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'Todos os provedores de IA precisam da nuvem', diz vice-presidente do Google Cloud

Em entrevista exclusiva à EXAME no Google Cloud Summit, Oliver Parker explica por que a nuvem é a base oculta da IA e detalha a expansão da empresa no Brasil

Oliver Parker: executivo defendeu que, antes de tudo, está a nuvem (Google Cloud /Divulgação)

Oliver Parker: executivo defendeu que, antes de tudo, está a nuvem (Google Cloud /Divulgação)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 25 de setembro de 2026 às 06h01.

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Oliver Parker, vice-presidente global de IA generativa da unidade de nuvem Google Cloud, afirmou nesta quinta-feira, 24, que a adoção corporativa de inteligência artificial depende da infraestrutura de nuvem e terá escala e segurança como prioridades nos próximos 12 meses. O executivo apontou a integração entre chips, infraestrutura, modelos e agentes como vantagem competitiva do Google.

Enquanto o mercado de tecnologia discute com entusiasmo os avanços recentes em modelos de linguagem e a corrida por data centers, uma peça mais antiga da engrenagem tende a ficar em segundo plano: a infraestrutura de nuvem que sustenta tudo isso por baixo.

Para Oliver Parker, vice-presidente global de IA generativa do Google Cloud, essa peça nunca deixou de ser central — só ficou menos visível. "Se você olhar onde a IA está hoje, e olhar para os grandes modelos de linguagem, principalmente as empresas que estão adotando essa capacidade, você está, na verdade, acelerando a tecnologia de nuvem por baixo para fazer a IA funcionar", diz Parker em entrevista exclusiva à EXAME, durante o Google Cloud Summit Brasil, em São Paulo.

Segundo ele, a comparação com a chegada da própria computação em nuvem, há 10 ou 15 anos, ajuda a entender o momento atual. Naquela época, empresas como Amazon, Microsoft e o próprio Google passaram a migrar aplicações existentes para a nuvem, tornando-as mais fáceis de rodar e de consumir.

"Você está pegando uma tecnologia existente e permitindo que as pessoas a consumam de um jeito muito mais fácil", afirma. Hoje, diz Parker, a IA depende da mesma lógica. Para ele, sistemas de IA generativa "são tão bons quanto a plataforma de dados" que os sustenta — e essa plataforma, no fim das contas, é construída sobre tecnologia de nuvem.

Parker descreve o mercado atual dividido, a grosso modo, em duas categorias que se sobrepõem cada vez mais. De um lado, os "provedores de inteligência" — empresas como o próprio Google, a Anthropic e a OpenAI, focadas em modelos de linguagem. De outro, os "hiperescaladores" de infraestrutura de nuvem — Amazon, Microsoft e o Google, novamente.

O Google, segundo ele, é hoje o único a operar plenamente nas duas frentes. "Nosso negócio de IA é um negócio melhor por causa do nosso negócio de nuvem, e nosso negócio de nuvem está se tornando um negócio melhor por causa do nosso negócio de IA", diz.

É essa integração vertical — do chip à camada de aplicação, passando por infraestrutura, modelos e agentes — que Parker aponta como a principal vantagem competitiva da empresa. "As pessoas falam de nuvem como se fosse coisa de ontem, e falam de IA como se fosse só hoje, mas, se você olhar para todos os provedores de IA, todos eles precisam de provedores de nuvem para sustentá-los em escala", afirma.

O que mudou — e o que não mudou — na venda de tecnologia

Com mais de 15 anos vendendo produtos de nuvem antes de assumir a área de IA, Parker enxerga tanto rupturas quanto continuidades na forma como empresas compram tecnologia hoje.

A primeira mudança, segundo ele, é a velocidade. "Nunca vi algo se mover tão rápido em termos de capacidade tecnológica. De uma semana para outra, você pode ver um salto de inteligência de fronteira", diz.

A segunda é a própria natureza da tecnologia. Diferentemente da internet ou da computação em nuvem, que Parker descreve como "capacidades tecnológicas fundamentais que permitem que coisas aconteçam", a IA generativa seria "quase como um sistema vivo, que respira e está sempre melhorando".

De volta ao topo: como o Google virou o jogo na corrida da IA

O que não mudou, para ele, é a exigência das empresas. "Os clientes corporativos ainda querem entender como fazer a tecnologia funcionar. Precisam de um fornecedor em quem possam confiar, que ofereça a segurança certa e que ajude na implementação", diz.

Segundo Parker, a diferença é que essa implementação passou a ter prazo mais curto. "O cliente não vai esperar um ano por um projeto. Ele quer ver valor em três semanas", afirma.

É esse motivo, segundo ele, que levou o Google Cloud a expandir sua equipe de "Forward-Deployed Engineers" — engenheiros que atuam integrados às equipes técnicas dos próprios clientes, anúncio feito pela empresa na quinta-feira, 24, durante o Summit.

Nem cético, nem exagerado: 'onde aplicar para ter o melhor impacto'

Questionado se o público está cético demais ou excessivamente entusiasmado com a IA, Parker rejeitou as duas leituras.

Para ele, a desconfiança que existia há dois anos sobre se a tecnologia era real e duradoura deu lugar a uma dúvida mais prática. "Acho que, se existe algum ceticismo hoje, é mais sobre onde aplicar a tecnologia para obter o melhor valor", diz. "As pessoas sabem que a IA pode ser útil, mas ainda precisam testar isso na vida real."

Sobre o temor de que a IA substitua empregos, Parker recorreu à própria experiência à frente da área nos últimos três anos. "Lembro da minha primeira entrevista de imprensa, e havia muita preocupação sobre substituir postos de trabalho. Três anos depois, a força de trabalho continua crescendo, e as pessoas que usam IA continuam produzindo mais", afirma.

Ele reconhece, porém, que sempre existirá algum grau de cautela. "É uma espécie de copiloto inteligente que te ajuda a ser muito mais produtivo. Vai sempre existir um nível de desconfiança, porque às vezes parece estranho: não é humano."

Para ele, à medida que a tecnologia se torna mais presente no dia a dia, inclusive em aplicativos de consumo comuns, essa resistência tende a diminuir.

'Liberdade de escolha' como estratégia comercial

Para Parker, na hora de ajudar uma empresa a escolher sua estratégia de IA, o ideal é usar o que chamou de filosofia de "liberdade de escolha": segundo ele, o Google Cloud oferece infraestrutura, modelos como o Gemini e ferramentas de segurança, mas não obriga o cliente a usar apenas produtos próprios em cada camada. "Nossa principal filosofia é que vamos oferecer aos nossos clientes liberdade de escolha. Eles poderão usar o Gemini, poderão usar diversas outras ferramentas e diferentes modelos", diz.

Segundo ele, essa flexibilidade permite à empresa fechar negócio em diferentes pontos da cadeia: só infraestrutura, para quem já tem seus próprios modelos; a plataforma completa, para quem quer variedade de ferramentas; ou apenas os agentes prontos, para quem busca uma solução de uso mais imediato.

"Podemos ser parceiros no nível do silício, ou podemos ser parceiros lá em cima, no topo da pilha tecnológica", afirma. "Nem muita gente pode dizer: 'Posso te oferecer a infraestrutura para você construir sua própria IA, ou você pode construir na minha plataforma gerenciada, ou pode simplesmente usar meus agentes prontos."

Por que o Brasil?

Sobre o interesse crescente de empresas de tecnologia pelo Brasil, Parker lembrou que o Google e a Alphabet mantêm operação no país há muito tempo — a empresa chegou ao Brasil ainda em 2005, com um centro de engenharia em Belo Horizonte —, mas que a unidade de nuvem só começou a operar localmente em 2018.

"Acho que vimos a oportunidade no Brasil, assim como o compromisso com a região ao longo de um período longo, diferente de outros novos entrantes no mercado", afirmou, referindo-se à concorrência mais recente de outras nuvens no país.

Para Marcel Silva, head de vendas e estratégia de mercado de IA para a América Latina, três fatores tornam o Brasil especialmente favorável à adoção de IA. O primeiro é demográfico.

"Nossa população é muito jovem, muito nativa digital. Adotamos tecnologia muito, muito rápido", diz.

O segundo é a menor presença de sistemas legados nas empresas brasileiras, em comparação com mercados como a Europa e os Estados Unidos, o que reduz a complexidade de integrar novas tecnologias. O terceiro, para ele — e o mais importante — é a própria natureza da IA generativa. "É uma tecnologia muito inclusiva, porque você não precisa de muito conhecimento técnico para usá-la — você interage por linguagem natural, é muito mais fácil do que há 20 ou 25 anos, quando era preciso saber programar", afirma.

Os próximos 12 meses: escala com segurança

Nos próximos 12 meses, o sinal mais claro de que a adoção corporativa de IA amadureceu, segundo Parker, não vai vir de um modelo mais avançado, mas de duas coisas bem mais práticas: escala e segurança.

Questionado sobre o que consideraria um sinal de progresso genuíno nesse período, ele apontou para esses dois eixos, que valem tanto para o Brasil quanto globalmente.

O primeiro é a escala: empresas que já têm casos de uso pontuais bem-sucedidos — em finanças, back office, recursos humanos — precisam agora levar essas iniciativas para toda a organização.

O segundo, e mais crítico, é a segurança. "Com tudo o que está acontecendo em torno de ciberataques, agentes de IA e postura de segurança, acho que isso vai ser muito importante", afirma. "É escala, acoplada à segurança. É assim que penso nos próximos 12 meses" — um ponto que ganha peso especial, segundo ele, em setores regulados como o financeiro.


'Perguntas frequentes'

Por que a inteligência artificial depende da infraestrutura de nuvem? +

Modelos e sistemas de IA generativa precisam da infraestrutura de nuvem para operar em escala. Segundo Oliver Parker, vice-presidente global de IA generativa do Google Cloud, esses sistemas são tão eficientes quanto a plataforma de dados que os sustenta.

Qual é a vantagem competitiva do Google no mercado de IA? +

Segundo Oliver Parker, o Google atua tanto como provedor de modelos de linguagem quanto como hiperescalador de infraestrutura de nuvem. O executivo aponta a integração entre chips, infraestrutura, modelos e agentes como a principal vantagem competitiva da empresa.

O que mudou na contratação de projetos de IA pelas empresas? +

As empresas passaram a exigir resultados em prazos mais curtos, afirma Oliver Parker. Segundo o executivo, clientes corporativos não querem esperar um ano por um projeto e esperam perceber valor em cerca de três semanas.

O que são os Forward-Deployed Engineers do Google Cloud? +

Os Forward-Deployed Engineers são engenheiros que trabalham integrados às equipes técnicas dos clientes do Google Cloud. Segundo Oliver Parker, a exigência por implementações mais rápidas levou a unidade de nuvem a expandir essa equipe.

Por que o Brasil favorece a adoção de inteligência artificial? +

Segundo Marcel Silva, head de vendas e estratégia de mercado de IA para a América Latina, o Brasil reúne uma população jovem e nativa digital, empresas com menos sistemas legados e rápida adoção tecnológica. Silva também afirma que a interação por linguagem natural torna a IA generativa mais acessível.

Quais serão as prioridades da IA corporativa nos próximos 12 meses? +

Escala e segurança serão as principais prioridades, segundo Oliver Parker. O executivo afirma que as empresas precisarão ampliar casos de uso bem-sucedidos para toda a organização e reforçar a proteção contra riscos relacionados a ciberataques e agentes de IA.

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