Aula no NextGen: chance de vivenciar cultura empreendedora na prática (Saint Paul/Divulgação)
Redatora
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 06h00.
Imagine o economista de décadas atrás: pilha de relatórios, calculadora, horas tentando descobrir o que os números diziam. Agora coloque a IA nessa mesa: ela organiza dados, encontra correlações e produz em segundos a análise que antes levaria horas. O economista não perdeu sua matéria-prima — perdeu parte do trabalho braçal. O desafio agora é interpretar números em parceria com máquinas que também sabem lê-los.
Um relatório do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho, publicado em janeiro de 2025, cruza dois dados que parecem se contradizer. De um lado, o pensamento analítico continua como a habilidade mais valorizada pelas empresas do planeta — sete em cada dez empregadores a colocam no topo da lista. De outro, entre as ocupações com queda mais rápida esperada até 2030 estão contadores e auditores, área vizinha da economia.
Para quem forma economistas, a leitura é desconfortável: o trabalho mais repetitivo da área — auditoria, triagem de dados — é o que a IA já executa mais rápido do que um analista recém-formado.
A saída, diz o Fórum, não é abandonar a análise, e sim reposicioná-la: mais de 90% das dez indústrias que mais esperam crescer preveem aumento no uso de IA e big data, a habilidade técnica de crescimento mais rápida do relatório. Mas o documento é enfático: técnica sozinha não basta. Os perfis mais disputados combinam ferramentas com pensamento crítico e comunicação, repertório que hoje precisa ser desenvolvido ao lado da estatística e da macroeconomia.
Isso não impediu o mercado de continuar contratando. Segundo o Portal Salário, com base em microdados do Caged, a contratação de economistas cresceu 24,8% entre julho de 2025 e junho de 2026, com saldo ainda levemente negativo, mas em volume de expansão. O gargalo não é a falta de vagas, e sim o descompasso entre o perfil formado e o procurado.
Foi esse cruzamento entre repertório técnico e leitura de cenário que Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro Nacional (2018-2020), resumiu a estudantes de ensino médio, em agosto, num encontro da Saint Paul Escola de Negócios. “Qualquer pessoa que hoje esteja numa sala como essa pode ser um grande economista do setor privado, um grande administrador, ou então um grande economista do setor público”, disse. “Tudo está ao alcance deles”, completou.
A frase descreve o que sempre diferenciou a economia: a amplitude de destinos para um único diploma. Segundo o Conselho Federal de Economia, o país tem hoje cerca de 230.000 economistas formados e credenciados em atividade — de bancos e Banco Central a consultorias e organismos internacionais. O que mudou foi a exigência de quem a percorre.
Em Cambridge, o MIT já formalizou essa mudança em diploma: o Departamento de Economia oferece, com a engenharia, uma graduação conjunta em ciência da computação, economia e ciência de dados, voltada a carreiras em economia, consultoria e finanças.
No Brasil, o movimento é mais gradual: a Escola de Pós-graduação em Economia da FGV descreve sua formação como diálogo permanente com tecnologia e IA, ao lado de pilares clássicos.
É nesse cenário que o NextGen Talk, da Saint Paul, tenta antecipar essa conversa para antes da faculdade: quanto mais cedo um jovem entende o que um economista de fato faz, menos a escolha vira decisão no escuro.
Há uma geração, dominar macroeconomia e estatística já bastava para formar um bom economista. Hoje isso é só metade do caminho: sem fluência em dados e tecnologia, a formação fica incompleta. Talvez este seja o resumo mais honesto do momento: o economista do futuro não vai escolher entre entender de gente e entender de dados. Vai precisar das duas coisas ao mesmo tempo, e cada vez mais cedo.