Revista Exame
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O cabo de guerra do escritório: voltar ou não para o presencial?

De um lado, empresas tentam retomar o trabalho presencial. Do outro, profissionais se recusam a abandonar o home office

Em meio à perspectiva de recessão para o próximo ano e de mais ondas de demissão em empresas de tecnologia, o poder de barganha dos profissionais poderá sumir — e, com ele, o home office (Alistair Berg/Getty Images)

Em meio à perspectiva de recessão para o próximo ano e de mais ondas de demissão em empresas de tecnologia, o poder de barganha dos profissionais poderá sumir — e, com ele, o home office (Alistair Berg/Getty Images)

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Luciana Lima

15 de dezembro de 2022, 06h00

“O trabalho remoto não é mais aceitável.” Foi assim que, em julho, Elon Musk comunicou aos funcionários da montadora Tesla o fim do home office por ali. A visão do homem mais rico do mundo sobre o local de trabalho é compartilhada por muitos executivos. No início do ano, David Solomon, CEO do Goldman Sachs, ordenou a volta dos funcionários aos escritórios do banco de investimento meses depois de chamar o home office de “aberração”.

Musk e Solomon personificam uma parte do dilema instaurado em empresas mundo afora. De um lado estão líderes querendo a todo custo ver a firma cheia novamente. Do outro, profissionais operacionais temerosos de perder a flexibilidade conquistada no home office. O impasse ficou evidente numa pesquisa do aplicativo de mensagens corporativas Slack em que 44% dos chefes demonstraram vontade de voltar a bater ponto todo dia. Entre os funcionários, só 17% têm esse desejo. Na raiz da discrepância estão fatores como a tendência de muitos chefes a olhar de perto o desempenho de suas equipes e o desafio de adaptação a novos modelos de trabalho. “O novo é difícil e, por isso, as pessoas tendem a achar que voltar para o modelo anterior vai ser mais fácil”, diz Sandra Chemin, fundadora da FutureYou, consultoria aberta em 2006 para preparar empresas para o futuro do trabalho. “Fora isso, não existe um modelo maduro no híbrido, e é inegável que a proximidade física permite maiores trocas.”

Não à toa, muitas empresas têm feito de tudo para repo­voar os escritórios. Algumas, ao estilo de Musk e Solomon, apelam para ameaças de demissão. Outras recorrem a escritórios descolados, comidinhas e até shows ou degustações de vinho. O reflexo disso já tem sido sentido pelos escritórios que, antes às traças, voltam a encher. Dados de setembro da Partnership for New York City, organização de CEOs de 300 empresas da metrópole americana, mostraram que a ocupação nos escritórios da cidade aumentou de 38% para 50% em 2022. Em São Paulo, a locação do metro quadrado na Faria Lima, reduto do mercado financeiro, está em torno de 250 reais, segundo a consultoria imobiliária JLL. No começo do ano, estava em 195 reais.

Diante disso, o home office vai acabar? A despeito do desejo das lideranças, isso não vai acontecer tão cedo. Há quem questione: as pessoas sempre pegaram trânsito para trabalhar todo dia. A questão é que as pessoas mudaram. “Os profissionais experimentaram uma maior flexibilidade durante um ano e meio de pandemia e perceberam que continuaram desempenhando bem seus papéis; por isso, crenças e expectativas em relação ao trabalho mudaram”, diz Tatiana Iwai, professora de comportamento organizacional e liderança no Insper.

O cabo de guerra entre empresas e funcionários foi apontado como uma das razões por trás da Great Resignation, quando houve grandes ondas de demissões, principalmente nos Estados Unidos. Por aqui, os efeitos desse retorno forçado também já estão sendo vistos pelas empresas de recrutamento, especialmente quando o assunto são profissionais qualificados. 

Em meio à perspectiva de recessão para o próximo ano e de mais ondas de demissão em empresas de tecnologia, o poder de barganha dos profissionais poderá sumir — e, com ele, o home office. Ao que tudo indica, essa lógica terá pouco efeito sobre profissionais qualificados, um universo onde há pleno emprego — só 4,5% desses profissionais estão fora do mercado de trabalho no Brasil, segundo índice da Robert Half.

E, mesmo em alguns setores, como o mercado financeiro, em que grande parte das empresas adota uma postura semelhante, exigindo o presencial, isso não é garantia de que não será preciso brigar por talentos. “Hoje, bancos não concorrem só com outros bancos, mas com start­ups e empresas de tecnologia. Setores que tiverem mais diversidade de concorrentes no quesito mão de obra terão de oferecer outras formas de compensação caso exijam o fim do home office. O remoto, hoje, é visto como um benefício”, diz Iwai, do Insper.

(Arte/Exame)