Edgard Corona, chairman da Smart Fit, durante encontro com alunos no prédio da Saint Paul, em São Paulo: lições sobre a expansão da empresa, que chegou a 984 academias no Brasil e presença em 16 países (Antony Miguel/Saint Paul/Exame)
Repórter de Projetos Especiais
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 06h00.
Por muito tempo, a receita de uma carreira pareceu simples: estudar, entrar em uma boa empresa, trabalhar duro, subir alguns degraus e, com sorte, chegar ao topo. A geração que está entrando agora no mercado não jogou essa receita fora. Mas acrescentou algumas perguntas: subir para onde? A que preço? E será que o topo continua sendo o mesmo?
Os números ajudam a entender a mudança. Segundo a pesquisa global da Deloitte, 76% da geração Z diz ter interesse em chegar a posições executivas em algum momento da carreira. Mas apenas 25% prefere uma trajetória de crescimento acelerado. Para 44%, o ideal é avançar de forma constante. Propósito, bem-estar e desenvolvimento de habilidades ganharam espaço. Para 96%, ter propósito no trabalho é importante para a satisfação.
Não é exatamente uma geração sem ambição, dizem especialistas, mas uma geração que parece estar fazendo outras contas. É justamente quando essas visões se encontram que a sala de aula ganha outra função. Na graduação em administração da Saint Paul Escola de Negócios, os estudantes tiveram a oportunidade de colocar suas ideias diante de executivos que já passaram pela carreira que eles ainda estão começando a imaginar.
Wagner Dantas, CFO da Vulcabras, foi um dos convidados. Antes de encontrá-lo, os alunos passaram uma semana estudando a companhia: fluxo de caixa, balanços, cadeia logística e posicionamento de mercado. Na aula de encerramento, apresentaram suas análises e fizeram perguntas ao executivo sobre problemas concretos do negócio.
Para Mateus Barbosa, aluno do segundo semestre que participou da experiência, foi uma maneira de tirar a matéria do papel. “Ter um executivo de C-level aqui para discutir a visão deles sobre o negócio, problemas reais e fluxo de caixa foi incrível para entender a matéria dentro do contexto real da empresa”, conta. Dantas também saiu impressionado. “O pessoal está muito conectado, estudaram bem o caso. Para a Vulcabras, é uma oportunidade única estar perto desses jovens que serão os futuros empreendedores e executivos do mercado.”
Edgard Corona, chairman da Smart Fit, passou por uma experiência semelhante. Falou sobre a expansão da empresa, que saiu de uma unidade em São Paulo para chegar a 984 academias no Brasil e presença em 16 países. Mas a conversa não ficou restrita ao crescimento da rede. “Você não consegue expandir se não tiver um padrão estabelecido”, afirma Corona. Em seguida, levou os estudantes para uma questão menos fácil de medir: “Que tipo de mudanças você fez na vida das pessoas que estão ao seu lado?”
“Para a Vulcabras, é uma oportunidade única estar perto desses jovens que serão os futuros empreendedores e executivos do mercado”
Wagner Dantas, CFO da Vulcabras
A pergunta encontra eco nas expectativas de quem está começando a carreira. A pesquisa da Deloitte mostra que o desenvolvimento profissional continua entre as prioridades de gen Z e millennials. Entre as habilidades que a geração Z mais quer aprimorar estão inteligência artificial, comunicação, liderança, criatividade e oratória. A adaptabilidade também aparece entre as competências mais importantes para lidar com um mercado em transformação.
Para os executivos, o contato com essa geração oferece outra perspectiva. Ao explicar uma decisão para quem ainda não conhece os bastidores de uma empresa, é preciso voltar ao começo da história: explicar o contexto, as alternativas e o que estava em jogo. Para os estudantes, o ganho está justamente no que não aparece em um estudo de caso. Como decidir quando faltam informações? O que fazer quando uma estratégia não funciona? Como liderar uma equipe quando o plano original precisa mudar?
A conversa também pode funcionar no sentido contrário. Uma geração que cresceu em meio a mudanças tecnológicas rápidas chega ao mercado com outras referências sobre tempo, trabalho, propósito e desenvolvimento. Para profissionais mais experientes, ouvi-la pode ser uma forma de perceber mudanças que ainda não chegaram por completo às estruturas das organizações.
A Deloitte acredita que essa troca tende a ganhar importância. À medida que profissionais mais experientes deixam o mercado e novas gerações ocupam seus lugares, empresas têm de preservar conhecimento sem fechar espaço para outras formas de trabalhar e liderar.
Na sala de aula, isso acontece antes mesmo do primeiro crachá. O estudante pode perguntar ao CFO por que uma decisão foi tomada. Pode discordar. Pode descobrir que uma solução que parecia evidente no papel fica bem mais complicada quando entram em cena pessoas, dinheiro, tempo e risco. É uma situação curiosa para os dois lados. O aluno encontra uma experiência que ainda não teve tempo de acumular. O executivo encontra perguntas de quem ainda não aprendeu que certas coisas “sempre foram feitas assim”.
Corona resumiu sua própria visão sobre aprendizado de maneira direta: “Onde existe um negócio, seja de pequeno, médio ou grande porte, há sempre algo a aprender.”