Revista Exame

O Nó Górdio

Um novo Oriente Médio emerge do conflito entre EUA e Irã, com consequências novas para o mundo e para o Brasil

Desde o imperador romano Trajano, em 116 d.C.,  quem chega ao Golfo Pérsico e proclama vitória raramente é quem escreve o que vem a seguir (Twomeows/Getty Images)

Desde o imperador romano Trajano, em 116 d.C., quem chega ao Golfo Pérsico e proclama vitória raramente é quem escreve o que vem a seguir (Twomeows/Getty Images)

Diogo Castro e Silva
Diogo Castro e Silva

Economista e Sócio da Nostrum Public Affairs

Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.

“Vocês têm os relógios; nós, o tempo.”  Esta frase, atribuída a um comandante talibã durante negociações com os EUA, ficou famosa porque no fundo cristalizava a impossibilidade de vitória ocidental no Afeganistão. A versão atual do Irã acrescenta ao tempo a geografia traduzida no nó górdio que é o Estreito de Ormuz. Tempo e espaço frustraram exércitos poderosos desde tempos imemoriais e de novo fizeram mais duas vítimas em Israel e nos EUA, que, no ápice da sua hegemonia, descobriram e fizeram outros descobrir os limites do seu poder militar. Não sabemos ainda quando haverá uma paz estável e um novo equilíbrio na região, já que o cenário mais provável hoje parece ser o de uma paz quente. Mas um novo Oriente Médio está emergindo do conflito, velho em muitas das suas determinantes, mas com consequências novas para o mundo e para o Brasil.

Em 7 de dezembro de 1941, o Japão atacava Pearl Harbour numa ofensiva taticamente brilhante que tinha como objetivo estratégico não a derrota americana, mas levar os EUA a negociações que reconhecessem os interesses japoneses na Ásia. A ilusão estratégica japonesa transformou uma das vitórias navais mais marcantes do século no princípio do seu próprio fim. Israel e EUA atacaram o Irã neste ano com o objetivo estratégico de derrubar o regime daquele país, que estava numa situação de grande fragilidade, e com isso resolver de uma só vez todos os problemas com o Irã. Do programa nuclear ao apoio ao Hezbollah e ao Hamas, passando pelos mísseis balísticos, tudo seria resolvido de uma assentada. E, apesar de toda a capacidade das forças armadas dos dois países e dos seus inúmeros sucessos iniciais, quase seis meses depois o resultado em nível estratégico é desastroso. O regime do Irã se fortaleceu internamente, descobriu na prática o poder sobre a economia mundial que o controle do Estreito de Ormuz lhe dá e demonstrou capacidade de causar imenso dano não só na infraestrutura militar americana na região como nas economias dos seus vizinhos. De novo, como tantas vezes na história, premissas estratégicas erradas derrotam o plano militar mais bem concebido e trazem consigo uma nova (pior) realidade.

O Oriente Médio tem sido sempre palco de impérios: Assírio, Persa, Grego, Romano, Árabe, Otomano, Britânico. E, mais recentemente, os EUA exerceram hegemonia militar e política na região. Muitas vezes, as consequências da “passagem de bastão” se prolongaram no tempo para muito além do esgotamento da presença de cada um. Muitos dos conflitos a que assistimos na região, por exemplo, têm sua origem no fim do domínio otomano há mais de um século. À sombra da hegemonia e segurança americanas, o Golfo Pérsico assumiu o seu papel histórico de ligação entre Ocidente e Oriente. Existem depósitos mais importantes de moedas romanas na Índia do que na Europa, e todo esse comércio milenar passava pelo Golfo. Hoje, essa vocação é corporizada no extraordinário sucesso dos Emirados nas últimas décadas em se transformarem em plataformas logísticas globais de mercadorias e pessoas. Esse mundo está agora ameaçado pelo fim, não da presença dos EUA, mas da sua hegemonia. Novos eixos estão a emergir na região. Os Emirados continuam alinhados com os EUA, mas hoje quase sozinhos nessa posição, por não terem alternativa estratégica óbvia. Arábia Saudita, Turquia, Paquistão, Egito e Omã, cada um por motivos próprios, fazem um balancing crescente, distanciando-se de Washington e de Israel sem se tornarem aliados de Teerã. A acomodação é facilitada pela mudança da natureza do regime iraniano que emerge da guerra. Mais militar do que religioso, e com menor virulência sectária xiita que, desde 1979, alarmava os vizinhos sunitas. Isso faz o espaço de manobra estratégico dos EUA encolher. À semelhança do resto do mundo, também a região se torna mais multipolar.

E quais são algumas das consequências que emergem dessa fragmentação? Em primeiro lugar, o custo all-in do petróleo para os países da região ficou muito mais alto. Grandes investimentos têm de ser destinados a aumentar a resiliência de toda a cadeia, reduzindo a dependência do Estreito. Superávits que financiavam investimento fora do petróleo e alimentavam o setor financeiro e as economias de várias regiões, incluindo o Brasil, vão minguar por esse efeito de custo e porque os incentivos para aumentar a produção e fragmentar a OPEP já estão acontecendo hoje, como fica claro na decisão recente dos Emirados em sair da organização. Uma tendência que se vai acentuar a partir de 2027.  Esse cenário faz um pouco lembrar um pouco o que se passou no início dos anos 80 do século passado com o fim do boom dos petrodólares e que aqui na nossa região ajudou a despoletar a crise da dívida externa. Agora, os primeiros a sentir vão ser os fundos de investimento que sempre olharam para o Golfo como paragem prioritária de levantamento de recursos. Em segundo lugar, o interesse pela exploração de petróleo em outros locais vai crescer. O petróleo da nossa região apresenta um risco geopolítico baixo e fácil acesso aos principais mercados consumidores. Em terceiro, a transição energética ganha um argumento securitário em cima do climático. Uma das razões pelas quais a China se encontra muito menos ansiosa com a crise do Golfo tem a ver com a eletrificação que explodiu no país na última década. Por último, o impacto de custos mais elevados em cadeias setoriais em nível global. Fertilizantes, semicondutores e materiais de construção são dos mais atingidos, e as empresas brasileiras com exposição a esses setores vão ser impactadas de forma direta.

Em 116 d.C., Trajano tornou-se o único imperador romano a alcançar a costa do Golfo Pérsico. Mandou erguer ali a sua estátua e escreveu ao Senado a anunciar a guerra terminada. Pouco depois, a Mesopotâmia revoltou-se inteira, e Trajano nunca mais regressou. Quase 2.000 anos depois, quem chega ao Golfo a proclamar vitória raramente é quem escreve o que vem a seguir.

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