Porto Futuro II, em Belém : complexo revitalizado reúne inovação, cultura e gastronomia às margens da Baía do Guajará (Porto Futuro II/Divulgação)
Repórter
Publicado em 17 de maio de 2026 às 12h05.
Última atualização em 3 de junho de 2026 às 18h08.
BELÉM — Durante décadas, os antigos armazéns portuários da região do Reduto, às margens da Baía do Guajará, foram um retrato do abandono no centro histórico de Belém. Onde hoje circulam pesquisadores, startups, turistas e empreendedores da bioeconomia, antes havia galpões vazios, estruturas deterioradas e até um depósito de carros antigos.
Agora, o cenário é outro. Revitalizado como uma das principais obras preparatórias para a COP30, o Complexo Porto Futuro II virou uma espécie de vitrine da nova aposta econômica do Pará: transformar biodiversidade em negócios, inovação e turismo.
O espaço foi palco do Bioeconomy Amazon Summit (BAS) 2026, realizado entre os dias 12 e 14 de maio. O evento ocupou justamente os armazéns que hoje abrigam o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia — um hub criado para conectar startups, pesquisadores, cooperativas e empresas ligadas à floresta.
O projeto ocupa uma área de cerca de 50 mil metros quadrados em antigos galpões da Companhia Docas do Pará (CDP), inaugurados originalmente em 1909, no auge do ciclo da borracha. Ao longo do século 20, o porto foi um dos principais pontos de circulação de mercadorias da região amazônica.
A revitalização consumiu cerca de R$ 568 milhões, com recursos do programa estadual Estrutura Pará, apoio do BNDES e execução viabilizada por acordo ligado a créditos da taxa minerária estadual. As obras foram conduzidas pela Secretaria de Cultura do Pará (Secult) e envolveram mais de 400 profissionais entre engenheiros, arquitetos e especialistas em restauro.
Os armazéns passaram por recuperação estrutural, restauração de guindastes históricos e adaptação para novos usos. Parte das estruturas metálicas originais foi preservada após mapeamento a laser supervisionado por órgãos de patrimônio histórico, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Porto Futuro II : antigos armazéns portuários deram lugar a um centro de inovação voltado à bioeconomia amazônica (Porto Futuro II/Divulgação)
Hoje, o complexo reúne o Museu das Amazônias, a Caixa Cultural Belém, um polo gastronômico, áreas de convivência e o Parque de Bioeconomia. Um hotel da rede portuguesa Vila Galé também foi instalado em parte do espaço revitalizado.
“Durante muito tempo, o desenvolvimento de Belém foi de costas para o rio”, disse Camille Bemerguy, secretária adjunta de Bioeconomia do Pará, à EXAME.
“Esse projeto resgata a relação da cidade com a água e com a própria origem econômica da Amazônia.”
Os armazéns 5 e 6 do complexo concentram hoje o coração do projeto: o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, criado pelo governo do Pará em parceria com a Fundação Certi, que atua no desenvolvimento de projetos de inovação, empreendedorismo e transformação tecnológica em parceria com governos, universidades e empresas.
A ideia do Porto Futuro II começou a ser desenhada ainda em 2022, quando o estado lançou seu plano estadual de bioeconomia. Segundo Camille, o objetivo era criar mais do que um ecossistema capaz de transformar pesquisas e cadeias da floresta em negócios escaláveis.
“O parque não nasceu para ser apenas um espaço de incubação de startups”, afirmou. “Ele foi pensado para integrar academia, negócios comunitários, pesquisadores e empresas em torno da bioeconomia da floresta.”
O modelo tenta conectar diferentes atores que historicamente trabalhavam separados. De um lado, pesquisadores e universidades. De outro, cooperativas, empreendedores amazônicos e startups ainda em estágio inicial.
“Os professores produzem inovação, mas muitas vezes isso fica contido dentro da universidade”, disse Camille. “O desafio aqui é criar sinapses entre esses atores.”
O espaço funciona dividido em duas frentes principais. A primeira é um centro de negócios com coworking, salas compartilhadas, incubação e programas de aceleração. A segunda é um laboratório-fábrica equipado para testes industriais voltados principalmente aos setores de alimentos, bebidas, cosméticos e bioinsumos.
Segundo Carla Hoffmann, gestora executiva do Parque de Bioeconomia pela Fundação Certi, alguns dos equipamentos instalados no laboratório são únicos no Brasil.
“Isso dá condições para acelerar a transformação da bioeconomia extrativista em bioeconomia industrial”, afirmou.
Complexo Porto Futuro II, no centro de Belém : projeto recuperou galpões históricos abandonados da antiga área portuária (Porto Futuro II/Divulgação)
Nos primeiros seis meses de operação, o parque recebeu mais de 13 mil visitantes e realizou cerca de 16 eventos ligados à inovação e sustentabilidade.
Segundo Carla, mais de 100 empreendedores — entre startups e negócios comunitários — já passaram pelos programas do espaço. Outras 40 startups participaram de testes industriais usando os equipamentos do laboratório-fábrica, sendo que 15 delas utilizaram equipamentos para a produção de lotes pilotos de produtos da bioeconomia em caráter de testes industriais.
“Muitos empreendedores amazônicos nunca tiveram acesso a esse tipo de infraestrutura”, disse. “Aqui eles conseguem validar produtos, testar formulações e desenvolver padrões industriais.”
A aposta do governo paraense é que esse tipo de estrutura permita que produtos amazônicos avancem além do extrativismo e consigam ganhar escala nacional e internacional.
“O desafio é fazer com que o valor agregado fique na Amazônia”, afirmou Carla.
O Porto Futuro II também passou a integrar um corredor turístico e cultural que vem sendo redesenhado no centro de Belém antes da COP30.
Ao lado do complexo está a Estação das Docas, projeto inaugurado ainda nos anos 2000 e que já havia transformado antigos galpões portuários em restaurantes, cervejarias e espaços culturais à beira do rio.
Parque de Bioeconomia da Amazônia, no Porto Futuro II : hub conecta startups, pesquisadores e negócios da floresta em Belém (Porto Futuro II/Divulgação)
A poucos metros dali, o novo complexo amplia essa lógica ao incorporar museus, inovação, gastronomia e economia criativa em uma mesma área.
O Museu das Amazônias, por exemplo, teve abertura temporária durante a COP30 com uma exposição de Sebastião Salgado e deve ganhar exposição permanente neste ano. O espaço é administrado pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), responsável também pelo Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
Já a Caixa Cultural Belém se tornou a primeira unidade da Caixa Cultural na região Norte, com teatro, galerias e espaços educativos.
“Esse espaço é um movimento de resgate”, afirmou Camille. “A gente traz de volta a memória econômica da cidade, mas conectada com uma nova economia baseada na floresta.”