A invasão chinesa nas empresas da Europa

Para a China, a meta é ter produtos tecnologicamente mais avançados com marcas globais — e um atalho para atingir esse objetivo é comprar empresas na combalida Europa

São Paulo - Os países europeus ainda não saíram da pior crise desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Quem previu que depois de 2009, quando o PIB da União Europeia encolheu mais de 4%, nada mais de ruim aconteceria se enganou completamente. A economia do bloco até se recuperou no ano seguinte, mas, desde então, voltou a desacelerar.

A esperança é que neste ano volte a crescer, mas essa perspectiva não chega a entusiasmar num momento em que o desemprego entre os jovens bateu novo recorde e atingiu a marca de 23,5%.

Não está descartada a hipótese que o quadro ainda piore antes de melhorar. É nesse contexto dominado pelo pessimismo que fundos e estatais da China decidiram abrir a carteira e fazer aquisições em várias partes da Europa.

Somente no ano passado foram desembolsados 12,6 bilhões de dólares na compra do controle ou de fatias de companhias europeias, principalmente na Alemanha e no Reino Unido. O valor total é maior que a soma do que foi aplicado nos Estados Unidos e em toda a Ásia.

É um movimento que faz todo o sentido, dado o momento econômico da China. O que motiva os chineses é a necessidade de incorporar rapidamente tecnologias, marcas fortes e boas práticas de gestão.

Nas últimas duas décadas, a China abriu suas portas para companhias internacionais, passou a fazer parte de cadeias produtivas globais e o resto virou história: hoje as prateleiras de todos os cantos do mundo estão cheias de produtos de empresas americanas, europeias e japonesas fabricados na China.

O problema para os chineses, porém, é que esse modelo parece ter batido no teto, especialmente agora que o país sonha em ter suas próprias marcas globais e de alta qualidade. Para atingir esse objetivo, uma parte da estratégia foi executada na própria China.

Desde 1999 os investimentos em pesquisa e desenvolvimento cresceram em média 20% ao ano, mas os resultados práticos têm sido lentos. É por isso que a compra de empresas estrangeiras donas de tecnologias e marcas de primeira linha surge como uma espécie de atalho.

“A Europa, que continua sendo um dos  principais centros de produção industrial do Ocidente, está definitivamente destinada a receber mais investimento chinês nos próximos anos”, diz Andre Loesekrug-Pietri, presidente do fundo de private equity A Capital, com sede em Luxemburgo. 

Somente no ano passado, o fundo soberano China Investment Corporation arrematou 10% da holding que administra o aeroporto Heathrow, em Londres, e 9% da concessionária do rio Tâmisa. Também no Reino Unido, a estatal chinesa Bright Food adquiriu 60% da Weetabix, a segunda marca de cereal mais vendida da Inglaterra.

Na França e na Alemanha, o foco foi em tecnologia. Os chineses compraram 7% do capital da francesa Eutelsat, terceira maior operadora de satélites do mundo, e o controle da alemã Linde Hydraulics, fabricante de motores e bombas hidráulicos de alta tecnologia.

Individualmente, o maior investimento foi a compra de uma fatia de 21% da Energias de Portugal, uma companhia com 10 milhões de clientes na Europa e na América do Sul. “Num primeiro momento, as estatais chinesas compravam apenas títulos e ações. Depois, entraram como investidores de risco em pequenas empresas. 

Agora, com as grandes operações, elas começam a chamar a atenção”, diz Frank-Jürgen Richter, ex-diretor de assuntos asiáticos do Fórum Econômico Mundial.


Nos Estados Unidos, a presença chinesa também é crescente. Em 2012, a gigante do setor de energia Sinopec investiu 2,5 bilhões de dólares para ser parceira da petroleira Devon em cinco projetos. Mas o que poderia ser um campo fértil para mais negócios esbarra em resistência política.

O Congresso americano tem até uma comissão para monitorar os casos envolvendo empresas chinesas que impliquem riscos para a segurança nacional.

Em 2005, uma proposta da estatal CNOOC pela petroleira americana Unocal, um negócio que poderia ter chegado a 18 bilhões de dólares, foi mal recebida em Washington e não prosperou.

Em 2012, o governo Obama vetou a venda de um parque eólico para uma companhia chinesa sob a alegação de que o lugar era próximo de uma base da Marinha. Diante de repetidas dificuldades, a empresa de telecomunicações Huawei, uma das maiores multinacionais chinesas, afirmou em abril que não está mais interessada nos Estados Unidos. 

Inimigo na trincheira?

Diante da desconfiança dos americanos, os chineses se defendem argumentando que suas empresas, mesmo as estatais, são independentes do Partido Comunista, uma explicação que Washington nem sempre compra.

E não dá para dizer que seja pura paranoia. Um trecho do livro The Party: the Secret World of China’s Communist Rulers (“O partido: o mundo secreto dos líderes comunistas chineses”, numa tradução livre), do jornalista Richard McGregor, é esclarecedor nesse sentido.

Em 2004, o partido decidiu, de uma hora para outra, fazer uma dança das cadeiras entre os executivos que dirigiam três de suas maiores companhias de telecomunicações.

O aspecto surreal desse episódio é que duas das três companhias já eram listadas em bolsas do Ocidente — e tinham, pelo menos no papel, conselhos de administração independentes. Por que os europeus não parecem tão preocupados com esse tipo de história? “Os Estados Unidos são uma superpotência e têm rivalidades que a Europa não tem”, diz McGregor.

À medida que a China, com reservas cambiais no valor de 3,4 trilhões de dólares, continue suas compras pelo mundo, um número crescente de países deve se defrontar com essas questões — inclusive o Brasil, onde o investimento chinês aumenta ano após ano.

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