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Prosdócimo: o que aconteceu com a marca de geladeira que dominava o Brasil

A fabricante curitibana liderava o mercado de freezers quando foi vendida à Electrolux em 1996. Sete meses depois, o nome desapareceu — e só voltaria às lojas em 2024

Geladeiras Prosdócimo: indústria chegou a faturar 884,3 milhões de dólares em 1995 (Reprodução)

Geladeiras Prosdócimo: indústria chegou a faturar 884,3 milhões de dólares em 1995 (Reprodução)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 17 de maio de 2026 às 10h06.

Última atualização em 17 de maio de 2026 às 16h18.

Poucos setores no Brasil mudaram tanto entre os anos 1980 e 1990 quanto o de eletrodomésticos e o varejo de linha branca.

A hiperinflação corroeu o crediário, a abertura comercial de Collor trouxe concorrência estrangeira e a estabilização do Real, em 1994, forçou empresas familiares a profissionalizar a gestão ou desaparecer.

Foi nesse ambiente que sumiram gigantes como Mappin, Mesbla, Arapuã, Hermes Macedo e Disapel.

No meio dessa lista está a Prosdócimo, marca curitibana que durante décadas foi sinônimo de geladeira no Brasil.

O nome pertencia a uma família de origem italiana e batizava duas operações distintas: uma rede de lojas de departamento e uma fábrica de eletrodomésticos.

A primeira chegou ao fim 1984. A segunda, em 1997. E a marca acabou voltando ao mercado em 2024 — pela porta dos fundos.

O retorno da Prosdócimo aconteceu de forma improvável. A WAP, marca de aspiradores e lavadoras de alta pressão que originalmente fazia parte da própria Prosdócimo, comprou o nome da família depois de superar 500 milhões de reais em faturamento em 2022.

Do conserto de bicicletas à Praça Tiradentes

A história começa no início do século XX, quando o imigrante italiano João Prosdócimo abriu uma pequena oficina em Curitiba.

O negócio cresceu na importação de produtos que a indústria brasileira ainda não fabricava: máquinas de costura, rádios, motocicletas, bicicletas.

"A indústria brasileira era incipiente. Além das motocicletas e bicicletas, a empresa importava também rádios e aerodínamos wincharges — geradores eólicos de energia —, e diversos produtos que a indústria nacional não fabricava. Nada disso era produzido aqui", contou Rogério Prosdócimo em entrevista à Fecomércio do Paraná.

Em 1934, a loja se mudou para a Praça Tiradentes, no centro de Curitiba. O prédio ocupava sete pavimentos — cinco de lojas e dois de escritórios. Virou a matriz por décadas.

No fim dos anos 1940, a empresa firmou contrato com a sueca Nymanbolagen para produzir bicicletas com a marca brasileira, encerrando a montagem com peças alemãs da Dürkopp.

Nesssa mesma época, a família Prosdocimo teve a oportunidade de comprar uma fábrica de refrigeradores que existia em Curitiba. Os irmãos Pedro e João Antônio dividiam o comando das empresas. Enquanto Pedro era presidente no comércio, João Antônio era na indústria. Ambos eram vice-presidentes de cada empresa.

“Na época da compra da indústria era fabricada uma geladeira por dia. O crescimento do consumo, o aquecimento da indústria nacional, o acesso à energia elétrica fez com que a empresa crescesse e, em 1949, foi fundada a Refripar – Refrigeração Paraná”, destaca Rogério.

Em 1963, já eram fabricados mensalmente mil geladeiras elétricas e a marca Prosdocimo se tornou referência em todo o país.

O fim do varejo

A rede de lojas não sobreviveu aos anos 1980. A crise econômica, a hiperinflação e a descapitalização levaram o grupo à venda para a Arapuã, conglomerado de 276 lojas de propriedade de Jorge Jacob.

A negociação foi anunciada pelo Jornal do Brasil em 18 de julho de 1984. A cadeia de 23 lojas estava em recuperação judicial.

Antes do fim, as Lojas Prosdócimo eram famosas pela inventividade no varejo.

A empresa chegou a montar um tanque de 120 mil litros de água salgada dentro da loja Gigantão, em Curitiba, com seis apresentações diárias de um golfinho importado de Santos para atrair clientes.

A venda à Electrolux

A Refripar seguiu independente por mais 12 anos depois da morte do varejo, e em posição confortável. A empresa chegou a dominar 20% do mercado brasileiro de geladeiras e 60% do mercado de freezers.

Em 1995, registrou faturamento de 884 milhões de dólares e foi a 61ª maior empresa privada do país de acordo com o ranking Melhores e Maiores da EXAME. As vendas haviam crescido 30% em relação ao ano anterior.

A venda à Electrolux aconteceu no auge, não na crise.

A sueca já detinha 10% do capital desde meados de 1994 e comprou 41% das ações em 1996 por 50 milhões de dólares.

A Umuarama, holding controlada por Sérgio Prosdócimo e até então dona de 53% da Refripar, ficou com 12% do capital.

O comercial veiculado na TV chamava a operação de "casamento por interesse". "O líder mundial em eletrodomésticos se uniu ao líder brasileiro em freezers", dizia o narrador.

A promessa inicial era manter o nome. Os produtos passaram a ser vendidos como "Electrolux-Prosdócimo".

Em abril de 1997, a marca foi extinta da linha de produção. A justificativa, segundo o presidente da época, Antônio Carlos Romanoski, foi estratégica.

O retorno em 2024

A volta da marca aconteceu por um caminho curioso.

A WAP, que originalmente era uma linha da própria Prosdócimo dedicada a aspiradores e lavadoras de alta pressão, ficou engavetada após a aquisição pela Electrolux.

Em 2006, foi comprada pelo empresário Gilberto Zamcopé, dono da Fresnomaq, então fabricante de máquinas agrícolas.

A WAP virou líder em lavadoras de alta pressão. Diversificou em 2015, depois da crise hídrica reduzir as vendas no segmento principal, e ultrapassou 500 milhões de reais de faturamento em 2022. A escala permitiu à empresa adquirir a marca Prosdócimo da Electrolux e relançá-la em 2024.

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