Marina Silva, uma candidata em construção

Marina Silva propõe um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil. O que existe de concreto nas ideias da candidata do Partido Verde para a economia do país

Foi no início de 2008, em um evento público em São Paulo, que a socióloga Maria Alice Setubal ouviu a senadora e hoje précandidata do Partido Verde à Presidência, Marina Silva, discursar pela primeira vez. Irmã de Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, Maria Alice é respeitada no meio educacional por estar à frente do Cenpec, ONG que há 30 anos trabalha pela melhoria do ensino público. A socióloga conta que, na ocasião, se surpreendeu duas vezes.

A primeira foi quando Marina, que é evangélica da Assembleia de Deus, fez uma saudação religiosa antes do discurso. “Achei aquilo estranho”, diz ela, que se define como católica não praticante. A segunda surpresa veio quando Marina finalmente começou a discursar, e Maria Alice viu seu estranhamento inicial se esvanecer. “À medida que ela falava, fui sendo conquistada”, afirma. “Marina é articulada, doce e, ao mesmo tempo, forte, dura.”

Outro que foi seduzido há pouco tempo foi o economista Ricardo Paes de Barros, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e um dos maiores estudiosos de políticas de combate à pobreza no país. Paes de Barros esteve com Marina pela primeira vez em meados do ano passado, no Acre, onde ela nasceu e iniciou sua vida política. Na ocasião, ele, o governador Binho Marques, Marina e outros estudiosos discutiram um estudo que o Ipea havia realizado sobre o desenvolvimento do estado.

“Fiquei impressionado com sua capacidade de obter o consenso mesmo entre pessoas com posições muito divergentes”, diz. Quando Paes de Barros voltou a se encontrar com a senadora, em março, já foi para oferecer ajuda para a campanha. “Sou funcionário do Ipea e tenho pouco tempo”, diz. “Mas, se tiver de passar as madrugadas acordado para ajudá-la, tudo bem.”

O encantamento que a pré-candidata Marina, hoje com 52 anos, desperta em parte da elite brasileira tem uma explicação. Há algumas décadas, a política nacional é marcada pelo surgimento de figuras que personificam momentaneamente a busca pela moralidade na vida pública. Foi assim com Juscelino Kubitschek e depois com Jânio Quadros. Vieram então os militares e a suposta campanha contra a corrupção e a subversão e Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás. Por fim, o Partido dos Trabalhadores, que alardeava ser o mais ético de todos os tempos. Agora, é Marina quem melhor parece responder a esse anseio. “Ela é dona de uma carreira impoluta”, afirma Roberto Romano, filósofo e professor da Unicamp. “Ao contrário da maioria dos colegas do PT, Marina passou incólume pelos escândalos que envolveram o partido.”


Hoje, o grande questionamento a respeito da candidatura de Marina é o que ela pode oferecer ao Brasil – além, é claro, de um exemplo de retidão para a classe política. Em palestras, entrevistas e debates, a senadora tece muitos elogios às conquistas dos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, de quem foi ministra do Meio Ambiente por “cinco anos, quatro meses e 14 dias”, como gosta de repetir. Enaltece a estabilidade e afirma que não faria grandes alterações nos princípios básicos da política econômica: superávit primário, metas para a inflação e câmbio flutuante.

“Não há espaço para aventuras”, afirma. A inovação viria com a mudança no modelo de desenvolvimento. A meta é conduzir o país à “economia de baixo carbono”, um mantra em tempos de crise ambiental. Lá fora, um discurso semelhante também está na boca de economistas respeitados, como o britânico Nicholas Stern, autor do mais abrangente estudo sobre o impacto econômico das mudanças climáticas, e o americano Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia. Na teoria, o que a senadora está sugerindo é favorecer – inclusive com incentivos econômicos – atividades que emitam menos gases causadores do efeito estufa e tenham menos impacto no meio ambiente. Mas como Marina Silva pretende transformar essa ideia em algo real?

Por enquanto, ela ainda tem propostas um tanto genéricas para essa nova economia, e não esconde isso. “Precisamos mudar a ideia de desenvolvimento. Mas ninguém tem uma resposta pronta sobre como fazer isso”, afirmou numa palestra para um auditório lotado de estudantes em Caruaru, no interior de Pernambuco. No dia em que a senadora esteve com a reportagem de EXAME, em São Paulo, isso também ficou claro.

Ela falou com desenvoltura sobre licenciamento ambiental, manejo sustentável de florestas e biodiversidade, mas mostrou-se bem menos à vontade ao abordar temas como reforma tributária, previdência e legislação trabalhista. Educação é um tópico que está na lista de prioridades de Marina – mas, convenhamos, algum político diria o contrário? Questionada sobre como consertar a educação, a senadora titubeou, disse que achava que essa pergunta não seria feita aos outros dois candidatos à Presidência e acabou dando a seguinte resposta: “Minha meta é educação de qualidade”. Não soube, porém, detalhar como esse objetivo seria conquistado. (A candidata Dilma Rousseff já foi entrevistada por EXAME e, obviamente, também teve de explicar suas metas para o país.)

A insatisfação com perguntas mais diretas revela outra característica de Marina. Por sua trajetória impoluta e pela vigorosa defesa da saúde do planeta, a senadora virou uma personalidade mundial e quase uma santa para o grupo que a cerca. Nesse meio, suas palavras são reverenciadas, jamais questionadas. Agora, porém, Marina é candidata a presidir o país. Nessa nova condição, terá de lidar com questões complexas e enfrentar o debate. Suas propostas, como ela própria admite, ainda estão em construção. Mas Marina já parece ter algumas certezas.


Em uma economia de baixo carbono, como os investimentos em infraestrutura seriam direcionados? “Infraestrutura é algo estratégico, que exige planejamento. Não podemos nos contentar com uma colagem de obras como o PAC”, diz ela. “Saneamento, transportes e energia são elementoschave dessa equação.” Hoje, apenas 36% do esgoto gerado no país é tratado. A candidata do PV quer fomentar a expansão da rede de coleta e de tratamento com recursos do BNDES e do FGTS que já estão disponíveis para essa finalidade. Além disso, Marina Silva é uma entusiasta das parcerias público-privadas, as PPPs, e pretende incentivá-las para que os investimentos em saneamento superem o 0,22% que hoje representam do PIB.

Caso eleita, termelétricas ou usinas nucleares não teriam vez. Os recursos seriam usados para fazer decolar o uso dos biocombustíveis, da energia solar e eólica e da proveniente da biomassa. Em relação às hidrelétricas, Marina afirma não ser contra, mas, em meio à polêmica recente do leilão da usina de Belo Monte, tergiversou durante dias antes de deixar claro o que pensava. Chegou a sugerir que o leilão fosse adiado. Finalmente, em um artigo no jornal Folha de S.Paulo, resolveu tomar partido e declarou: “Belo Monte é um projeto ruim, caro e de alto risco”.

Na tentativa de tornar mais amplo um discurso ainda muito identificado ao tema das florestas, Marina começa a dar pistas sobre o que quer para as grandes cidades. Um de seus planos é melhorar o trânsito caótico com investimentos vultosos em transporte coletivo – movido, é claro, a combustíveis renováveis. Isso explica por que, para o economista Eduardo Giannetti, que também se transformou recentemente em um dos mais fervorosos apoiadores de sua candidatura, uma política de redução de IPI para veículos, como a que foi implantada pelo presidente Lula durante o auge da crise financeira internacional, é totalmente disparatada.

Seu raciocínio é que não faz sentido usar como medida anticíclica um incentivo à compra de automóveis particulares quando o caos do trânsito nas cidades brasileiras é cada vez maior. “Por que não reduzir a carga tributária que incide sobre o salário do trabalhador e deixar que ele, com mais dinheiro no bolso, decida se quer gastar com carro, educação ou saúde?”, diz Giannetti. O empresário Guilherme Leal, sócio-fundador da empresa de cosméticos Natura e o provável vice de Marina, critica outro aspecto da medida. “Obama está exigindo das montadoras melhorias de eficiência energética dos carros e Lula reduziu o IPI sem exigir nada”, diz.

Nos próximos meses, Marina – assim como seus adversários – terá o desafio de dar mais forma e clareza às ideias que defende. Terá também de vencer outros obstáculos se quiser ir além dos cerca de 10% de intenção de votos que tem hoje. Um dos mais hercúleos é tornar-se conhecida nacionalmente.


“Faltam à senadora todos os recursos de competitividade essenciais numa campanha desse porte: tempo de televisão, palanques em todos os estados, dinheiro”, diz Carlos Alberto de Melo, cientista político e professor do Insper. Mesmo seus colaboradores admitem, nos bastidores, que a chance de vitória é pequena. A candidata tem tentado compensar essa fragilidade com uma agenda estafante, que inclui muitas vezes até três palestras por dia, almoços com empresários e lideranças de cidades do interior, idas a programas televisivos de auditório.

Nesses périplos, nem tudo funciona como planejado. A estrutura e o modus operandi do PV, partido ao qual ela decidiu se filiar em agosto de 2009, quando deixou, depois de 30 anos, o PT, são mambembe. Em Caruaru, no interior de Pernambuco, onde passou um dia no início de abril, lideranças locais convenceram Marina a visitar uma universidade privada local, onde ela ficou por mais de 40 minutos trancada numa sala com um grupo de dirigentes e professores.

Depois, durante 10 minutos, gravou para o canal de TV da instituição um vídeo de 1 minuto que seria exibido em mais de 100 municípios do estado. Com isso, sobrou a Marina não mais do que meia hora para se dedicar ao que deveria ser o compromisso mais importante de sua estada na cidade: uma visita à famosa feira de artesanato de Caruaru. Lá, caminhou entre as barraquinhas acompanhada de uma bandinha de músicos locais, conversou com alguns expositores mais conhecidos e teve seu nome anunciado no sistema de som.

Tudo, porém, foi tão rápido que a maioria das pessoas ficou sem entender o que exatamente aquela mulher magra e elegante estava fazendo ali. O tal vídeo gravado na universidade foi exibido localmente, como prometido, mas nele Marina não aparece falando sobre educação, meio ambiente ou outro assunto relevante. As imagens de sua visita foram usadas apenas para propagandear a própria escola.

Episódios como esse irritam os assessores diretos da senadora. Marina, porém, se fica brava, não demonstra. Parece incapaz de ser indelicada ou ríspida. Quando discursa, na maioria das vezes fala difícil, com muitas alusões a filósofos e pensadores, como Edgar Morin, Hannah Arendt e Santo Agostinho. Mas também sabe falar de maneira simples ao trazer à tona passagens de sua vida. Nesses momentos, Marina emociona ao lembrar sua trajetória – perdeu três de seus 11 irmãos, sofreu com uma leishmaniose, três hepatites e cinco malárias, além de ter tido o sangue contaminado por mercúrio. Alfabetizou- se aos 16 anos e conseguiu se formar em história pela Universidade Federal do Acre.


A vitória de Lula viabilizou sua única experiência no Executivo até aqui. Sua nomeação para o Ministério do Meio Ambiente foi muito celebrada no Brasil e no exterior. Quando deixou o posto, em maio de 2008, o cenário era bem diferente. Marina estava claramente distante do companheiro Lula. Além disso, nem todo mundo lamentou sua saída. Um de seus maiores defensores é Carlos Minc, que a sucedeu no cargo.

“O desempenho dela mudou a agenda ambiental brasileira”, diz ele. Mas há quem diga que a senadora se preocupou com a Amazônia, e só com a Amazônia. Ainda em 2007, o deputado Fernando Gabeira, do PV, hoje colega de partido de Marina, disse que a senadora era “muito voltada para a questão da Amazônia e pouco voltada para as questões da ecologia urbana”. É uma opinião parecida com a de Xico Graziano, atual secretário do Meio Ambiente de São Paulo e um dos formuladores da campanha de José Serra.

“Marina é muito ambientalista, mas pouco resolutiva”, diz. Como ministra, ela também travou uma briga cega contra as sementes transgênicas. Perdeu a batalha, mas ganhou a antipatia do agronegócio e a pecha de obscurantista de muitos pesquisadores. A discussão sobre os transgênicos pegou fogo no Brasil entre 2003 e 2005, quando uma nova lei de biossegurança foi discutida e aprovada no Senado. Nesse período, pesquisadores se revezavam indo a Brasília para tentar convencer parlamentares e membros do governo sobre os benefícios da biotecnologia. “Havia muita desinformação, mas também muito interesse”, afirma um professor respeitado da Unicamp.

Ele chegou a se reunir com Marina e sua equipe. “Ela nos ouviu, mas para mim ficou claro que não mudaria de ideia porque seu posicionamento era ideológico.” Ainda hoje, Marina deixa muitos cientistas estupefatos. Ela costuma dizer que as lavouras de milho, algodão e soja já foram irreversivelmente contaminadas pelos transgênicos. “Isso é um absurdo e só mostra que ela continua muito mal assessorada”, afirma uma cientista que hoje trabalha no setor privado. Só aos eleitores caberá julgar a suposta modernidade ou atraso das ideias de Marina. O fato é que ela beneficiou a corrida presidencial ao decidir mostrar ao Brasil o que pensa. “Marina qualifica a discussão e traz à tona questões que serão colocadas na mesa pelos outros candidatos”, diz Melo, do Insper.


“Precisamos de um líder, não de um gerente”

A candidata do PV elogia os presidentes FHC e Lula, diz que o PAC é uma colagem de obras e que ainda não tem respostas para todos os problemas que terá de enfrentar caso eleita.

EXAME – Quando o presidente Lula assumiu a Presidência, em 2003, bateu na tecla de que havia recebido uma herança maldita do ex-presidente Fernando Henrique. Que herança a senhora receberia de Lula caso eleita?

Marina Silva – Eu não consideraria nada maldito. Durante muito tempo, fazer superávit primário era visto como coisa de neoliberal. Com o governo Lula, que continuou produzindo superávit primário, a percepção das pessoas mudou e esse conceito passou a ser visto como algo bom, que nos ajudou, inclusive, a superar a crise. Também não mexeria nas metas para a inflação e no câmbio flutuante. Não há espaço para aventuras.

EXAME – Então, em termos de política econômica, não há muito a mudar?

Marina Silva – Não. O controle inflacionário permitiu ao Brasil crescer e desenvolver políticas que tiraram 25 milhões de pessoas da miséria. Por isso, temos de continuar manejando essa realidade, mas baixar os juros é uma meta que deve ser perseguida. Teremos de encontrar um modo de fazer esse manejo sem que haja pressão inflacionária, porque precisamos de investimentos – que é o que gera empregos, o propósito de qualquer economia.

EXAME – O que a senhora pretende fazer em relação ao sistema tributário?

Marina Silva – A reforma tributária, assim como a trabalhista e a política, é, infelizmente, aquele consenso oco. Todo mundo diz que é prioridade, mas ninguém faz. Creio que três parâmetros devem nortear a discussão: oferecer competitividade à produção brasileira, estimular fortemente os processos produtivos sustentáveis – e onerar práticas que estão em desacordo com a sustentabilidade ambiental e social – e restabelecer o pacto federativo sobre novas bases. Mas vários ajustes podem ser feitos independentemente de uma grande reforma, que pode demorar muito tempo para ser aprovada no Congresso.


EXAME – Que ajustes seriam esses?

Marina Silva – Isso é algo que ainda tem de ser pensado pela minha equipe. Aliás, não temos respostas para tudo, e acho que não precisamos ter. O Brasil não precisa de um gerente, mas de um líder, um estrategista. O presidente Fernando Henrique só conseconseguiu juntar bons economistas para fazer o Plano Real porque é um estrategista, não um gerente. O Lula só teve a clarividência de levar o Plano Real em frente e avançar com políticas sociais por ser um estrategista, não um gerente.

EXAME – E quanto à reforma trabalhista?

Marina Silva – Todo mundo concorda que é preciso rever a legislação, mas ninguém se dispõe a promover a mudança. Tenho claro que as alterações necessárias devem contemplar a necessidade de dar competitividade ao produto nacional, estimular a criação de empregos e, ao mesmo tempo, assegurar ao trabalhador que os benefícios conquistados em mais de 70 anos de luta sindical sejam preservados. Em razão disso, não há como dissociar essa discussão da que deve ser travada sobre a reforma tributária. Novamente, digo que é preciso criar um espaço político que busque o consenso ou que permita formar uma opinião hegemônica sobre os novos parâmetros que nortearão os contratos entre o capital e o trabalho.

EXAME – Entre muitas pessoas, há uma percepção de que o país pararia no quesito infraestrutura caso a senhora fosse eleita presidente. Essa percepção procede?

Marina Silva – Não há como ter crescimento sem infraestrutura e eu tenho dito isso. O que existe, porém, é uma visão de que leva muito tempo para fazer licenciamento ambiental bem feito. Isso é uma desculpa para justificar a falta de planejamento e de antecipação dos projetos.

O que pretende fazer, então, em relação à infraestrutura?

Marina Silva – Infraestrutura é estratégia. Não podemos nos contentar com uma colagem de obras, como a que temos com o PAC. Os investimentos devem estar voltados para a promoção do desenvolvimento sustentável e para alavancar a economia de baixo carbono. Saneamento, transportes e energia são elementos-chave dessa equação. Hoje, apenas 36% do esgoto gerado no país é tratado. Esse quadro deve ser superado com rapidez, e existem recursos do BNDES e do FGTS para fomentar a expansão da rede de coleta e de tratamento de esgoto.

EXAME – O que fará em relação ao déficit da Previdência?

Marina Silva – O Brasil ainda possui uma parcela muito grande de trabalhadores na informalidade. A incorporação dessa mão de obra ao sistema previdenciário amplia a cobertura que é oferecida aos trabalhadores e também contribui para a redução do déficit da Previdência. O mais importante é criar condições para que toda a sociedade, em especial a juventude, possa contribuir para assegurar o bem-estar daqueles que se esforçaram por ela.

EXAME – Que papel o Estado deve ter na economia?

Marina Silva – O Estado não deve ser máximo ou mínimo. Defendo o Estado necessário, aquele capaz de prover o cidadão com os bens e os serviços de que ele precisa de maneira eficiente e transparente. Defendo modelos mistos para a realidade brasileira e acho que eles têm funcionado com relativo sucesso. Quem disse que tem de ser uma coisa ou outra?

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