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Caravaggio, Itália e Andrew Scott em preto e branco: por que 'Ripley' é um primor de minissérie

Gravada nas mais bonitas paisagens de Nápoles, Sicília, Pallermo e Veneza, nova minissérie da Netflix reinventa história dos anos 1990 com suspense e elegância

Ripley: confira a crítica da nova minissérie da Netflix (Philippe Antonello/NETFLIX)

Ripley: confira a crítica da nova minissérie da Netflix (Philippe Antonello/NETFLIX)

Luiza Vilela
Luiza Vilela

Repórter de POP e Redatora da Homepage

Publicado em 8 de abril de 2024 às 15h14.

Última atualização em 8 de abril de 2024 às 20h40.

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Eis aqui um fato bastante óbvio: desde os anos 1950, a televisão moderna e o cinema trabalham com a cor como um de seus maiores trunfos. Talvez seja meio clichê dizer, mas a riqueza de detalhes e a própria sensação de ver as coisas como de fato elas se apresentam para nós, causa impacto — que transformou a finalidade do uso do preto e branco, antes a única alternativa, para algo intencional. Um bom exemplo é o vencedor do Oscar "Oppenheimer", o indicado "Maestro" e a mais recente estreia da Netflix, "Ripley", criada por Steven Zaillian e protagonizada por Andrew Scott ("Fleabag").

A diferença da minissérie para os outros filmes, além do formato, é que tanto o filme de Christopher Nolan quanto o de Bradley Cooper fazem uma mistura de cores, trocando entre cenas de plena cor e em preto e branco. Já a criação de Zaillian explora a total ausência de cores de propósito: são oito episódios todos em preto e branco, nos quais a maior virtude são justamente as belíssimas — e, ironicamente, tão coloridas — paisagens de Nápoles, Sicília, Veneza e Roma, na Itália, sob os olhos atentos de um serial killer chamado Tom Ripley.

A história é baseada no livro e filme "O Talentoso Mr. Ripley", criado pela autora Patricia Highsmith, em 1955, e depois adaptado para o cinema por Anthony Minghella e protagonizado por Matt Damon, em 1999. O enredo tem enfoque em Thomas Ripley, um discreto assassino em série e vigarista que é contratado por um homem rico, pai de um amigo de infância de Ripley, Richard Greenleaf. Tom viaja até a Itália para encontrá-lo, com planos bem diferentes dos que foi contratado para fazer.

Na nova minissérie da Netflix, é Andrew Scott o grande protagonista em cena, meticuloso e calculista como todo bom serial killer precisa ser. Mas será que vale a pena assistir? Pela EXAME POP, assisti à minissérie e trago para vocês minha análise crítica sobre "Ripley"Confira:

Andrew Scott como Tom Ripley (Lorenzo Sisti/NETFLIX.)

Andrew Scott brilha em 'Ripley'

Fazer bons filmes ou séries de serial killers tem sido um trabalho árduo nos últimos anos para os estúdios, apesar do crescente interesse no tema por parte do público. Produções recentes não trabalharam tão bem as motivações para os crimes — que passaram a ser bem mais questionadas —,  e nem sempre conseguem evitar o sensacionalismo e um enredo previsível.

Mas, acima de tudo, há uma dificuldade nítida de transportar, no trabalho dos atores, a falta de empatia necessária para interpretar um psicopata. Precisa ser convincente, tanto em roteiro e direção, quanto em interpretação. E isso definitivamente não é um problema para Andrew Scott.

Já em um trabalho de ascensão como Moriarty em "Sherlock", da BBC, Scott vem mostrando desde 2010 que domina a arte de se passar por um assassino meticuloso. O talento para interpretação do drama, em especial nas produções com enfoque na discussão sobre a comunidade LGBTQIA+, como foi com "Todos Nós Desconhecidos", são bagagens importantes para a interpretação em "Ripley". Tornam o personagem não só misterioso, mas também cativante.

Andrew Scott como Tom Ripley (Lorenzo Sisti/NETFLIX.)

Na ausência dos sentimentos do personagem, que combina com a falta de cores da série, Andrew Scott brilha. As motivações do crime, soluções para encobrir seus rastros, e dúvidas sobre os próprios desejos, ficam centrados no olhar do ator e na tão polida postura corporal que ele apresenta. Os poucos diálogos encantam e as meias-expressões — especialmente os sorrisos contidos —, dominam a cena tanto quanto as paisagens da Itália. 

Outro ponto alto da interpretação do ator está na boa execução do italiano, ainda que com sotaque carregado. No jogo de sedução que Scott inicia nos primeiros capítulos, o estilo e o enfoque na linguagem te vencem tanto quanto o padre que ele interpreta em "Fleabag" (2016).

O roteiro de Zaillian contribui para que Scott cresça à medida que a minissérie avança. Aos poucos, os verdadeiros interesses e entraves das ações de Ripley vão sendo desvendadas pelo público e, para quem não conhece a história, a trajetória é uma instigante surpresa.

Andrew Scott como Tom Ripley (Ripley/ Netflix)

Preto e branco nas 'cores' de Caravaggio

Por falar de ausência de sentimentos e estratégias meticulosamente planejadas, a série se apoia — e muito — no contraste e no jogo de luz e sombra. Uma estratégia que beira à metalinguagem, posto que boa parte do enredo se mistura às obras do tão polêmico Caravaggio.

As pinturas renascentistas do pintor, espalhadas por toda a Itália com a típica expressão barroca, vão conduzindo a história de uma maneira muito sutil. Uma pintura aparece no centro da cena logo no primeiro capítulo, a outra é a "desculpa" ideal para mudar de cidade, a próxima é a solução para se livrar de um problema.

Do primeiro encontro de Ripley com as obras de Caravaggio às últimas cenas em que ele quase as persegue nas cidades italianas, a história dos dois vai criando uma semelhança, até que pintura, pintor e admirador de tornem quase os mesmos.

A presença do estilo do pintor também está, de certa forma, na direção de fotografia da minissérie. É também por isso que é tão metalinguístico: quando se retira toda a cor de paisagens belíssimas como as praias de Nápoles, as igrejas e vielas de Roma, os canais de Veneza, cria-se um distanciamento daquilo que é tão bonito de se ver. O apoio da imagem vai, então, para o contraste, para a luz e a sombra daquilo que é fotografado.

Andrew Scott como Tom Ripley em Nápoles (Itália) (Ripley / Netflix)

Somado à luz e ao contraste, a beleza arquitetônica da Itália também conversa com a história. Estatuetas e pinturas atentas são tão observadores das ações de Ripley como o público que assiste à minissérie e pairam ali, estáticas, como testemunhas impedidas de falar.

Em preto e branco, a fotografia de "Ripley" é propositalmente linda: a arquitetura da Itália ganha é posta à prova para não só encantar e evidenciar os luxos que uma pequena parcela da população consegue alcançar, como também distancia o público de um sentimento mais próximo com o lugar.

O brilho nos olhos que a beleza de todas as cenas causa vai, aos poucos, murchando nos tons de cinza. Mas a curiosidade sobre como é o local ao vivo e a cores aumenta. Se aquilo é tão belo sem cor, imagine só o quão mais pode ficar com ela.

Da mesma forma polêmica como caminhou a vida de Caravaggio, a história de Ripley vai se complicando à medida que novas escolhas são tomadas. Se no começo você torce por Richard Greenleaf, ao final da minissérie, você torce para que Ripley se safe. E fica ainda mais angustiado quando o personagem parece se enfiar em "becos sem saída", mas de alguma forma, consegue escapar.

Onde assistir 'Ripley' online?

A série está disponível no catálogo da Netflix.

Quem está no elenco de 'Ripley'?

Além de Adrew Scott, fazem parte do elenco Dakota Fanning, Maurizio Lombardi e Johnny Flynn.

'Ripley' é baseado em fatos reais?

A história do serial killer é baseada no livro de ficção "O Talentoso Mr. Ripley", criado pela autora Patricia Highsmith, em 1955. O personagem é totalmente fictício.

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