Ciência

Calor faz besouros machos tentarem acasalar entre si? Estudo dá algumas pistas

Experimento aponta que altas temperaturas podem prejudicar o reconhecimento químico entre os insetos, sem indicar mudança de preferência

Besouro: espécie Nicrophorus vespilloides foi usada no experimento sobre os efeitos do calor (Freepik)

Besouro: espécie Nicrophorus vespilloides foi usada no experimento sobre os efeitos do calor (Freepik)

Publicado em 13 de julho de 2026 às 10h07.

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Temperaturas mais altas podem interferir no reconhecimento de potenciais parceiros por alguns besouros. Um experimento realizado com a espécie Nicrophorus vespilloides mostrou que, após três dias sob uma onda de calor simulada, aumentou a frequência de interações sexuais entre machos.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, e apresentada durante a conferência anual da Sociedade de Biologia Experimental, realizada em Florença, na Itália. O trabalho ainda não foi publicado em uma revista científica e também não passou por revisão por pares, portanto seus resultados são considerados preliminares.

Segundo os pesquisadores, os dados não indicam uma mudança na preferência por parceiros. A principal hipótese é que o calor prejudique a comunicação química usada pelos besouros para reconhecer o sexo de outros indivíduos.

Como o experimento foi realizado

Os cientistas dividiram os insetos em dois grupos. Um permaneceu em uma temperatura considerada normal para a espécie, de 20 °C, enquanto o outro foi exposto durante três dias a 26 °C, simulando uma onda de calor.

Mesmo na temperatura mais baixa, a maioria das duplas de machos apresentou pelo menos uma interação sexual. No entanto, após a exposição ao calor, a frequência praticamente dobrou, passando de pouco mais de um episódio por dupla para cerca de dois.

Em entrevista ao g1, Solène Morelle, doutoranda da Universidade de St Andrews e responsável pelo estudo, afirmou que o principal resultado foi justamente o aumento dessas interações em condições de estresse térmico.

Como a comunicação química pode explicar o fenômeno

Os pesquisadores acreditam que a explicação mais provável esteja na comunicação química desses insetos.

A espécie Nicrophorus vespilloides, conhecida por enterrar carcaças de pequenos animais para alimentar suas larvas, depende de compostos presentes na superfície do corpo para reconhecer outros indivíduos, identificar seu sexo e coordenar comportamentos relacionados à reprodução, ao cuidado parental e à defesa do alimento.

Essa camada química também protege o organismo contra a perda de água. Segundo a hipótese apresentada pela equipe, temperaturas mais altas podem alterar rapidamente sua composição para reforçar essa proteção. Como consequência, os sinais usados para distinguir machos e fêmeas podem se tornar menos precisos, aumentando a chance de erros de reconhecimento.

Estudo não indica mudança de preferência por parceiros

Os autores ressaltam que os resultados não devem ser interpretados com base em conceitos aplicados ao comportamento humano. Segundo Morelle, a hipótese de trabalho é que o calor dificulte o reconhecimento químico entre os indivíduos, levando alguns machos a confundirem outros machos com possíveis parceiras, e não que ocorra uma mudança na preferência por parceiros.

A pesquisadora também observa que esse tipo de interação já acontece naturalmente na espécie, mas se tornou significativamente mais frequente após a exposição às temperaturas mais elevadas.

Quais podem ser os impactos?

O estudo também registrou um aumento das interações recíprocas entre machos, nas quais ambos alternavam os papéis durante o comportamento observado. No entanto, os cientistas afirmam que ainda não é possível interpretar o significado desse resultado.

A próxima etapa da pesquisa será investigar se o aumento dessas interações reduz os acasalamentos com fêmeas e se isso pode comprometer o sucesso reprodutivo da espécie.

Outra questão será avaliar se alterações na comunicação química dificultam o reconhecimento de rivais. Para esses besouros, identificar corretamente outros indivíduos é essencial, já que invasores podem disputar a carcaça utilizada como alimento para as larvas e colocar a reprodução em risco.

O que isso pode revelar sobre as mudanças climáticas

Embora os resultados ainda sejam preliminares, os pesquisadores afirmam que o estudo levanta uma nova hipótese sobre os efeitos do aquecimento global na fauna.

Se temperaturas mais altas realmente comprometerem a comunicação química desses insetos, o fenômeno poderá afetar não apenas a reprodução, mas também a capacidade de sobrevivência das populações.

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