Arrozal alagado no Rio Grande do Sul durante a safra 2023/24: eventos de El Niño costumam aumentar o volume de chuvas no Sul do Brasil (Marinha do Brasil/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.
Ninguém sabe nem o dia nem a hora, mas as previsões — e o agro — dão como certa a sua chegada. O El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, deve se consolidar entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estima 63% de probabilidade de um evento muito forte nesse período, segundo análise divulgada em junho, e há projeções que apontam para um fenômeno “superforte”.
Com a confirmação do fenômeno, analistas já começam a estimar impactos sobre a inflação a partir de 2027. Nesse cenário, o BTG -Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) elevou sua projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 3,8% em janeiro para 4,5% em junho.
Para o banco, a inflação de alimentos deve atingir 5,9% em 2027. Os efeitos sobre a produção agrícola tendem a ser mais relevantes para o milho, enquanto os riscos para a soja são considerados mais limitados. “O efeito nacional não é linear, mas a produção total pode não cair em termos absolutos se houver ganho de área e boa performance no Sul”, afirma o banco em relatório.
De olho no possível efeito sobre a produção de grãos do Brasil que começa em 1o de julho e terá suas primeiras estimativas divulgadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em setembro, empresas do agronegócio passaram a incorporar um cenário de El Niño mais intenso em seus planejamentos.
Em um setor fortemente dependente da previsibilidade climática, a perspectiva de um evento mais forte adiciona uma nova camada de incerteza em um momento de margens já pressionadas.
Na BrasilAgro, a possível incidência do fenômeno é tratada como um exercício de gestão de risco.
Segundo André Guillaumon, CEO da companhia, a estratégia é ter cautela e começa pela análise dos eventos de 2015 e 2023 para entender como variáveis como chuvas, temperaturas e início da estação chuvosa afetaram cada fazenda do grupo.
“Não é um ano para acelerar o processo de abertura de áreas nem para ser mais agressivo na produção. Tudo indica que teremos um ambiente de maior volatilidade”, afirma.
Na SLC Agrícola, o El Niño mais forte de 2023/24 deixou aprendizados. Em um país continental como o Brasil, os efeitos variam de região para região. Nesse cenário, diz Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, a estratégia considera as particularidades de cada unidade produtiva.
“Se identificarmos áreas com maior risco climático, podemos ajustar o nível de investimento em insumos, preservando a rentabilidade”, diz.
Apesar das preocupações, Minella Martins, engenheira agrônoma e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), afirma que cada episódio do El Niño tem características próprias.
O último evento forte, entre 2023 e 2024, provocou secas severas na Amazônia e enchentes históricas no Sul, com reflexos sobre a agricultura e o abastecimento. “Cada El Niño é muito particular. Não tem como afirmar que um El Niño forte terá os mesmos efeitos do anterior”, diz.