Protesto contra agentes de imigração em Roma: países da Europa endureceram regras de entrada para estrangeiros (Andrea Ronchini/NurPhoto/Getty Images)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.
Depois da pandemia, a imigração teve um ápice nos Estados Unidos e na Europa. Em 2022, por exemplo, 6,9 milhões de pessoas emigraram legalmente para algum dos países da União Europeia. Sete anos antes, em 2015, foram pouco mais de 4 milhões (veja quadro abaixo). Essa alta, porém, foi seguida por um endurecimento das políticas contra estrangeiros, o que restringe a mobilidade internacional.
As consequências desse fechamento ainda são estudadas, mas pesquisadores apontam algumas conclusões. Uma delas é que os efeitos desse movimento demoram a ser sentidos plenamente. Outra é que países como o Brasil poderão atrair mais pessoas de fora.
“O rápido abandono dos tratados de migração humanitária do pós-Segunda Guerra Mundial pelos EUA e pela Europa levará a uma maior demanda por migração para novos destinos. A migração adicional nos próximos 20 anos poderá ser um enorme recurso econômico e fiscal para os brasileiros como um todo, com planejamento e regulamentação adequados”, diz Michael E. Clemens, professor de economia da Universidade Johns Hopkins e pesquisador do Peterson Institute of International Economics (PIIE).
A imigração traz efeitos variados para a economia. No curto prazo, o fechamento das fronteiras pode aumentar a oferta de empregos para os cidadãos locais, de forma mais acentuada em vagas de menor remuneração. Há também algum efeito desinflacionário em moradia, especialmente em bairros onde há grande afluência de estrangeiros.
Com o passar dos anos, surgem outras questões. “Os imigrantes são, em média, mais jovens e em idade ativa, contribuem para a segurança social e ajudam a sustentar as aposentadorias”, diz Francesco Franco, diretor de economia na Nova School of Business, de Lisboa.
Ele fez um estudo que estima que, até 2100, Portugal precisará aumentar impostos em 15% por causa do envelhecimento da população. Se a imigração cair a zero, esse aumento precisará ser de 20%. “Reduzir a imigração de forma contínua agrava a situação das contas públicas e transfere a despesa para as gerações futuras, sob impostos elevados, menos gastos públicos ou mais dívida”, aponta Franco.
Para os países mais pobres, de onde os imigrantes costumam sair, os efeitos também são variados. Há nações em que as remessas enviadas do exterior superam os investimentos estrangeiros, e a perda desses recursos afetará as economias.
Por outro lado, o retorno ou a permanência de trabalhadores pode aumentar o capital humano, especialmente em áreas de alta complexidade. A redução na troca de conhecimento, porém, afeta os dois lados. “A transferência de tecnologia será perdida. O efeito líquido será uma grande redução na oportunidade de intercâmbio mutuamente benéfico entre os países, prejudicando tanto os países de origem quanto os de destino”, diz Clemens.
Nesse cenário, países de renda intermediária, como o Brasil, devem receber mais estrangeiros, já que muitas pessoas em dificuldade vão continuar em busca de alternativas para emigrar. “O Brasil ainda é um exemplo de acolhimento, inclusive pelo acesso amplo ao sistema de asilo e pela concessão de vistos humanitários para refugiados do Haiti, Síria, Afeganistão e Ucrânia”, diz Davide Torzilli, representante da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) no Brasil. “Muitas pessoas encontraram aqui a melhor e, por vezes, única possibilidade de recomeço.”