Em 2023, teremos um novo governo eleito; qual é o mundo que Lula encontra?

O novo presidente chega a um cenário global mais dividido do que há 20 anos. Mas sua eleição foi bem recebida, avalia Oliver Stuenkel, da FGV
Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais na FGV: “Estabilidade interna é a base de qualquer política externa” (Julia Rodrigues/Divulgação)
Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais na FGV: “Estabilidade interna é a base de qualquer política externa” (Julia Rodrigues/Divulgação)
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Carolina RiveiraPublicado em 17/11/2022 às 06:00.

Minutos após a confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, começou a enxurrada de mensagens de líderes mundiais parabenizando o vencedor. É um reconhecimento comum, mas a rapidez nas respostas impressionou até os habituados a acompanhar os trejeitos (e os não ditos) da diplomacia.

Essa animação das potências — que se repete na Conferência do Clima, a COP27, para a qual Lula embarcava no fechamento desta edição — é uma das apostas do governo eleito para transmitir imagem de segurança e estabilidade e atrair investimentos. Mas é também um contraste com as reações dos mercados e com as dúvidas sobre a condução da economia vistas nos últimos dias.

As duas coisas poderão coexistir? Para Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais na Fundação Getulio Vargas e que estuda há mais de uma década o papel dos emergentes na esfera global, o Brasil contará, sim, com oportunidades econômicas decisivas na política externa, se souber aproveitá-las.

Por outro lado, Lula encontra um mundo em pleno embate China-Estados Unidos e uma América do Sul mais “asiacêntrica” e menos motivada à integração regional, além de um Brasil mais turbulento em sua política interna — o que pode deixar menos margem para pensar no exterior.

“Estabilidade interna é a base de qualquer política externa. Os últimos três presidentes não conseguiram enfatizar a política externa, em parte porque tiveram de lutar por sua sobrevivência”, diz.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Há uma boa vontade, talvez até uma animação, dos líderes mundiais com a eleição de Lula? Ou é um comportamento normal na diplomacia?

A rapidez das respostas se deve sobretudo às preocupações com a estabilidade pós-eleitoral e com um não reconhecimento do resultado por Bolsonaro. Havia uma ação coordenada entre uma série de capitais para parabenizar Lula rapidamente. No Ocidente, a maioria dos governos vê a vitória de Lula com bons olhos.

Apesar de Bolsonaro ter iniciado seu mandato com uma postura anti-China, a relação entre Brasil e Ocidente piorou muito. Parece-me que o auge foi a decisão de Bolsonaro de ecoar alegações de Trump de supostas fraudes nas eleições dos Estados Unidos. Com isso, completou-se certo isolamento diplomático do Brasil no Ocidente. O que, paradoxalmente, acabou ajudando a aumentar a importância dos países do Brics e da China para o Brasil.

Então houve, sim, uma celebração um pouco velada entre as potências ocidentais, porque Lula é visto como um ator mais previsível e mais disposto a fazer com que o Brasil contribua para lidar com grandes desafios globais.

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No Brasil, Lula tem sofrido reação dos mercados, mas ao mesmo tempo é celebrado na COP e chega com a esperança de atrair investimentos. Como é possível comportamentos tão diferentes? A boa vontade internacional com Lula pode se refletir em temas de economia e investimentos, ou serão sempre coisas separadas tal qual estamos vendo?

Eu diria que a elite financeira internacional tende a ser mais otimista com o governo Lula do que a brasileira, não é de hoje. Vê-se muito em entrevistas com chefes de bancos internacionais, como o do J.P. Morgan [mesmo após a sangria nos mercados, Jamie Dimon disse estar “otimista” com o Brasil e que Lula foi “bastante racional e moderado no governo”].

Na visão internacional, a permanência de Bolsonaro poderia ter aumentado alguns riscos, como boicote a produtos brasileiros ou fundos céticos em relação à questão ambiental. A verdade é que Lula é muito menos controverso no exterior do que no Brasil.

As relações internacionais se destacaram nos governos Lula nos anos 2000. Desta vez, o que há de diferente no mundo que Lula encontra? Está mais difícil?

Acho que a primeira coisa diferente é o próprio Brasil. O Brasil hoje é mais pobre, mais dividido, mais frustrado, mais instável. E estabilidade interna é a base de qualquer política externa. Os últimos três presidentes do Brasil não conseguiram enfatizar a política externa, em parte porque tiveram de lutar por sua sobrevivência interna.

Além disso, o ambiente geopolítico hoje é muito mais hostil para o Brasil. As organizações multilaterais, que sempre têm sido um lugar importante para o Brasil se projetar, são menos influentes do que nos anos 2000. E, em função das tensões entre grandes potências, sobretudo Estados Unidos-Rússia e Estados Unidos-China, a equidistância, a neutralidade — esse papel que o Brasil costuma buscar — está mais difícil de atingir. Isso certamente produz um contexto muito diferente de quando Lula foi presidente.

Com essas tensões entre as grandes potências, o Brasil ainda conseguirá a almejada boa relação com China e Estados Unidos sem se posicionar?

O tamanho desse espaço de manobra do Brasil dependerá de sua capacidade de se projetar como ator construtivo. Países que são vistos como construtivos têm maior espaço para desenvolver as próprias estratégias.

Desde que a Europa e os Estados Unidos enxerguem o Brasil como uma liderança no combate às mudanças climáticas, por exemplo, o Brasil terá mais espaço para, digamos, desagradar a Washington, Paris e Bruxelas no quesito Ucrânia e China. Da mesma forma, desde que a China enxergue o Brasil como um ator relevante nesse sentido, Pequim também estará mais disposta a aceitar que o Brasil esteja do lado do Ocidente em alguns assuntos.

Temos visto a eleição de vários governos de esquerda na América do Sul — que alguns dizem que pode ser uma nova “onda rosa”, como nos anos 2000. Uma liderança do Brasil, agora com um presidente de esquerda, pode fortalecer essa integração regional?

O Brasil não é e nunca foi unanimidade na região como liderança, sempre houve questionamentos. Mas também é correto dizer que nenhuma grande iniciativa regional pode avançar sem atuação brasileira. Com a volta do Lula existe temporariamente um maior alinhamento ideológico, e isso tem sido historicamente um fator importante para avançar na integração regional. Mas a atual onda rosa é acima de tudo uma onda antigovernista, contra quem está no poder.

É provável que ela seja muito mais curta e que a esquerda perca em breve Peru e Argentina. O descontentamento público é muito maior do que nos anos 2000 e fará com que lideranças precisem dedicar muito mais tempo a assuntos internos do que regionais.

Vimos Alberto Fernández, presidente da Argentina, voar para o Brasil logo após a vitória de Lula. Para o interesse econômico desses países, a integração não pode trazer benefícios em um mundo que está se fechando?

O comércio intrarregional hoje é muito menos importante. Há 20 anos havia grandes construtoras brasileiras querendo construir metrô em Caracas, estrada no Peru. Hoje, essas empresas não existem mais, e as grandes estrelas da economia brasileira querem exportar soja e minério de ferro para a China. O incentivo econômico para se aproximar da região já não é mais o mesmo. Estamos em um mundo muito mais asiacêntrico.

Existe inclusive certa competição entre países da região para ganhar acesso ao mercado chinês. Então, vai haver uma mudança na relação com vizinhos sob Lula? Sem dúvida. Mas o espaço para cooperação hoje certamente é menor do que 20 anos atrás.

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