Praia de Estoril, em Portugal: o período de junho e julho foi o mais quente já registrado na Europa Ocidental (Leandro Fonseca/Exame)
Jonalista colaborador
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.
“Não aqueças para teu inimigo uma fornalha tão quente que venha a te queimar também.” A famosa passagem de O Mercador de Veneza resume bem a situação vivida na Europa neste verão, 410 anos após a morte de William Shakespeare. Nos últimos meses, uma forte onda de calor levou ao cancelamento de eventos da London Climate Action Week, um dos principais encontros anuais de clima do planeta, que só nesta edição recebeu mais de 70.000 pessoas de todo o mundo, justamente para discutir o combate ao aquecimento global. O episódio condensa, numa semana em particular, a encruzilhada em que o continente se encontra.
O período de junho e julho foi o mais quente já registrado na Europa Ocidental, com temperatura média de 21,62 ºC; cerca de 2,79 ºC acima da média histórica, que supera o recorde anterior, de 2022. Desde maio, o continente enfrentou uma sucessão de cinco grandes ondas de calor, sem que ecossistemas, recursos hídricos, agricultura e populações vulneráveis tivessem tempo de se recuperar entre um episódio e outro. O calor persistente alimentou também incêndios florestais que já consumiram quase 500.000 hectares — sobretudo na Espanha, na França e na Itália — e uma seca prolongada que baixou rios como o Danúbio e o Reno em níveis nunca vistos. Sistemas de alta pressão travaram o ar quente sobre o continente enquanto solos ressecados reduziam o resfriamento natural por evaporação, segundo dados do Copernicus, programa de observação da Terra administrado pela Comissão Europeia, pela Agência Espacial Europeia e pelo Centro Europeu da Previsão do Tempo. A constatação: a Europa está aquecendo mais do que o dobro da taxa média global.
COP30, em Belém: postura da Europa deixa expectativas pouco animadoras para a COP31, que acontece na Turquia em novembro (Leandro Fonseca/Exame)
“Os impactos associados ao calor extremo estão se tornando cada vez mais visíveis em toda a sociedade — da saúde pública e dos recursos hídricos à agricultura, à infraestrutura e ao risco de incêndios florestais”, disse à EXAME Samantha Burgess, diretora-adjunta do Copernicus. “O verão de 2026 é mais um lembrete de que a mudança climática não é um desafio do futuro, e que escolhas feitas hoje influenciarão o nível de risco climático que as gerações futuras vão enfrentar.”
Só que, do ponto de vista de quem combate o aquecimento global, líderes europeus parecem ter dado um passo atrás (ou muitos). Desde o início do ano passado, a União Europeia promoveu uma sucessão de medidas que amenizaram o rigor de suas metas ambientais. Por exemplo, a meta climática para 2040, que prevê cortar 90% das emissões de gases causadores do aquecimento, passou a admitir que um quinto desse esforço seja cumprido com a compra de créditos de carbono fora do continente. Os padrões de emissão dos automóveis ainda preveem uma redução das emissões em 55% sobre 2021. Antes o prazo para chegar a esse patamar era 2030 — mas agora é uma média móvel do triênio 2030-2032. Já a cobrança de taxas de carbono sobre o uso de combustíveis nos automóveis e no aquecimento das edificações, que chegaria ao bolso das famílias em 2027, foi adiada para 2028. E a lei antidesmatamento, que obrigaria empresas a provar que produtos como soja, carne e café não vêm de áreas devastadas, foi empurrada para a frente duas vezes e teve suas exigências simplificadas.
Líder na transição?
Até recentemente, a Europa manifestava a ambição de liderar o mundo na transição rumo a uma economia mais sustentável. “Muita coisa mudou nos últimos anos”, diz o economista italiano Gianmarco Fifi, pesquisador da Universidade da Califórnia, Berkeley, que nos últimos anos tem se dedicado a estudar a economia política do gerenciamento de crises e como isso interfere na integração europeia. De 2019 para cá, os partidos verdes perderam apelo com o eleitor. Ao mesmo tempo, políticos de extrema direita e nacionalistas ganharam força. Crises econômicas em países importantes, como a Alemanha, e as tensões geopolíticas, como a causada pela guerra na Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, e pelo conflito no Irã deslocaram a atenção do público para outros temas. “A maioria dos líderes políticos hoje hesita em se comprometer com a ação climática, pois isso é percebido como conflitante tanto com a prosperidade econômica quanto com os incentivos da política eleitoral”, afirma ele. Fifi lembra ainda que o plano europeu nunca foi carregar o problema sozinho. “A UE pretendia agir como ‘primeira a se mover’ no combate à mudança climática, mas nunca pretendeu que fosse a única.” O risco agora é de que, isolados e sem vantagem competitiva clara diante de China e Estados Unidos, os europeus percam também a capacidade de puxar padrões ambientais mundo afora.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia: ação climática passou a ser vista como incompatível com a prosperidade econômica (Leandro Fonseca/Exame)
Além disso, existe um componente demográfico. Os riscos potenciais da mudança climática estão distribuídos de forma altamente desigual, não só geograficamente, mas entre gerações. “Os jovens são os que provavelmente mais sofrerão com os efeitos das mudanças climáticas”, pondera o economista. “Mas a Europa é um continente que envelhece, e muitas pessoas não acreditam que os efeitos que correm o risco de sofrer ao longo de suas vidas justifiquem os custos que a transição implica.” A situação deixa expectativas pouco animadoras para a COP31, que acontece na Turquia em novembro, e na qual o Brasil esperava obter avanços nos acordos para consolidar a transição energética com foco nos biocombustíveis e na eletrificação, em sua maioria pendentes da COP30, de Belém. A nova postura europeia pode representar uma espécie de vácuo na liderança das discussões ambientais.
Os últimos acontecimentos mostram que a conta está chegando mais cedo do que muita gente poderia esperar. Uma estimativa do professor Christopher Callahan, da Universidade de Indiana (EUA), prevê em pouco mais de 20.000 o número de mortes excedentes provocadas pela forte onda de calor de 22 a 26 de junho na Europa. Outro estudo, feito pela seguradora Allianz, concentra-se nos aspectos mais econômicos: ele mostra que os trabalhadores perdem em média 1,3 dólar por hora de produtividade a cada grau adicional quando a temperatura vai de 30 a 35 ºC. A empresa considera que o calor extremo está emergindo como um risco econômico estrutural ao qual a Europa está particularmente exposta.
Com base nas projeções da Allianz, o Triodos Bank, com sede na Holanda, calculou em 180 bilhões de euros as perdas econômicas causadas pelo excesso de calor deste verão europeu — um número que, na prática, pode anular a expectativa para o crescimento do PIB em 2026 na União Europeia. Essas perdas se concentram na queda da produtividade, nas dificuldades para a geração e no consequente aumento nos preços de energia, e nos prejuízos causados no sistema de transportes, na quebra da produção agrícola e no aumento do custo dos alimentos.
Com cerca de 17 bilhões de euros em ativos totais, o Triodos é um banco relativamente pequeno no cenário europeu quando comparado a gigantes mais tradicionais, como o ING, o Rabobank e o ABN Amro, mas ocupa uma posição particular nas discussões sobre a transição energética e o aquecimento global — a instituição só investe ou empresta dinheiro para atividades alinhadas à sustentabilidade. Os economistas do banco veem o futuro com preocupação. “Os danos climáticos muito provavelmente se agravarão de forma exponencial, pois boa parte dos efeitos que documentamos apresenta essas não linearidades”, diz o economista Ernst Hobma, um dos autores do estudo do Triodos. Ele dá um exemplo: no transporte, uma seca moderada afeta um pouco as safras e o transporte fluvial, mas uma seca extrema torna grandes rios inavegáveis e ameaça mais seriamente as colheitas. “Além disso, há uma séria possibilidade de que os pontos de inflexão das mudanças climáticas afetem uns aos outros, o que significaria que, além de determinado nível, as mudanças climáticas passam a se rertroalimentar”, afirma. “Isso quer dizer que quaisquer custos imediatos de políticas de mitigação mais rigorosas serão irrisórios diante dos danos enormes que viriam no futuro sem elas.” Se ele estiver certo, cada norma relaxada hoje na política ambiental europeia terá custos bem mais elevados no futuro.
