Maurício Une, economista-chefe do Rabobank: “Não esperamos um crescimento da safra como o observado na temporada passada” (Rabobank/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.
Depois de uma safra de resultados recordes, o agronegócio brasileiro entra no ciclo 2026/27 diante de um cenário bem menos favorável. O Rabobank estima que o PIB agrícola recue 3% em 2026, pressionado por uma combinação de juros elevados, risco de um El Niño forte, restrições fiscais e caos geopolítico.
Para Maurício Une, economista-chefe para a América do Sul do banco holandês especializado em agronegócio e alimentos, o conjunto desses fatores deve tornar o atual ciclo um dos mais desafiadores dos últimos anos.
Qual é o cenário macroeconômico desenhado para a safra 2026/27 que começou em julho?
Bastante desafiador. Não esperamos um crescimento da safra como o observado na temporada passada. Além disso, há um desafio relacionado ao El Niño para o fim deste ano, uma vez que existe a probabilidade de 50% de um fenômeno forte para outubro [colheita em alguns estados]. Para completar esse quadro, o Plano Safra deste ano veio com um crescimento tímido e houve redução dos recursos destinados à equalização de juros. Diante desse conjunto de fatores, nossa expectativa é que o PIB agrícola registre queda de 3% em 2026. O setor cresceu 11,7% em 2025.
Essa projeção de queda já fazia parte das estimativas do Rabobank ou foi ajustada diante desse cenário?
Atualizamos nossas premissas à medida que esse cenário foi se desenhando. O primeiro fator foi a intensificação da força do El Niño. Além disso, trabalhávamos com a expectativa de um ciclo mais intenso de cortes na taxa Selic ao longo de 2026. Hoje essa avaliação mudou. O Banco Central ainda tem espaço para realizar apenas mais um corte de juros em 2026, levando a Selic para 14%. Para o próximo ano, projetamos a Selic em 12,5%. Isso aumenta a pressão sobre o governo em relação aos recursos destinados à equalização dos financiamentos do Plano Safra.
Na avaliação do Rabobank, quais serão os efeitos do El Niño sobre a inflação de alimentos?
Depois de um período de deflação e estabilidade, a inflação de alimentos voltou a acelerar em 2026. A projeção do Rabobank é que o índice encerre o ano em 6,85%, impulsionado pelo aumento dos preços do petróleo, que elevou os custos de frete, combustíveis, logística e fertilizantes, além da expectativa de um El Niño mais intenso no fim do ano. O pico deve ocorrer em fevereiro de 2027, quando a inflação pode chegar a 7,7%, antes de desacelerar para cerca de 4,3% no fim do ano.
Como a geopolítica e o dólar devem mexer com o agro nesta safra?
Projetamos que a volatilidade do terceiro trimestre mantenha o dólar entre 5,40 reais e 5,45 reais. Com a definição do cenário eleitoral e a redução das incertezas, a expectativa é de maior estabilidade, com a moeda americana encerrando 2026 em torno de 5,35 reais. Para 2027, o banco prevê um primeiro semestre mais favorável ao câmbio, impulsionado pela entrada de dólares da safra, enquanto o segundo semestre deve voltar a sofrer pressão de fatores como remessas de dividendos e discussões fiscais. Ainda assim, a projeção é de um dólar próximo de 5,30 reais no fim de 2027.