Casa Ferreira Wine: a 398 reais por visitas antes mesmo de ter vinho próprio para servir e vender (Catarina Bessell/Exame)
Colunista de Vinhos
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.
Mal consigo acompanhar o ritmo galopante da proliferação de parreirais de vitis vinifera (as uvas de que são feitos os vinhos finos) pelo Brasil. No rastro do surgimento das novas regiões vitícolas paulistas e mineiras, parcelas de vinhas vêm se proliferando a galope, e não só em lugares de clima ameno, como a Serra Fluminense, mas também em terras calorentas como Distrito Federal, Goiás e Chapada Diamantina, na Bahia (onde a Uvva continua desbravando o front com enorme sucesso).
Tantos vinhateiros neófitos pipocaram de dois anos para cá que, inocentemente, achei que o hype já tinha atingido seu pico. Que nada! A coisa alastrou-se mais recentemente até a Paraíba. Quem me contou foi Kadu Milano, carioca cheio de bossa, que recém-fundou com a proprietária de terras, dona Telma Ferreira, de 75 anos, a Casa Ferreira Wine, em Bananeiras, no Planalto de Borborema, vinícola embrionária cujas uvas serão vinificadas no ano que vem — e estrearam em junho experiências enoturísticas jamais vistas no Nordeste profundo.
Deve ser a primeira vinícola que cobra 398 reais por visitas antes mesmo de ter vinho próprio para servir e vender. Eles tiveram de encomendar do Sul um lote de vinhos com seu logo na etiqueta para o pessoal ter o que beber. “Sou um comunicólogo, produzo eventos, de festivais de cinema a Carnaval; a expertise em plantação não é minha”, diz Milano. “Entrei como o narrador dessa história incrível.”
Como bom publicitário, ele desenhou um roteiro para os visitantes que começa com a chegada ao casarão em charmosas jardineiras. O passeio inclui um giro pela vinha com sommelier e degustação de pratos regionais harmonizados com os vinhos (gaúchos, por enquanto!). A franqueza de Milano desarma qualquer crítica: não só ele admite desconhecer o universo da viticultura como define a Casa Ferreira Wine como um “movimento enoturístico cultural”, mais do que uma vinícola.
“Quero mostrar que o Nordeste pode produzir uvas finas, inclusive contando também das três outras vinícolas que ficam aqui perto e ninguém conhece”, conta, animado. “Nosso vinho nem existe ainda e pode levar 100 anos para a gente ganhar algum prêmio.” Ele deixou de se preocupar com o produto em si ao ver os clientes saírem dali “se amarrando na história e nos cuidados no atendimento”. Milano aprendeu rápido: experiências memoráveis dão muito mais lucro do que vinificar para vender.