Rio de Janeiro: cidade com grandes degustadores de vinhos (Catarina Bessell/Exame)
Colunista de Vinhos
Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.
Nenhuma cidade brasileira tem maior e mais consistente coleção de grandes entendidos de vinho quanto o Rio de Janeiro. Não me refiro aos multimilionários que esbanjam em rótulos famosos, cada vez mais abundantes em São Paulo, no Centro-Oeste e no Nordeste. Onde há grana, há pavões do vinho. Só que, no Rio, eles ficam pequenos perto do timaço carioca de grandes degustadores. Enófilos com décadas de litragem, paladar aguçado e profundo conhecimento de safras, produtores, estilos e regiões impressionam até alguns dos maiores enólogos da Europa.
Por trás desse fenômeno há uma figura discreta, admiradíssima no rarefeito universo dos vinhos excepcionais. O mais respeitado colecionador do Brasil passou décadas garimpando garrafas raras e organizando degustações que fizeram história. Anfitrião de lendárias sessões de estudiosa bebelança, o grande mestre formou um celeiro de craques. Juntos, debatem apaixonadamente e fazem análises gustativas de garrafas extraordinárias.
Pude conhecê-lo dez anos atrás, em um almoço pleno de belos borgonhas brancos. Seguiram-se convites para deleitosas degustações de ícones franceses que nem ouso descrever, onde, pouco a pouco, fui descobrindo a discretíssima turma carioca do bem beber. Ora os encontrava por acaso nos restaurantes Oteque e Lasai, ora almoçávamos no Satyricon, onde batem ponto regularmente.
Seria esnobismo tolo elogiar apenas os mais ricos dentre as legiões de enófilos cariocas. A cada ano surgem mais, com conhecimento de causa e perfis diversos — por isso proliferam-se os bares de vinhos e restaurantes com cartas robustas. A chegada da americana Coravin deu um boost na oferta de vinhos em taça, com suas engenhocas que permitem servi-los por dose (uma cânula perfura a rolha sem extraí-la, evitando desperdício). Dentre numerosos encontros vínicos, há alguns, como o Chefs Week de dias atrás, que oferecem experiências antes só alcançáveis por poucos. Masterclass no Copa comparando Chateau Margaux e Vega Sicilia? Teve! Verticais de Barca Velha e Sassicaia? Idem!
Até em bairros populares, apóstolos impulsionam o evangelho da enofilia. Nenhum mais fervoroso do que o sambista Ivo Meirelles, com quem degustei Bordeaux em pleno Morro da Mangueira dia desses. Foi coisa maravilhosa de ver, como essa cidade.