Aline Telles, CEO do Grupo Telles: quinta geração à frente do negócio (Leandro Fonseca/Exame)
Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.
A história do Grupo Telles, de Fortaleza, é talvez o melhor exemplo de longevidade empresarial em um Brasil acostumado a ver milhares de negócios morrerem após pouco tempo. Em 2026, o grupo cearense comemora 180 anos sob o comando da mesma família. É o mais antigo do país, superando até mesmo grandes conglomerados também de origem familiar, como Klabin (127 anos) e Gerdau (125). O negócio começou pelas mãos do imigrante português Dario Telles de Menezes. Em 1846, ele desembarcou em Maranguape, cidade nos arredores de Fortaleza, então a mais próspera do Ceará, com um alambique de cerâmica nas mãos.
Foi o embrião da Ypióca, uma das marcas mais icônicas de aguardentes do país, mantida sob controle da família Telles até a venda para a multinacional Diageo, em 2012, por 470 milhões de dólares. De lá para cá, a família precisou recomeçar os negócios praticamente do zero. Sem a joia da coroa, o faturamento caiu pela metade. Só em 2017 a receita do Grupo voltou ao patamar pré-venda. Daí para a frente, com apostas em setores distintos, como bebidas não alcoólicas, embalagens e biocombustíveis, os negócios deslancharam. Hoje o Grupo Telles tem 2.200 funcionários em quatro estados. Em 2025, ultrapassou a receita de 1 bilhão de reais. “Batemos uma meta esperada havia algum tempo”, diz a CEO Aline Telles, da quinta geração da família.
Fábrica da Santelisa: fornecimento para as demais empresas do grupo (Grupo Telles/Divulgação)
Por trás da longevidade do Grupo Telles está um apetite por tomar decisões muito à frente do seu tempo. Ainda no século 19, Dario Borges Telles, filho do patriarca, engenhou melhorias no cultivo da cana para melhorar a produtividade. Seu filho, Paulo, completou o processo ao introduzir tonéis de bálsamo capazes de envelhecer a cachaça, criando uma aguardente com padrão premium inédito no Brasil. Além disso, entre as décadas de 1920 e 1940, ele expandiu a marca para além do Nordeste com ações de marketing ousadas.
Numa delas, chegou a enviar o próprio primo em uma jangada do Ceará ao Rio de Janeiro, exibindo na vela a propaganda da Ypióca. Dessa maneira, garantiu uma visibilidade nacional única para uma marca de aguardentes. Quase meio século depois, a família inovou de novo ao substituir a rolha de cortiça por uma tampa de rosca, -ideal para evitar a evaporação do álcool e dar um ar mais premium à cachaça.
A partir da década de 1980, já sob o controle de Everardo Telles, filho de Paulo, a companhia passou a investir em novos negócios, numa tentativa de fazer tudo dentro de casa para ficar menos na mão de fornecedores e, de quebra, buscar novos clientes. A começar pela fábrica Santelisa, aberta com o propósito original de garantir as caixas de papelão onduladas para o transporte da cachaça numa época de escassez da matéria-prima em fornecedores do Sul.
No início da década seguinte, o grupo repetiu a estratégia ao abrir a Yplastic, de embalagens. A unidade começou com um maquinário francês capaz de fabricar as garrafinhas de PVC para aguardentes de bolso — popularmente chamadas de “caubói”. Na mesma época, compraram um terreno no município de Horizonte, na Grande Fortaleza, e descobriram ali um olho d’água — motivo para a abertura da Naturágua, hoje um negócio de 180 milhões de reais. Nas décadas seguintes, vieram ainda investimentos numa distribuidora de combustíveis (Ypetro), num parque temático e num museu no terreno do primeiro alambique fundado pela família (iPark).
Da esquerda para a direita, Patrícia (consultora de projetos RH e ESG do grupo), Heloísa (diretora jurídica), Everardo (presidente do Conselho), Dário (de camisa branca, da sexta geração da família), Gisela (de camisa preta, diretora da Agropaulo), Elisa (de branco, vice-presidente de financeiro), Paulo (presidente do conselho) e Aline Telles, CEO do Grupo Telles: governança com regras claras (Grupo Telles/Divulgação)
A expansão das atividades continuou após a venda da Ypióca. A transação com a Diageo envolveu o direito de uso da marca Ypióca, as equipes comerciais e de logística e a venda de uma das cinco usinas de beneficiamento da aguardente. Ficaram com a família os demais negócios, incluindo os canaviais e a fábrica de embalagens. “A gente seguia com gás para empreender”, diz. Dessa forma, as usinas de aguardente foram adaptadas para produzir etanol e, assim, aproveitar o boom de biocombustíveis da década passada sob a marca Ceará Mirim Agroindustrial.
Mais recentemente, em 2022, a família comprou uma fábrica para envase de coco natural (Natucoco) numa área ociosa no terreno onde está a sede do grupo, no bairro Messejana, no sudoeste da capital cearense. Nos arredores dali, a empresa também cuida da Floresta do Curió, uma reserva de Mata Atlântica de 573.000 metros quadrados no meio de Fortaleza. Em paralelo a tudo isso, a família ainda comprou terras no Tocantins para o braço de agropecuária (Agropaulo), que também produz fertilizantes em fábricas no Ceará.
À medida que o Grupo expandiu para novas frentes, aumentou a sinergia entre os negócios. A Santelisa e a Yplastic, por exemplo, são as maiores fornecedoras da Naturágua e da Natucoco. A Agropaulo fornece fertilizantes orgânicos e defensivos para as lavouras da empresa. O biocombustível da Ceará Mirim alimenta a distribuidora Ypetro. Com mais de 2.000 visitantes por dia, o iPark serve de vitrine institucional para as marcas do grupo. O arranjo criado pela família ajudou na venda da Ypióca de duas formas.
Por um lado, deu um certo desapego pelo negócio então carro-chefe da família. “O mercado de destilados estava se consolidando ao redor do mundo e, ao mesmo tempo, vimos a oportunidade de diversificar”, diz Aline. “Chega a hora em que o valor de mercado é o valor que é para a nossa família.” Por outro, a dependência entre os negócios fez a família seguir olhando para as oportunidades, mesmo num cenário mais desafiador com a saída da Ypióca. “Tivemos alguns anos de prejuízo com a ociosidade dos ativos que ficaram com a gente. Mesmo assim, a gente focou esforços na operação”, afirma Aline. “Mérito do meu pai de não ter desfeito nenhum negócio.”
Após a venda da Ypióca, em 2012, o Grupo Telles expandiuem novas frentes tendo como meta gerar sinergias como que o grupo já fazia. O resultado é um tamanho inédito em 180 anos
OS NEGÓCIOS DO GRUPO
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Atuação |
Sinergia | |
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Agropaulo |
Indústria de fertilizantes orgânicos, óleos, grãos e pecuária |
Os fertilizantes orgânicos e defensivos abastecem os cultivos próprios do grupo |
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Ceará Mirim Agroindustrial |
Usina de biocombustíveis |
O biocombustível alimenta as bases da distribuidora e os combustíveis do grupo |
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iPark Complexo Turístico |
Parque de aventura, lazer ao ar livre e ecoturismo |
Serve de vitrine institucional e de sustentabilidade para as marcas do grupo |
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Naturágua |
Envasadora de água mineral |
É a principal cliente interna das embalagens da Yplastic e das caixas de papelão da Santelisa |
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Natucoco |
Beneficiamento e venda de água de coco natural |
Escoa sua produção usando garrafas da Yplastic |
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Santelisa |
Fábrica de caixas, chapas e bobinas de papelão 100% reciclado |
Fornece as embalagens para o transporte de produtos da Naturágua, Natucoco e insumos agrícolas |
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Yplastic |
Fábrica de garrafas plásticas PET e polietileno |
Fornece recipientes e garrafas para as marcas Naturágua e Natucoco |
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Ypetro |
Distribuidora de combustíveis e de serviços de tancagem |
Distribui e comercializa o etanol produzido pela Ceará Mirim |
Fonte: empresa.
A transformação do Grupo Telles tem paralelos com outros conglomerados de origem familiar mundo afora. Na Alemanha, a família Quandt despontou nos anos 1920 ao assumir o controle da Varta, uma pioneira em baterias automotivas. Depois de chegar ao controle da montadora BMW, três décadas depois, a família se desfez de boa parte da Varta. Hoje, os irmãos Susanne e Stefan, da quarta geração, acumulam um patrimônio de 57 bilhões de dólares, que inclui a participação societária na BMW, além de negócios na indústria farmacêutica e num family office com investimentos em setores como energia eólica, estruturas de carbono, logística e biotecnologia.
Na Colômbia, a família Carvajal começou a vender cadernos escolares na virada do século 20. Hoje, controla um grupo com receita anual de 1,2 bilhão de dólares com produção de embalagens, papéis e serviços de terceirização de mão de obra. O braço editorial, origem do império, responde por 10% do negócio atual. Um traço comum a grupos familiares longevos é o apego à atividade empresarial em si, e não necessariamente a um único produto. “Famílias empresárias que duram gerações são movidas por valores”, diz Sara Hughes, presidente do braço brasileiro do Family Business Network, organização fundada na Suíça em 1989 para a troca de conhecimentos entre 4.500 famílias empresariais de 66 países. “São lideranças que não pensam em aproveitar só o curto prazo, mas sim em construir para as próximas gerações.”
Esse olhar para o futuro está na ordem do dia dos Telles. Em 2024, Aline sucedeu o irmão Paulo na cadeira de CEO. Atualmente, ele dirige a operação da usina Ceará Mirim. O patriarca Everardo continua no Grupo como presidente do Conselho e gestor direto da unidade da Agropaulo no Tocantins. Outras três filhas estão na operação: Elisa é a CFO, Eloísa comanda a área jurídica, e Gisela acompanha o pai na operação agrícola.
A sexta geração da família tem 15 herdeiros e regras rígidas para a entrada deles no grupo. Os membros da família são proibidos de começar a vida profissional por ali, bem como empregar agregados. Antes de participar de um processo seletivo, devem ter trabalhado pelo menos quatro anos no mercado. É exigido também dos herdeiros uma formação sólida e alinhada com a atividade a ser desenvolvida no grupo, além de vivência fora do Brasil (e o domínio de línguas estrangeiras). Herdeiros a partir dos 14 anos já participam de atividades na empresa para conhecer o protocolo. E, na universidade, são incentivados a fazer programas de férias em alguma operação do grupo. Tudo em linha com boas práticas do mercado. “Não se pode achar que o direito de herança é direito a cargo na gestão”, diz Elismar Álvares, professora da Fundação Dom Cabral, especialista em sucessão em empresas familiares.
Linha de montagem da BMW na Alemanha: nas mãos de família que mudou de negócio ao longo de décadas (Sven Hoppe/Picture Alliance/Getty Images)
Ainda nos anos 1990, o patriarca Everardo repassou as cotas aos filhos, mas manteve o controle e criou regras que blindam o patrimônio contra divórcios. Além disso, se um herdeiro falecer, a parte dele não vai para os netos, mas volta ao fundador para uma nova divisão. Nos últimos anos, para garantir uma gestão profissional, a empresa montou um conselho com especialistas de fora e está criando o seu Conselho de Família. “Normalmente, quando a gente vai investigar essas empresas mais longevas, que já estão na quarta, quinta, sexta geração, elas buscaram governança e conseguiram se estruturar”, diz Letícia Reichert Vieira, conselheira do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, organização referência no tema no Brasil. “Há clareza de papéis e fóruns adequados para tratar cada tipo de assunto. Por isso a empresa chega lá.”
A marca de 180 anos de operação é um feito raríssimo para uma empresa brasileira, onde a grande maioria dos negócios familiares não resiste à segunda geração. Mesmo assim, desafios estão no caminho dos Telles. A integração da sexta geração ainda é uma incógnita — nenhum deles trabalha no Grupo. Além disso, em boa parte dos setores onde atuam, os Telles concorrem com pesos pesados como Klabin (papelão) e Minalba (bebidas), o que vai exigir investimentos robustos para seguir em expansão. “A gente precisa ser muito bom enquanto empresa familiar profissional. Não existe mercado só para empresas familiares”, diz Aline, com uma obstinação de quem quer (pelo menos) mais 180 anos de vida para o seu negócio.
As principais conquistas do Grupo Telles, hoje liderado pela quinta geração da família
→ 1846 | O imigrante português Dario Telles de Menezes inicia a produção de aguardente em Maranguape, dando origem à marca Ypióca
→ 1895 | A segunda geração assume os negócios e moderniza o cultivo da cana e os processos de destilação
→ 1924 | Paulo Campos Telles assume a empresa, introduz o envelhecimento da cachaça em tonéis de bálsamo e inova no mercado ao lançar a primeira garrafa de 1 litro para aguardentes
→ 1968 | A Ypióca realiza a primeira exportação de aguardente brasileira para a Alemanha, ampliando a presença internacional
→ 1970 | Sob a liderança de Everardo Telles, o grupo começa o processo de verticalização ao produzir suas próprias embalagens e insumos para reduzir a dependência de fornecedores
→ 1990 | A marca Naturágua nasce oficialmente após a descoberta de uma fonte de água mineral fluoretada naturalmente
→ 2012 | A Ypióca é vendida à Diageo por cerca de 900 milhões de reais. O comando da holding passa para os filhos de Everardo Telles (Paulo e Aline), da quinta geração
→ 2018/2025 | Naturágua, Yplastic, Santelisa, Ypetro e Agropaulo consolidam o novo ecossistema industrial do Grupo Telles