Taylor Swift: saiba a história de Ofélia (YouTube/Reprodução)
Repórter
Publicado em 24 de dezembro de 2025 às 19h01.
Última atualização em 25 de dezembro de 2025 às 18h20.
A música “The Fate of Ophelia”, lançada por Taylor Swift como faixa central de seu novo projeto, resgata uma das personagens mais trágicas da literatura ocidental: Ofélia, da peça Hamlet, de William Shakespeare.
Na obra original, escrita entre 1599 e 1601, Ofélia é uma jovem nobre da Dinamarca, filha de Polônio, conselheiro do rei, e irmã de Laertes. Ela é uma das apenas duas personagens femininas da tragédia e se tornou, ao longo dos séculos, um dos maiores símbolos literários da fragilidade feminina em sistemas patriarcais.
Ofélia ocupa uma posição social relevante, mas tem sua identidade definida quase exclusivamente pelos homens à sua volta. Submissa ao pai e ao irmão, ela é forçada a romper sua relação com Hamlet por ordem de Polônio. Quando passa a ser usada como instrumento para vigiar o príncipe, torna-se vítima direta de manipulação política e emocional.
A rejeição pública de Hamlet, no episódio conhecido como a “cena do convento”, marca um ponto de ruptura. Ao negar seu amor e humilhá-la, Hamlet destrói o último vínculo afetivo de Ofélia, que já havia sacrificado seus próprios sentimentos por obediência.
O colapso definitivo ocorre após a morte de Polônio, assassinado acidentalmente por Hamlet. Sem o pai — figura central de autoridade que estruturava sua existência —, Ofélia perde qualquer referência de identidade.
Sua loucura é explícita e não ambígua: ela canta canções fragmentadas, fala por metáforas e distribui flores com significados simbólicos ligados à morte, à sexualidade e à traição.
Ofélia morre afogada ao tentar pendurar guirlandas de flores sobre um riacho. Shakespeare mantém a ambiguidade sobre se a morte foi um acidente ou suicídio. Mesmo no fim, a personagem permanece sem controle sobre o próprio destino.
Em “The Fate of Ophelia”, Taylor Swift retoma essa trajetória trágica como ponto de partida, mas subverte o desfecho. A letra faz referência direta à jovem “filha de um nobre”, à loucura induzida pelo amor e à ideia de afogamento como destino inevitável. A diferença está no eixo narrativo: a voz da canção afirma ter sido salva desse destino.
Na interpretação proposta por Swift, o amor surge como força de resgate. A personagem da música não afunda, não enlouquece e não desaparece. Ela escapa. A tragédia é reconhecida, mas não reproduzida.
A releitura, no entanto, não passou incólume pela crítica literária. Especialistas apontam que o colapso de Ofélia não se explica apenas pela frustração amorosa, mas por uma estrutura de supressão de autonomia feminina. Seu sofrimento decorre da ausência de agência em um sistema que a instrumentaliza do início ao fim.
Ao transformar o amor romântico em solução, a canção desloca o foco do problema estrutural que define a personagem original. Ainda assim, o diálogo cultural permanece relevante ao reintroduzir Ofélia no imaginário contemporâneo.
Ofélia permanece uma figura central da literatura porque encarna temas universais: loucura, perda, silenciamento e ausência de escolha. Ao revisitá-la, Swift reforça um movimento recorrente em sua obra: apropriar-se de narrativas clássicas para reposicionar mulheres não como vítimas do destino, mas como autoras de sua própria saída da tragédia.
Diferentemente da jovem de Elsinore, a Ophelia de Swift não se afoga. Ela sobrevive.