Menos licença-maternidade, mais liberdade

O Congresso debate a ampliação da licença-maternidade. Mas as executivas querem mesmo horários flexíveis

O Congresso Nacional prepara-se para discutir mais um daqueles projetos que rendem uma boa polêmica. De autoria da senadora Patrícia Saboya Gomes (PSB-CE), prevê dar às empresas a opção de ampliar o período de licença-maternidade dos atuais quatro para seis meses. O texto está sendo analisado na Comissão de Direitos Humanos do Senado e entrará na pauta das audiências públicas nos próximos dias.

“Como a primeira infância é um dos períodos mais importantes para a criança, queremos conceder à mulher profissional a oportunidade de ficar mais tempo com o bebê”, diz a senadora. Se o projeto for aprovado, as companhias poderão abater dos impostos federais os gastos com salários pagos nos dois meses extras de ausência da funcionária. Estima-se, nesse caso, que a renúncia fiscal possa chegar a 1 bilhão de reais.

“É um valor bem inferior ao gasto pelo governo para tratar problemas que poderiam ser evitados se as crianças tivessem mais cuidados”, afirma Patrícia Saboya Gomes.

Ao menos no que se refere à carreira executiva, a ampliação da licença-maternidade é uma idéia atualmente descolada da realidade. Na prática, é grande o grupo de executivas que já não conseguem nem sequer gozar os quatro meses de licença. “Muitas profissionais estão antecipando em até 45 dias sua volta ao trabalho”, afirma o headhunter Luiz Carlos Cabrera, da PMC Amrop.

Aquelas que se afastam por 16 semanas dificilmente se desligam por completo do escritório. Checam e-mails,   almoçam com colegas, fazem reuniões em casa. O fato é que a licença-maternidade está deixando de ser um hiato longo na carreira das mulheres. Há várias justificativas para esse comportamento.

“Uma delas é o medo de perder o posto”, afirma Cabrera. Outra é o risco de desacelerar uma trajetória profissional em ascensão. Num ambiente em que as mudanças se sucedem numa velocidade vertiginosa — não poucos evitam até mesmo tirar férias de 30 dias –, é impensável imaginar que um profissional possa se afastar do cargo por quatro meses sem um custo.


A advogada tributarista Ana Claúdia Akie Utumi, de 35 anos, quis engravidar em 2000, quando começou a trabalhar na banca paulista Tozzini, Freire, Teixeira e Silva Advogados. Em menos de um ano, foi promovida a sócia com a missão de ampliar a área tributária do escritório. A gravidez entrou em compasso de espera. “Passei a ser responsável não só pelo trabalho técnico mas também por sair à caça de novos clientes”, diz Ana Cláudia.

“Não me sentia confortável para deixar o escritório por tanto tempo.” Só quando teve certeza de que seus subordinados estavam preparados para cuidar dos projetos na sua ausência é que ela ganhou autoconfiança e engravidou. Clarisse nasceu em outubro do ano passado. Três meses depois, Ana Cláudia já estava trabalhando em casa.

A licença-maternidade no mundo
Num estudo realizado por Harvard com 168 países, apenas cinco não oferecem nenhuma forma de licença-maternidade remunerada – Estados Unidos, Austrália, Papua-Nova Guiné, Suazilândia e Lesoto. Veja o tempo de afastamento que alguns países concedem às mães profissionais:
País
Dias corridos
Uruguai
84
México
84
Argentina
90
Alemanha
98
Japão
98
Espanha
112
Brasil
120
Noruega
364
Suécia
540
Fontes: Instituto Superior da Empresa (Iese), Columbia University

“Estender a licença-maternidade pode tornar as profissionais mais vulneráveis”, afirma Antonio Abílio Ramos, sócio da consultoria de carreiras DBM. “Principalmente as que estão na faixa entre 25 e 35 anos, interessadas em ter o primeiro filho, que podem ser prejudicadas em processos de seleção.”


Um estudo recente do Instituto de Estudos da Empresa, vinculado à Universidade de Navarra, na Espanha, evidenciou que, no Brasil, a licença-maternidade tem prazo superior ao de outros países latinos (veja quadro). “Um projeto para estender a licença parece fantástico do ponto de vista humanitário, mas é fundamental ouvir quem está nas empresas”, afirma Iêda Novais, presidente da consultoria BDO Trevisan. “Para as companhias, faz mais sentido discutir a flexibilidade de horário para suas executivas.”

Na Atento, uma das maiores empresas de telemarketing do país, 31 000 dos 54 000 funcionários são mulheres. Em 2005, 250 gozaram licença-maternidade. Para amenizar o impacto na operação — e na carreira –, a empresa treina pessoas para que possam assumir as funções das futuras mães e recorre a substituições temporárias. A executiva Renata Nagrotkis, de 34 anos, foi promovida a gerente de clientes no oitavo mês de gravidez.

Com isso, tornou-se responsável por 2 000 funcionários. Ainda assim, afastou-se por quatro meses. Logo que retornou, Renata teve de ficar fora de casa por três dias, num evento da empresa. Viajou com Orlando, hoje com 6 meses, e a mãe, com tudo pago pela Atento. “Pude assumir minhas novas responsabilidades sem traumas”, afirma.

A flexibilidade para conciliar o trabalho com os cuidados com o bebê é o caminho preferido por muitas executivas. “Isso é fundamental, porque você quer participar da vida da criança”, diz Cristiana Pinciroli, de 34 anos, superintendente de qualidade do Unibanco e mãe de Alissa e Giorgia. “O banco cobra resultados, não o tempo que você fica lá dentro.”

A executiva Carla Coelho, diretora de comunicação da Tetra Pak, adotou a seguinte estratégia depois do nascimento de Ana Carolina: não abre mão de sair do escritório antes de 18h30, para colocar a filha para dormir. Mas, quando é necessário, faz serão em casa depois das 21 horas.

Independentemente do tempo dedicado à licença-maternidade, os especialistas em carreira recomendam às executivas muito planejamento na hora de decidir ter um filho. Um dos principais cuidados é concluir todos os grandes projetos antes de se ausentar. “É necessário fechar o ciclo”, afirma Cabrera. Com reportagem de Ana Luiza Herzog

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