'A Odisseia': Matt Damon interpreta Odisseu e Zendaya representa a deusa Atena (Universal/Divulgação)
Repórter
Publicado em 27 de julho de 2026 às 19h11.
A tradutora Emily Wilson, uma das referências de Christopher Nolan para "A Odisseia", fez duras críticas ao novo filme do diretor.
Em texto publicado na revista London Review of Books, ela afirmou que teria vergonha de ter escrito qualquer parte do roteiro e considerou que a adaptação esvazia a complexidade do poema de Homero.
Professora de estudos clássicos da Universidade da Pensilvânia, Wilson publicou em 2017 uma tradução de "A Odisseia" que se tornou best-seller. Ela também traduziu "A Ilíada" e obras de Sêneca e Eurípides, além de escrever livros sobre Sócrates, Sêneca e a tradição trágica.
Nolan mencionou o trabalho da professora durante a divulgação do filme. "Acredito que é a tradução de Emily Wilson que começa com ‘Conte-me sobre um homem complicado", disse em entrevista à revista Empire.
A menção ajudou a colocar novamente o livro de Wilson em evidência. A recepção da tradutora ao longa, no entanto, ficou distante de um elogio.
"Fiquei honrada ao saber que Nolan leu pelo menos a primeira linha da minha tradução", escreveu. "Mas eu teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste roteiro."
A principal crítica de Wilson está na construção de Odisseu, interpretado por Matt Damon. Segundo ela, o personagem perdeu justamente as características destacadas na primeira frase de sua tradução. “Infelizmente, o Odisseu de Damon não é complicado, astuto nem engenhoso”, afirmou.
Para ela, no poema de Homero, Odisseu se destaca pela capacidade de criar estratégias, contar histórias e enganar adversários. Wilson cita como exemplo o encontro com o ciclope Polifemo, quando o herói diz se chamar “Ninguém” para impedir que o gigante consiga pedir ajuda aos vizinhos depois de ser cegado.
'A Odisseia': Matt Damon como Odisseu (Melinda Sue Gordon/Universal Pictures/Reprodução)
No filme, segundo a tradutora, Odisseu não precisa superar Polifemo pela inteligência. O ciclope quase não fala, não tem vizinhos e é apresentado como uma criatura sem capacidade de raciocínio.
Wilson também considera que a adaptação retira do protagonista sua habilidade tecnológica. Ela observa que o longa não mostra a concepção nem a construção do Cavalo de Troia e simplifica a produção da jangada usada por Odisseu para deixar a ilha de Calipso.
Para a professora, o resultado é um herói movido principalmente por ansiedade e culpa, mas sem a ambiguidade, a habilidade narrativa e a inventividade que definem o personagem de Homero.
Wilson reconhece que o filme funciona como entretenimento e elogia a capacidade da história original de sustentar o espetáculo. Ela descreve o longa como uma produção audiovisual adequada para famílias e afirma que seus filhos adolescentes se divertiram.
A avaliação positiva, porém, termina aí. Para a tradutora, o filme tem a profundidade narrativa e emocional de "uma elaborada queima de fogos".
Segundo Wilson, Nolan enche praticamente todas as cenas com ação, luzes e ruídos, sem abrir espaço para momentos em escala humana. "Não há contenção na versão de Nolan de 'A Odisseia': cada segundo está abarrotado de acontecimentos, luzes e barulho", escreveu.
A professora afirma que os recursos técnicos acabam sufocando a história. Embora o filme sugira reflexões sobre memória, guerra, civilização, poder e a relação com estrangeiros, os personagens seriam pouco desenvolvidos para sustentar essas ideias.
“O filme é muito bom em transmitir grandes explosões e grandes gigantes”, afirmou.
Anne Hathaway e Mia Goth em 'A Odisseia', de Christopher Nolan (Universal Pictures)
A falta de profundidade também aparece, segundo Wilson, na construção das mulheres. Ela considera que personagens com discursos e conflitos próprios no poema são reduzidas a figuras que auxiliam ou desejam Odisseu.
A Calipso interpretada por Charlize Theron, por exemplo, teria perdido a raiva, o humor e o desejo presentes na obra de Homero. Na avaliação da tradutora, a personagem se torna uma espécie de terapeuta que oferece drogas a Odisseu e escuta seus traumas.
Penélope, vivida por Anne Hathaway, também teria pouco a fazer além de esperar pelo retorno do marido. Wilson elogia a expressividade da atriz, mas afirma que o roteiro não explica por que a personagem deseja tanto Odisseu nem desenvolve uma relação convincente entre os dois. "O casal não tem química nem nada em comum", diz.
A professora faz uma crítica semelhante ao elenco não branco. Para ela, a escalação racialmente diversa não resulta em uma abordagem progressista porque Zendaya, Lupita Nyong’o, Himesh Patel e outros atores recebem papéis pouco desenvolvidos, geralmente destinados a ajudar o protagonista branco.
Wilson também considera os diálogos excessivamente explicativos, pouco engraçados e sem naturalidade. Para ela, o uso do inglês americano contemporâneo não é o problema. “A linguagem é implacavelmente expositiva, sem humor e superficial”, afirmou.
Outro problema apontado pela tradutora está nas contradições morais do filme. A violência dos gregos contra os troianos é tratada como condenável, enquanto o massacre dos pretendentes de Penélope surge como uma ação legítima e até celebrada.
Robert Pattinson interpreta Antinous, pretendente que desafia a lei da hospitalidade no filme (Divulgação)
Da mesma maneira, enganar personagens pode ser apresentado como algo condenável ou heroico, dependendo de quem pratica a ação. Wilson argumenta que essas tensões poderiam enriquecer a história, mas permanecem desconectadas e sem uma experiência humana que lhes dê sustentação.
Apesar das críticas, Wilson reconhece que o lançamento pode beneficiar o estudo da literatura clássica. A professora celebra o fato de o longa levar espectadores de volta aos cinemas e impulsionar as vendas de traduções de "A Odisseia", incluindo a sua.
Ela também acredita que parte do público atraído pelo elenco ou pelo espetáculo pode se interessar pelo poema, estudar grego antigo ou descobrir outras obras clássicas. "Nolan está fazendo o possível para levar o público geral a ler novamente, e sou grata por isso", diz no final de sua crítica.