Os presidentes Emmanuel Macron e Donald Trump: reuniões da Otan são marcadas por clima tenso (Chris McGrath/Getty Images)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.
Desde 2025, as reuniões de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) têm sido marcadas por um clima estranho. A cada encontro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem feito ameaças aos europeus. Neste ano, não foi diferente: ele criticou os aliados por não o ajudarem nos ataques ao Irã, falou em cortar relações comerciais com a Espanha e voltou a dizer que quer anexar a Groenlândia.
Os europeus tentaram colocar panos quentes e mudar de assunto nesses temas, mas estão cedendo em outros, como o aumento de gastos em defesa para se aproximar do modelo que os americanos querem, chamado de “Otan 3.0”.
“Uma revisão está sendo feita para garantir que a Otan está se movendo de forma rápida e irreversível em direção à liderança europeia e que a Europa assuma a responsabilidade pela defesa da Europa”, disse Pete Hegseth, secretário da Guerra dos EUA, em um discurso aos aliados.
Hegseth diz que a Otan 1.0 foi o modelo inicial, pós-Segunda Guerra, em que os europeus investiam mais em segurança. A fase 2.0 teria começado após a Guerra Fria, em que a Europa reduziu suas capacidades militares para investir em outras áreas e, nas palavras dele, passou a “viajar de graça” ao depender mais dos EUA.
A nova etapa permitirá aos americanos direcionarem suas forças para outras partes do mundo, em meio a conflitos com o Irã e a uma doutrina que prevê mais ações na América Latina.
Os europeus aceitaram a meta de aumentar seus gastos em defesa para o patamar de 3,5% do PIB, além de 1,5% adicional em áreas correlatas, como segurança digital e proteção à infraestrutura, totalizando 5%. Assim, os países do Velho Mundo estão investindo em aumentar suas fábricas de armamentos, para comprar menos itens vendidos pelos americanos.
Para Diogo Castro e Silva, analista internacional e colunista da EXAME, EUA e Europa vivem um processo de afastamento, pois suas visões de mundo em temas como democracia e inclusão social estão cada vez mais distantes. “Há um divórcio lento se passando. A Europa vê a dependência dos EUA como tóxica, e os americanos veem os europeus como um peso morto. Essas duas visões não devem conduzir a um bom destino”, afirma.