Na era ESG, jovens trazem sustentabilidade à gastronomia e ao esporte

João Diamante, Cesar Cielo e Roberta Negrini contam mais sobre os negócios com viés social de que fazem parte
 (Andre Valentim/Exame)
(Andre Valentim/Exame)
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Matheus DoliveiraPublicado em 29/07/2021 às 06:00.

Lapidado pela gastronomia 

Quando João Diamante pilotou um fogão industrial pela primeira vez, ele confirmou uma certeza: sua paixão pela gastronomia. A cena aconteceu em um posto da Marinha onde o baiano criado na favela de Divineia, no Rio de Janeiro, serviu dos 18 aos 22 anos. 

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O talento e a popularidade na internet, onde também é modelo e influenciador, renderam a Diamante uma vaga de apresentador do Garimpeiro do Sabor, programa do canal fechado Woohoo, e 100.000 seguidores no Instagram. O chef faz questão de dizer que suas conquistas só se fizeram possíveis graças às chances que recebeu. “Já fiz teatro, balé e capoeira em projetos sociais. Se cheguei aonde estou foi porque me deram oportunidade.”

Entusiasta da cozinha brasileira, foi na França que Diamante começou a esboçar seu próprio projeto social. Na época, ele havia ganhado uma bolsa de intercâmbio para trabalhar no Le Jules Verne, no alto da Torre Eiffel e comandado pelo chef francês Alain Ducasse. Assim, em 2006, nasceu o Diamantes na Cozinha. 

Diamante equilibra sua agenda entre a cozinha do restaurante itinerante Na Minha Casa, onde os pratos custam o que o cliente pode pagar, e as aulas de culinária no Diamantes na Cozinha. “Priorizamos quem nunca teve oportunidade de fazer um curso. Muitos alunos saem do projeto entendendo sobre alimentação, hospitalidade e empreendedorismo e abrem seus próprios negócios.” O projeto criado já transformou a vida de mais de 250 jovens. 

Campeão olímpico no terceiro setor

Dentro da água, Cesar Cielo é o nadador brasileiro mais veloz e premiado da atualidade. Único atleta nacional a conquistar o ouro nos 50 metros livres até hoje, Cielo coleciona três medalhas olímpicas (ouro e bronze em Pequim 2008 e bronze em Londres 2012) e 16 medalhas mundiais, das quais 11 são de ouro. O que nem todo mundo sabe é que, fora das piscinas, Cielo também comanda uma instituição em prol de futuros esportistas.

Fundado em 2010 por Cielo e seus pais, o Instituto Cesar Cielo já beneficiou centenas de crianças e adolescentes que aprendem a nadar e a competir em torneios sem pagar nada. “Nos Estados Unidos é muito comum ver essa relação entre atletas e o terceiro setor. No Brasil, é difícil encontrar projetos desse tipo que sejam bem-sucedidos”, diz Cielo. “Não começamos a instituição com o objetivo de criar campeões olímpicos, e sim de dar oportunidade para quem não pode pagar pelo esporte, que ainda é muito elitizado.”

O Instituto Cesar Cielo funciona em dois clubes localizados em Itajaí, em Santa Catarina, e Valinhos, interior de São Paulo. O modelo de financiamento do projeto é híbrido: os espaços e a manutenção das piscinas ficam por conta das prefeituras locais. As aulas, o pagamento de professores e dos materiais de natação utilizados saem do caixa da instituição e de incentivos públicos de fomento ao esporte.

“Sempre acreditamos no esporte como ferramenta de transformação social. Quando algum aluno da instituição ganha bolsa em escolas particulares ou é convidado para treinar em clubes maiores, sentimos que estamos cumprindo nosso propósito”, afirma Cielo. 

 A moda é ser consciente

“Eu era o tipo de pessoa que sonhava em ser gerente de uma multinacional aos 25 anos”, diz Roberta Negrini, pernambucana que largou cargos de direção na Natura e na Avon para fundar sua própria marca em 2016.

Hoje, ela é dona da Eu Visto Bem, marca têxtil com certificado internacional Sistema B. O selo, que reconhece negócios que aliam lucro e impacto social, destacou a empresa entre as 5% com maior valor positivo no mundo.

"Quis criar uma marca que onerasse o mínimo possível o ambiente e maximizasse ao máximo o social", diz a empresária, que só emprega mulheres.

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Roberta Negrini: 200 presidiárias empregadas (Leandro Fonseca/Exame)

Contando com Negrini, 89 colaboradoras compõem a Eu Visto Bem. Destas, 51 são presidiárias nas penitenciárias femininas do Butantã e de Santana, em São Paulo, e 13 são ex-detentas. Dentro ou fora da prisão, todas as costureiras recebem o mesmo salário: 1.400 reais.

A marca, como gosta de ressaltar Negrini, “é um negócio, não uma ONG”, e já beneficiou 200 mulheres — 87% delas não voltaram a cometer crimes. A empresa confecciona roupas para empresas terceiras. Entre os clientes estão Natura, Zara, Farm e Renner, que em janeiro lançou uma coleção de 40.000 peças costuradas pelas presidiárias.

Em 2020, a marca faturou 2,5 milhões de reais. Neste ano, a previsão é de 3,5 milhões de reais. “Temos a cultura equivocada de que empresas com propósitos ambientais e sociais não dão lucro”, diz.