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O preço da incerteza: como o tarifaço de Trump mudou o mundo

Política aumentou a arrecadação dos EUA, não baixou déficit e mantém comércio global em suspense

Donald Trump: presidente dos EUA apresentou tabela com tarifas em abril  de 2025. Um ano depois, sua política trouxe poucos resultados para o país (Chip Somodevilla/Getty Images)

Donald Trump: presidente dos EUA apresentou tabela com tarifas em abril de 2025. Um ano depois, sua política trouxe poucos resultados para o país (Chip Somodevilla/Getty Images)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 23 de abril de 2026 às 06h00.

Em abril de 2025, o presidente Donald Trump levou um cartaz para um evento no jardim da Casa Branca. Em suas mãos, uma tabela mostrava tarifas para vários países do mundo, que ele prometia que mudariam a economia dos Estados Unidos e o comércio global.

De lá para cá, as tarifas tiveram uma série de idas e vindas e, ao que tudo indica, tanto as cobranças quanto a incerteza devem permanecer ainda por bastante tempo. “O governo [Trump] está preparando o terreno para reimpor tarifas por meio das Seções 301 e 232. É provável que o governo pretenda manter um nível mais alto de tarifas básicas do que o vigente antes de 2025”, diz Jesse Solis, vice-presidente da Tax Foundation, entidade de Washington que estuda política fiscal.   

Para os EUA, as tarifas geraram aumento de arrecadação, de quase 200 bilhões de dólares no ano fiscal de 2025, na comparação com o ano anterior. Em 2025, o fluxo de comércio exterior cresceu, mas o déficit americano ficou quase inalterado, com queda de mero 0,2%. Trump colocou a redução deste valor como uma das principais razões para adotar as cobranças. Já as relações com os países tiveram alterações maiores. Os americanos passaram a comprar menos da China e mais de países como México e Vietnã (veja quadro abaixo).

O Brasil foi um dos países com mais reviravoltas nas tarifas. Em abril, começou com 10%, taxa recíproca mínima. Depois, teve o percentual aumentado para 50%, em julho, mas uma série de isenções foram adotadas. Porém, em abril deste ano, 65% das exportações nacionais ainda recebiam cobranças extras.

Uma preocupação no horizonte é a imposição de novas taxas por meio da Seção 301. Os EUA abriram uma investigação contra o Brasil por suposta concorrência desleal, em áreas como pagamentos, etanol, carne bovina e pirataria digital. As ações impostas por essa medida tendem a ser mais difíceis de derrubar, pois possuem base jurídica sólida. “Poderão vir mais tarifas por esse canal, além de ações responsivas, que podem levar até a sanções financeiras”, diz Bruna Santos, diretora do programa de Brasil no think tank Inter-American Dialogue, sediado em Washington.

Ao mesmo tempo, o Brasil aproveitou o momento de reorganização no comércio global para obter novos acordos comerciais. O maior deles, entre Mercosul e União Europeia, entra em vigor em 1o de maio.

“Nunca o Brasil exportou tanto quanto no ano do tarifaço. Apesar de uma queda de 6,6% das exportações aos Estados Unidos, o aumento das exportações para outros destinos mais do que compensou”, diz Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do governo do Brasil. “Há um esforço contínuo de diversificação de parcerias com países interessados em investimentos baseados em friend-shoring.” A secretária lamenta, no entanto, que a incerteza vinda dos EUA dificulte o avanço do comércio entre os dois países. “O comércio está claramente aquém do potencial”, diz.

Trump deixou claro que não pretende desistir das tarifas, e há risco de que os próximos governos não queiram retirá-las. A gestão de Joe Biden manteve taxas contra a China adotadas no primeiro governo Trump. “Poderá ser um desafio para os futuros formuladores de políticas reverter as tarifas mais altas”, diz Solis, da Tax Foundation.

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