5 fatos sobre como 'Rambo 3' mostra o Talibã e o Afeganistão

Em "Rambo 3", cenas do herói da Guerra Fria retratam o começo da relação entre EUA e parte do grupo que viria a ser o Talibã no Afeganistão
Cena de "Rambo 3": filme mostra parceria entre americanos e guerrilhas afegãs durante a invasão soviética nos anos 1980 (TriStar Picutres/Divulgação)
Cena de "Rambo 3": filme mostra parceria entre americanos e guerrilhas afegãs durante a invasão soviética nos anos 1980 (TriStar Picutres/Divulgação)
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Carolina Riveira

Publicado em 17/08/2021 às 14:43.

Última atualização em 17/08/2021 às 20:27.

"Na batalha pela opinião das massas na Guerra Fria, poucas armas foram mais poderosas do que o cinema", escreveu o pesquisador Tony Shaw no livro Hollywood's Cold War (Edinburgh University Press, 2007).

Nos últimos dias, a teoria novamente entrou em discussão quando cenas do filme "Rambo 3", terceiro da franquia estrelada por Sylvester Stallone, ganharam as redes sociais após o colapso do Afeganistão.

O motivo é o retrato quase preciso dos primeiros passos do Talibã, grupo que adota uma visão política radical do islamismo. O Talibã retomou o poder no Afeganistão neste domingo, 15, no vácuo da retirada das tropas americanas após duas décadas de ocupação.

Mas muito antes de George W. Bush invadir o país em 2001, alguns dos militantes que depois viriam a fazer parte do Talibã foram indiretamente apoiados pela própria CIA, agência de inteligência americana, uma trama complexa que é retratada parcialmente em "Rambo 3".

1 - Aliados em solo

O pano de fundo do filme é a invasão soviética no Afeganistão, que colocou o país de vez nos holofotes da Guerra Fria.

A União Soviética ficaria em território afegão por uma década (1979-1989), no episódio conhecido como Guerra do Afeganistão.

Aos EUA, interessava que a oposição afegã contivesse o avanço soviético. É nesse cenário que o protagonista John Rambo, interpretado por Sylvester Stallone, vai ao Afeganistão salvar o amigo coronel Trautman, que havia sido capturado pelos soviéticos por estar no país exatamente treinando rebeldes afegãos.

Na trama, os personagens da ficção tentam impedir que os soviéticos, vilões da história, destruam sua vila. Além do resgate de Trautman, "Rambo 3" mostra os americanos atuando ao lado dos afegãos, e retrata os guerrilheiros locais com um viés positivo.

"'Rambo 3' é dedicado 'ao galante povo do Afeganistão' e claramente pretende que sua política seja levada a sério", escreve a crítica Janet Maslin em 1988 no jornal americano The New York Times, fazendo referência à mensagem que aparece nos créditos do filme e que dedica a obra aos afegãos.

O filme faturou 189 milhões de dólares em bilheteria, tendo sido considerado um sucesso nos EUA da época. Com um orçamento de 58 a 63 milhões de dólares, foi também um dos filmes mais caros já feitos até então.

2 - A Guerra do Afeganistão

"Rambo 3" foi lançado em 1988, um ano antes de os soviéticos deixarem o Afeganistão. A guerra no país drenou recursos da União Soviética e foi uma das responsáveis pela derrocada da superpotência.

O Afeganistão era um território estratégico para a URSS. Fica no meio de países como Tajiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão (antigos membros soviéticos), além de fazer fronteira com a China, com o Irã e com o Paquistão (e também perto da Índia).

Na ocasião, além de garantir influência em seu "quintal", a URSS buscava uma saída para o Mar Arábico.

A guerra era, na teoria, entre soviéticos e afegãos locais, mas extrapolou para os conflitos globais, como mostra a própria trama de Rambo.

As políticas dos EUA contra os soviéticos no Afeganistão passaram por governos de espectros políticos diversos: do democrata Jimmy Carter (que autorizou o envio de recursos e apoio estratégico aos afegãos) ao republicano Ronald Reagan (que ampliou ainda mais a presença americana).

3 - Os guerrilheiros afegãos

Para além da presença americana, os guerrilheiros mujahidin, mostrados como heróis em "Rambo 3", foram, de fato, grandes responsáveis pela derrota da União Soviética no Afeganistão e o fim da ocupação em 1989.

Mas em um cenário posterior, depois que os soviéticos deixaram o Afeganistão, as disputas internas fariam com que parte dos mujahidin se juntasse ao que viria a ser o Talibã.

(Sucessivos comentários na internet nos últimos anos têm alegado também que a mensagem final original de "Rambo 3" era de "dedicado aos bravos guerreiros mujahidin", e não "ao galante povo afegão" como é na versão atual, embora não haja comprovação de que essa mensagem de fato foi exibida.)

Reagan em encontro com rebeldes afegãos, em foto datada de 1986: governo americano é acusado de ter criado as bases para o surgimento do Talibã (Cynthia Johnson/Getty Images)

Nesse processo complexo, o Talibã também se beneficiou de armas deixadas no país por americanos e soviéticos.

"É interessante observar como isso foi retratado muito por Hollywood, Rambo vai ao Afeganistão e luta contra os soviéticos ao lado dos grupos que depois formariam o Talibã", disse em entrevista anterior à EXAME o professor Juliano Cortinhas, da Universidade de Brasília, especialista em defesa e política externa.

"Esse é o tamanho do papel do Afeganistão, quer dizer, o grande herói da Guerra Fria de Hollywood também esteve por lá. É um retrato muito interessante da época, e é feita uma homenagem clara aos afegãos que lutaram contra os soviéticos."

4 - Avanço do Talibã

Assim, se um dia parte dos mujahidin e a CIA foram próximos, esse período logo teve fim. Depois de expulsar os soviéticos e se estruturar como o principal grupo político e militar do país, o Talibã governaria o Afeganistão entre 1996 e 2001.

O grupo fez um governo hostil aos próprios americanos, além de se aproximar de outras organizações terroristas anti-EUA, o que culminou no 11 de setembro.

O Talibã seria retirado do poder pelos americanos no governo George W. Bush, que invadiu o país em 2001 e acusou o Talibã de esconder no Afeganistão o terrorista Osama Bin-Laden, da Al Qaeda.

A invasão americana, como a soviética anos antes, terminou se prolongando. Sucessivos governos dos EUA mantiveram a presença no país e tentaram criar um Estado afegão.

Mas a empreitada da construção institucional falhou. Já o Talibã nunca se extinguiu por completo e seguiu recrutando guerrilheiros baseado na fronteira com o Paquistão, apesar de enfraquecido em alguns momentos.

Coincidentemente, em uma cena de "Rambo 3", um afegão que ajuda o protagonista a atravessar a fronteira com o Paquistão aponta que muitos tentaram dominar o território ao longo da história, de Alexandre, o Grande na Idade Antiga ao Reino Unido no século 20.

Mas diz que nenhum havia conseguido permanecer por muito tempo e que os afegãos lutam bravamente — uma lição ingrata que os EUA também viriam a aprender nas décadas seguintes.

5 - Hollywood na Guerra Fria

Não só "Rambo 3", mas uma série de outros filmes, livros e peças artísticas serviram como reflexo do momento de disputa entre americanos e soviéticos na Guerra Fria.

Um dos enredos mais comuns foram filmes de espionagem, além do retrato da ameaça nuclear. Em muitos casos, como retrataram os pesquisadores anos depois e com base em documentos, os filmes não eram feitos a mando do governo americano, mas Hollywood esteve "feliz em se voluntariar".

Alguns se tornaram clássicos e ganham releituras até hoje. Os próprios primeiros filmes da franquia Rambo mostram, por exemplo, episódios da Guerra do Vietnã (1955-75).

O mesmo Sylvester Stallone participou de outro clássico americano do período, a franquia "Rocky", que foi de 1976 até 1990. Em Rocky 4, o boxeador Rocky Balboa é desafiado pelo soviético Ivan Drago, que também é responsável por matar um amigo de Rocky no ringue (e termina, é claro, perdendo para Rocky).

James Bond

James Bond: espião do MI-6 é retratado na franquia 007 com vilões soviéticos, um clássico até hoje (MGM/Reprodução)

Há ainda exemplos europeus, como a saga "007" (que mostra não um americano, mas o britânico James Bond, da agência de espionagem MI-6, a "CIA do Reino Unido").

Rambo, como outras obras da Guerra Fria, foi criado na esteira das peças artísticas que fomentavam a boa imagem americana. Mas o retrato da relação entre os americanos e afegãos na ficção mostra os erros que aconteceram no meio do caminho.