Liceu Pasteur Start Anglo Trilingual School, em São Paulo: a IA adapta planos de ensino às necessidades de cada aluno (Liceu Pasteur/Divulgação)
Repórter de Projetos Especiais
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 25 de setembro de 2026 às 09h51.
Não dá mais para fugir: a inteligência artificial chegou às escolas. Alunos recorrem a ferramentas como ChatGPT, Gemini e Copilot para pesquisar, escrever e estudar. Professores começam a incorporá-las ao planejamento das aulas. E as instituições de ensino, aos poucos, criam disciplinas, projetos e novas formas de acompanhar a aprendizagem. A velocidade com que isso acontece, no entanto, coloca uma questão menos óbvia na mesa de discussão: se a máquina pode responder e explicar, qual é, exatamente, o papel da escola?
A pergunta não é trivial. Mas, para os especialistas ouvidos pela EXAME, a resposta passa longe de uma escola menos necessária. A inteligência artificial, na verdade, torna sua função ainda mais complexa: formar estudantes capazes de trabalhar com uma tecnologia que produz respostas convincentes em poucos segundos, mas que também pode errar, reproduzir vieses e, quando usada sem critério, terceirizar parte do próprio raciocínio.
Esse desafio se torna ainda maior diante da velocidade com que a tecnologia entrou na rotina dos estudantes. Sete em cada dez alunos do ensino médio que usam internet recorrem a ferramentas de inteligência artificial generativa para pesquisas escolares, segundo a pesquisa TIC Educação 2025, realizada pelo Cetic.br. Nos anos finais do ensino fundamental, são 39%; nos anos iniciais, 15%. A orientação, porém, não acompanha a velocidade de adoção: apenas 32% dos estudantes do ensino médio dizem ter recebido instruções da escola sobre como usar IA. Entre as instituições de ensino, 22% possuem algum guia para orientar seu uso em atividades de ensino, aprendizagem ou gestão.
A discussão começa, assim, a ganhar outra dimensão. O Ministério da Educação, em nota exclusiva à EXAME, diz que a IA deve atuar como recurso de apoio ao ensino e, ao mesmo tempo, como objeto de conhecimento que precisa ser compreendido pelos estudantes.
Escola bilíngue Pueri Domus, em São Paulo: imersão em IA e empreendedorismo cria protótipos e modelos de negócios (Ney Nogueira/Divulgação)
Da ferramenta ao conteúdo
Algumas escolas brasileiras já começaram a testar esse caminho. No Colégio Dante Alighieri, tradicional escola de São Paulo, a história começou muito antes da explosão do ChatGPT.
O currículo de educação digital foi criado no início dos anos 1990, com aulas extracurriculares de informática, explica Valdenice Minatel, diretora institucional e de tecnologia do colégio. Em 1996, a disciplina passou a integrar o currículo. Em 2018, veio uma eletiva de inteligência artificial para o ensino médio, em parceria com IBM e ESPM. Em 2022, a escola revisou novamente o currículo e incluiu a inteligência artificial generativa em uma proposta contínua, que acompanha o aluno da educação infantil ao ensino médio. “Em todas as etapas, a proposta do Dante busca desenvolver não apenas competências técnicas, mas também pensamento crítico, autonomia, criatividade, ética e responsabilidade”, afirma.
A experiência mostra uma mudança de perspectiva: a IA deixa de ser apenas uma ferramenta para realizar tarefas e passa a ser também um tema que o estudante precisa compreender. Christian Brackmann, consultor da Unesco na área de inteligência artificial na educação básica, defende esse movimento. “A escola precisa parar de tratar a IA generativa apenas como ferramenta e passar a ensiná-la como objeto de conhecimento.”
Para ele, isso significa ensinar de onde vêm os dados, como os modelos identificam padrões, por que podem produzir erros e como surgem vieses. O aluno pode usar a tecnologia, diz Brackmann, mas precisa entender o que existe por trás da resposta que recebe.
Danilo Oliveira, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), acrescenta uma ressalva: a inteligência artificial generativa não necessariamente rompe com o modelo tradicional de ensino. Dependendo de como é usada, pode apenas torná-lo mais eficiente. “Quando a máquina é utilizada para resumir, simplificar, responder ou produzir automaticamente aquilo que antes exigia elaboração humana, a tecnologia pode apenas tornar mais eficiente uma lógica pedagógica que já existia”, defende Oliveira.
Para o pesquisador, a pergunta mais importante está além da ferramenta. “A questão mais urgente, portanto, não é simplesmente como colocar a IA na escola, mas qual educação queremos produzir com ela e qual lugar desejamos reservar à ação humana.”
Quando a IA ajuda a ensinar
Em outras escolas, a inteligência artificial aparece menos como conteúdo e mais como parte da operação pedagógica. No Liceu Pasteur Start Anglo Trilingual School, em São Paulo, uma solução de IA é usada para apoiar planos de ensino individualizados. A ferramenta analisa informações fornecidas por professores e alunos e ajuda a identificar necessidades específicas de aprendizagem. Na escrita, a tecnologia também ganhou espaço. A plataforma Redação Nota 1000 permite acompanhar o desempenho de alunos e turmas e apoiar intervenções pedagógicas. Segundo dados do colégio, estudantes engajados na plataforma melhoram 270 pontos após dez textos produzidos no formato exigido pelo Enem.
A lógica é diferente daquela em que a máquina simplesmente entrega a resposta. A informação produzida pela tecnologia volta para o professor, que pode usá-la para entender melhor a turma e decidir onde concentrar sua atenção. Os dados da TIC Educação 2025 destacam esse potencial. Entre gestores de escolas que utilizam IA, 73% apontam a contribuição da tecnologia para a melhoria da aprendizagem; 62%, para a identificação de dificuldades de aprendizagem; e 64%, para a inclusão de alunos com deficiência.
A IA começa, portanto, a aparecer também nos bastidores da escola: na análise de informações, no acompanhamento de alunos e na organização de processos pedagógicos.
Valdenice Minatel, diretora do Dante Alighieri: desenvolver não apenas competências técnicas, mas também pensamento crítico (Dante Alighieri/Divulgação)
O professor também aprende
A adoção da IA cria outra necessidade: preparar quem ensina. Segundo a OCDE, 37% dos professores utilizam IA generativa em atividades relacionadas ao trabalho, como planejamento de aulas, aprendizado sobre temas e síntese de conteúdos. Ao mesmo tempo, 60% haviam participado de algum treinamento em educação digital no ano anterior.
No Anglo Alante, esse preparo começa antes de a disciplina chegar às salas de aula. Todos os professores passaram por uma formação em letramento digital, com duração de três meses. Em 2026, a rede incorporou aos anos finais do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio o Dia Lab, disciplina dedicada à IA, ao letramento digital, à ética e ao uso crítico da tecnologia.
“Mais do que simplesmente utilizar essa tecnologia, nossos alunos estão sendo conduzidos a compreender como esses sistemas funcionam internamente. São incentivados a refletir sobre como a máquina aprende, de onde se originam os dados que a alimentam e quais impactos esses processos geram na sociedade”, diz Yan Luz, coordenador da rede.
Se a máquina consegue produzir uma resposta em poucos segundos, ganha importância a capacidade do professor de selecionar problemas, contextualizar informações, questionar resultados e criar experiências em que o aluno precise pensar. É justamente aí que a inteligência artificial também pode mexer com a avaliação. Para Oliveira, o foco precisa se deslocar do resultado pronto para o processo de construção do conhecimento. “A questão deixa de ser simplesmente controlar se o aluno utilizou ou não a tecnologia e passa a ser construir situações nas quais utilizar a tecnologia também exija pensar.”
Menos celular, mais inteligência
A presença da IA ocorre em um momento curioso para as escolas. Ao mesmo tempo que ferramentas digitais começaram a se multiplicar, o Brasil passou a restringir o uso de celulares no ambiente escolar. Para Valdenice Minatel, as duas coisas não são contraditórias. “Tecnologia não é sinônimo de aprendizagem”, afirma. O Dante apoia a redução do uso indiscriminado de dispositivos quando eles se tornam fonte de distração e prejudicam a convivência e a atenção. Isso não significa, porém, afastar a tecnologia do processo educacional.
“O nosso equilíbrio está justamente na intencionalidade pedagógica. Defendemos um uso planejado, mediado, significativo e integrado”, diz. No Dante, a inteligência artificial entra como objeto de estudo e como ferramenta em situações específicas, sempre associada a objetivos de aprendizagem e a discussões sobre ética, privacidade, vieses, autoria e pensamento crítico.
“Restringir o celular como elemento de dispersão e, ao mesmo tempo, ensinar o uso responsável da IA não são objetivos contraditórios. Pelo contrário: ambos fazem parte de uma mesma proposta educativa, que busca desenvolver autonomia, senso crítico e cidadania digital”, afirma Minatel.
Aprender fazendo
Na Escola Bilíngue Pueri Domus, a IA aparece em uma experiência mais prática. O Onward Brazil Scholars 2026 reúne estudantes dos ensinos fundamental e médio em uma imersão de cinco dias em IA e empreendedorismo, com mentoria de estudantes de graduação de Harvard.
Os participantes identificam problemas, desenvolvem soluções, criam protótipos, estruturam modelos de negócios e apresentam os projetos. Ao longo do processo, entram fundamentos de inteligência artificial, engenharia de prompts e ferramentas que permitem criar aplicativos sem programação tradicional.
“Mais do que apresentar conceitos, o Onward Brazil Scholars 2026 coloca os estudantes no centro de uma experiência prática, na qual eles precisam pensar, construir, testar, comunicar e defender suas próprias ideias”, afirma Deivis Pothin, diretor-geral da escola.
É uma maneira de ensinar IA que não depende apenas de explicar o funcionamento de uma ferramenta. O estudante precisa encontrar um problema, fazer escolhas, testar possibilidades e defender o resultado.
Essa formação também dialoga com o mundo do trabalho. Minatel, do Dante, aponta uma demanda crescente por profissionais capazes de trabalhar com ferramentas de IA, compreender seus limites, avaliar a qualidade das informações produzidas e utilizá-las de maneira ética, segura e responsável.
“Acreditamos que a discussão já não seja mais sobre se as escolas vão incorporar a IA, mas sobre como farão isso de forma ética, crítica e com intencionalidade pedagógica”, afirma. A frase resume o ponto a que a educação parece ter chegado. A inteligência artificial já faz parte da vida dos estudantes. Tentar mantê-la distante da escola é cada vez menos uma questão de escolha. A oportunidade está em fazer com que sua presença tenha valor pedagógico.
Para Minatel, a mudança mais profunda pode acontecer na própria maneira de aprender. A possibilidade de receber respostas personalizadas amplia as possibilidades, mas também exige repertório, mediação e curadoria.
É uma nova tarefa para a escola: não apenas ensinar a usar a tecnologia, mas formar alunos capazes de compreender suas respostas, questioná-las e decidir quando vale a pena confiar nelas.