Giovanni Caforio, da Bristol-Myers: "Poderíamos investir o triplo no Brasil" (Germano Lüders / EXAME)
Da Redação
Publicado em 31 de março de 2015 às 10h34.
São Paulo - Nos últimos anos, criar uma indústria farmacêutica inovadora esteve entre as supostas prioridades do governo federal. Há cerca de três anos foi anunciada a criação de dois “campeões nacionais” para pesquisar remédios biológicos — ou seja, feitos com organismos vivos. Na prática, pouca coisa andou.
Por que o país inova tão pouco? Segundo Giovanni Caforio, que acaba de ser escolhido o novo presidente mundial da gigante americana Bristol-Myers Squibb, a burocracia e a lentidão dos órgãos reguladores são os culpados pelo atraso da pesquisa no país. Quem paga o preço são os pacientes, que demoram mais tempo para ter acesso a tratamentos inovadores. Caforio falou a EXAME em sua última visita ao Brasil.
EXAME - A Bristol acaba de anunciar um investimento de 1 bilhão de dólares numa fábrica na Irlanda, e tem feito aquisições na Europa. Aqui, os investimentos não têm crescido. Qual é o problema?
Giovanni Caforio - Precisamos de uma nova fábrica para produzir medicamentos biológicos. Já temos outras fábricas na Irlanda e o ambiente de negócios nos agrada. Gostaríamos de investir mais no Brasil. Poderíamos triplicar os investimentos aqui se as regras para testes clínicos de novos remédios fossem diferentes.
Nós estamos num segmento muito específico, de áreas de alta necessidade médica, com remédios para hepatite C ou câncer. A aprovação de uma pesquisa clínica demora muito, de um ano a um ano e meio. Quando a autorização sai, os testes já avançaram muito em outros países e não vale a pena começar do zero aqui.
Nos Estados Unidos, normalmente, o prazo para aprovar um teste clínico é de dez meses para remédios comuns. Dependendo do grau de urgência, o prazo cai para três meses.
A qualidade da pesquisa brasileira é boa, mas a burocracia mata. Os prejudicados são os pacientes, que não têm acesso a testes de novos remédios. Continuamos tentando: agora esperamos conseguir uma aprovação rápida de um novo remédio para câncer de pulmão que pretendemos testar com o Hospital do Câncer de Barretos.
EXAME - É a burocracia, então, que impede que o país tenha algum papel na criação de novos remédios?
Giovanni Caforio - O Brasil faz ciência de qualidade, o problema é a legislação. Testar novos medicamentos é o primeiro passo para tentar desenvolver novos remédios no futuro. Quando você testa algo que já está próximo de ser produzido, começa a desenvolver a experiência para depois criar remédios novos. Mas se você não consegue fazer nem isso...
Além desse problema, há o registro de novos medicamentos. Para conseguir a patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), é necessária uma autorização prévia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Isso, ao nosso ver, é desnecessário, já que a Anvisa não está preparada e atrasa o processo de aprovação.
Essa é uma das questões que bloqueiam investimentos da indústria. A rapidez é fundamental porque os tratamentos estão evoluindo aceleradamente. O índice de sobrevivência em pacientes com melanoma avançado, um tipo de câncer de pele, é de 40% em um ano. Com remédios que estamos testando em outros países, conseguimos uma sobrevivência de 73%. Ou a hepatite C, que era uma doença sem cura e hoje é eliminada em 90% dos casos com um tratamento oral de seis meses.
EXAME - Nos últimos anos, grandes companhias farmacêuticas globais estão reduzindo suas áreas de pesquisa e desenvolvimento e apostando em áreas que gerem uma receita mais estável, como medicamentos genéricos. O risco de gastar muito em pesquisa e não conseguir produzir um remédio com grandes vendas é alto. A Bristol está fazendo o contrário, só produz remédios novos. Como ganhar dinheiro com esse modelo?
Giovanni Caforio - Somos diferentes das grandes farmacêuticas globais, viramos uma empresa especialista. Buscamos inovar no tratamento de um número pequeno de doenças: câncer, Aids, hepatite C, artrite reumatoide. Acreditamos que ter um portfólio pequeno, mas diversificado, reduza o risco de perder dinheiro com os investimentos em pesquisa.
Escolhemos poucas áreas em que podemos fazer a diferença e investimos nelas. Estamos fazendo isso desde 2007, com bons resultados para os acionistas. Nossas ações mais do que dobraram de preço desde que mudamos o foco da empresa, bem acima da média das maiores companhias farmacêuticas.
Não queremos diversificar só por diversificar, por isso não estamos em genéricos. Também temos comprado várias empresas pequenas, de biotecnologia, que tenham produtos nas áreas que nos interessam.
EXAME - A maior aposta da empresa hoje é o remédio para a hepatite C, doença que a Organização Mundial da Saúde estima que atinja 180 milhões de pessoas. É um número muito menor do que o de afetados por outras doenças. Estima-se, por exemplo, que 40% da população adulta mundial tenha colesterol alto.
Giovanni Caforio - Realmente é um número muito inferior ao de pacientes com doenças crônicas, como colesterol alto e diabetes. Mas o valor desses medicamentos é curar pessoas que hoje têm tratamentos caríssimos e complexos. No Brasil, estimamos que haja 200 000 pacientes infectados pela hepatite C, e hoje só 15 000 estão em tratamento. Esperamos ter aqui cerca de 45 000 pacientes nos primeiros três anos.
No Japão, há mais de 1 milhão de infectados, dos quais apenas 500 000 foram diagnosticados. Estimamos que nos Estados Unidos sejam 3 milhões. Mas a hepatite C tem um custo altíssimo de tratamento, que pode chegar ao transplante de fígado, e estamos conseguindo altos índices de cura com os novos medicamentos.