência de Pedro Bueno provocou protestos no fundo de pensão Petros, sócio minoritário da Dasa.

O representante no conselho, Carlos Costa, votou contra afirmando que a contratação é inadequada e “não atende ao porte e necessidades da companhia”. Mas seu nome foi aprovado com facilidade, porque Edson Bueno e a ex-mulher, Dulce Pugliese, têm 72% do capital da Dasa.

A Petros e o fundo americano Oppenheimer são os outros acionistas, com mais de 10% de participação cada um. A empresa informou que Pedro Bueno não foi escolhido pelo controlador, mas pelo conselho. Os Bueno não deram entrevista.

Apesar da chiadeira, até as plaquetas examinadas nos laboratórios da Dasa sabem que, na presidência, Pedro vai executar a estratégia traçada por seu pai. O empresário entrou no capital da Dasa em 2010, quando a empresa comprou a rede de laboratórios MD1, de Bueno.

Embora só tenha conseguido comprar o controle da empresa no ano passado, a influência de Edson Bueno na Dasa já era sentida desde 2012. Foi quando o executivo Dickson Tangerino, que foi seu braço direito na Amil por quase 30 anos, assumiu a presidência da companhia. Hoje, Tangerino cuida dos investimentos imobiliários de Bueno. Sua saída da Dasa abriu espaço para a entrada de Pedro.

O primeiro passo da estratégia do controlador é tirar a Dasa do Novo Mercado (segmento em que estão as empresas de melhor governança corporativa da Bovespa). Trata-se de um projeto que Edson Bueno já tentou tirar do papel no passado. Para isso, ele estuda comprar mais 3% das ações, atingindo o patamar mínimo de 75%. “Ele não precisa da Petros e do Oppenheimer para isso”, diz um executivo próximo.

Bueno gastou 2,3 bilhões de reais para comprar a participação ­atual. Na prática, com liquidez baixa e fora do Novo Mercado, o controlador teria maior facilidade para fechar o capital, sem ser obrigado a pagar mais do que os 15 reais por ação da primeira oferta (as ações hoje estão cotadas a pouco mais de 10 reais). Consultada, a Dasa disse “não ter conhecimento” de um plano para fechar o capital da empresa.

Integração

Caso consiga fechar o capital da empresa, Bueno quer integrar a medicina diagnóstica da Dasa à rede de oito hospitais em São Paulo, Rio e Brasília que ele controla desde a venda da Amil para a United Health, com faturamento de 1,5 bilhão de reais. Nasceria, portanto, um novo gigante do setor de saúde no país, com faturamento superior a 4 bilhões de reais.

Pelo plano, os centros de medicina diagnóstica funcionariam como “prontos-socorros” mais baratos. O paciente faz os primeiros exames lá e só vai para o hospital se for realmente necessário. O modelo vem ganhando espaço no mercado brasileiro, especialmente no segmento de alta renda, com os hospitais paulistanos Albert Einstein e Sírio-Libanês.

Hoje, fazer essa integração entre hospitais e laboratórios poderia gerar um conflito de interesses entre Bueno (o controlador da Dasa) e seus acionistas minoritários. Afinal, esse tipo de acordo seria um bom negócio para os hospitais ou para a Dasa? Consultados, a companhia e o empresário não comentaram.

Enquanto não é possível fazer isso, Pedro Bueno tem a missão de acelerar a expansão da rede de laboratórios da Dasa pelo país. Em dois anos, o ex-presidente Tangerino abriu 70 novas unidades de atendimento. Edson Bueno acha pouco. “Ele quer mais rapidez na expansão e está cobrando pelo menos 40 novas unidades por ano das marcas populares, como o Lavoisier”, diz um conselheiro.

O empresário considera que a Dasa está pronta para uma expansão rápida, depois de ter começado a resolver o que via como o principal problema há alguns anos: a perda de qualidade de seus serviços. Tangerino praticamente dobrou o volume de investimentos em relação ao início da década, para cerca de 230 milhões de reais ao ano.

Com isso, a rentabilidade caiu de 27% para uma média de 17%. Algo próximo ao concorrente Fleury, que tem uma rede menor e custos mais altos. Executivos próximos a Bueno acreditam que a maior parte do ajuste de qualidade já foi feita e que Pedro Bueno buscará uma rentabilidade de cerca de 20%.

Ser comandada por um jovem de 24 anos é apenas a última das reviravoltas da Dasa, companhia que já passou por muitas mudanças societárias desde que abriu o capital, há dez anos. O fundador, o médico Caio Auriemo, e o fundo de private equity do banco Pátria saíram da gestão em 2009 após uma briga com acionistas minoritários.

Os fundos das gestoras Skopos, CSHG e HSBC criticavam contratos da Dasa com empresas controladas pela família Auriemo. Com a saída de Pátria e Auriemo, os fundos assumiram o comando. Sua gestão aumentou a rentabilidade — mas, segundo os críticos, à custa da qualidade dos serviços.

Bueno tentou reverter a equação, o que abriu espaço para novas brigas entre os sócios. A queda na rentabilidade dos últimos dois anos provocou intermináveis discussões entre os acionistas minoritários, o presidente e o conselho de administração.

Vários fundos de investimento preferiram deixar a empresa na oferta pública que Bueno fez para comprar 100% da Dasa em 2013 — inclusive a gestora Tarpon. Se os planos de Edson Bueno se concretizarem, a próxima guinada da Dasa não deve demorar.

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