Roberto Oliveira, da Blip; João Pedro Resende, da Hotmart; e Gabriel Motomura, do BTG Pactual Empresas: criadores de conteúdo e inteligência artificial andando juntos no futuro dos negócios (Eduardo Frazão/Exame)
Repórter de Negócios
Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.
Última atualização em 30 de julho de 2026 às 11h56.
Todo dia, Minas Gerais abre cerca de 1.400 empresas. É o segundo estado que mais formaliza negócios no país, atrás só de São Paulo, segundo o Sebrae Minas com dados da Receita Federal. Somente em Belo Horizonte foram 98.000 aberturas em 2025. Parte desse número some nos primeiros anos. Outra resiste, cresce e vira gigante. Foi assim com a Localiza, que começou com seis fuscas e hoje roda com 650.000 carros, com a MRV, hoje a maior incorporadora do país em volume, com a Hotmart, de infoprodutos, e com nomes que viraram rotina na casa do mineiro, como Supermercados BH e Drogaria Araujo.
Reunir no mesmo salão esses dois mundos — o dos que já chegaram lá e o dos que estão a caminho — para conversar sobre inteligência artificial e oportunidades de negócio foi a missão do Road Show Negócios em Expansão em Belo Horizonte, etapa do maior anuário de empreendedorismo do país. O ranking é uma realização da EXAME em parceria com o BTG Pactual Empresas, com patrocínio também do CDL Belo Horizonte e apoio da vinícola mineira Alma Gerais.
Gabi Salles, estrategista digital: “Tudo no digital é mensurável” (Eduardo Frazão/Exame)
Quem abriu a tarde foi Erik Nybo, cofundador da startup de inteligência artificial Bits, em masterclass sobre como colocar a IA dentro do negócio. Provocou a plateia: quase todo mundo usa IA; poucos conseguiram implementá-la de fato. A diferença não está na ferramenta, e sim no que vem antes dela. O erro mais comum, diz, é encaixar a IA em processos antigos. “Aquele processo que você desenhou para correr do ponto A, B, C, D, agora com IA pula do A até o E direto.” Adotar a tecnologia exige redesenhar fluxos, estrutura e, às vezes, o próprio produto. Nybo citou um relatório de uma grande empresa de software que teria criado dezenas de milhares de agentes internos e concluído que apenas 2% geram valor real. A lição: identificar onde a tecnologia entrega resultado e medir o retorno, em vez de adotar IA por moda.
Marcelo de Souza e Silva, presidente da CDL Belo Horizonte e do Sebrae Minas: capacitação de funcionários e de líderes é a chave do sucesso (Eduardo Frazão/Exame)
O painel seguinte mostrou onde a IA já muda o jogo: na relação com o cliente. João Pedro Resende, CEO da plataforma digital de cursos, mentorias e e-books Hotmart, e Roberto Oliveira, CEO da startup de inteligência conversacional Blip, conversaram com o sócio do BTG Pactual Empresas Gabriel Motomura. JP Resende defendeu que o próximo ciclo de grandes marcas vai nascer de criadores de conteúdo, e não de engenheiros ou financistas, porque eles passaram a vender produtos próprios, combinando conteúdo educativo com agentes de IA. Já Oliveira contou que a Blip apostou em 2014 que o WhatsApp se tornaria plataforma de comércio, porque comércio sempre foi conversa. Sua orientação é não focar a tecnologia, e sim o resultado. “O maior erro é exatamente estar mais preocupado com a tecnologia do que com o resultado.” Ele defende o modelo híbrido, com pessoas e automações no mesmo canal. Quando o cliente fica preso num loop sem resolver o problema, é hora de passar para um humano.
Erik Nybo, da Bits: não encaixe IA nos processos antigos (Eduardo Frazão/Exame)
A briga pela atenção
Numa palestra sobre marca pessoal, a estrategista digital Gabi Salles foi direta ao falar que internet é número. “Tudo no digital é mensurável”, diz, “do tráfego do site ao desempenho de cada post.” Foram 14 anos na área de tecnologia antes de migrar para o mercado digital, onde diz ter ajudado a gerar receitas próximas de 180 milhões de reais nos projetos que acompanhou. Sua tese é que a produção de conteúdo precisa ser tratada como estratégia, e não como improviso: pesquisa de público antes, uma “esteira” de produtos pensada do primeiro contato à fidelização depois, e métrica o tempo todo no meio.
Potências mineiras
O painel mais aguardado juntou Mônica Hauck, CEO da empresa de recursos humanos Sólides; Rodrigo Tavares, CFO da locadora de veículos Localiza; e Raphael Lafetá, diretor institucional da construtora MRV. O fio foi a relação entre ambição, fracasso e visão de longo prazo. Hauck contou que quebrou a primeira empresa por ter sido arrogante e não ouvir o sócio, que é seu marido. “A ambição veio depois de dar tudo errado.” Hoje a Sólides passou de 50.000 clientes. Tavares resumiu meio século da Localiza numa conta: foram 20 anos para chegar a 5.000 carros, e depois a frota multiplicou por cinco a cada década. O conceito que usa para explicar o equilíbrio entre sonho e disciplina é “farol alto, farol baixo”. Enxergar longe sem perder o foco no dia a dia. Lafetá lembrou que, na construção, o ciclo é longo. Compra-se um terreno hoje para entregar a chave cinco anos depois. Foi Hauck quem cravou o recado mais contraintuitivo. Em vez de desacelerar num ano de incertezas, defende dobrar a aposta, justamente porque a concorrência recua. “Eu me recuso a acreditar que 2026 não vai ser um ano maravilhoso.”
Lucas Amorim, da EXAME, Mônica Hauck, da Sólides, Rodrigo Tavares, da Localiza, e Raphael Lafetá, da MRV: ambição, fracasso e visão de longo prazo (Eduardo Frazão/Exame)
O recado ao varejo
Marcelo de Souza e Silva, presidente da CDL Belo Horizonte e do Sebrae Minas, falou da dificuldade do pequeno varejista diante de grandes plataformas estrangeiras. Insistiu na capacitação — dos funcionários e do próprio dono, que precisa “levantar a mão” e buscar ajuda. Para os próximos cinco anos, resumiu o tripé do varejista em qualificação constante, crédito de qualidade e segurança. Da masterclass ao painel dos gigantes, a IA foi o tema recorrente, mas o recado de fundo foi mais antigo: tecnologia não substitui execução, cultura e foco no cliente.