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Por que crescer no franchising é saber cortar

Neste artigo, a consultora Lyana Bittencourt compartilha as lições da Convenção Anual da International Franchise Association 2026

Lyana Bittencourt
Lyana Bittencourt

CEO do Grupo BITTENCOURT

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 08h08.

Em um ciclo de pressão por expansão e margens comprimidas, a Convenção Anual da International Franchise Association (IFA) 2026 recolocou no centro do debate um tema pouco glamouroso, mas decisivo: eliminar excessos para proteger a economia da unidade.

A principal provocação que emergiu na palestra de Kate Cole, CEO global da AG1 e ex-presidente e COO da Focus Brands, grupo responsável por marcas como Cinnabon e Auntie Anne’s, não foi sobre acelerar crescimento ou diversificar portfólio. Foi sobre retirar.

Em vez de discutir novas frentes, a mensagem central foi pragmática: crescer sem disciplina de simplificação compromete a economia da unidade e, no longo prazo, fragiliza a própria rede.

Com mais de duas décadas à frente de operações bilionárias no franchising, Kat apresentou um princípio que costuma ser negligenciado em ciclos de expansão: reduzir pode ser a decisão mais sofisticada da liderança.

O desperdício começa no detalhe

O caso apresentado no evento partiu de uma pergunta simples feita a operadores da rede: o que os clientes estão jogando fora?

A resposta revelava desperdício recorrente. Um importante produto da rede, o cinnamon roll gigante, um pão doce de canela com cerca de 30 cm, constantemente não era consumido por inteiro e a sobra, descartada. Ao mesmo tempo, havia demanda por um tamanho menor, mas que era negada pela rede.

A reação à queda de tráfego pelo produto gerou aumento de preços para proteger margem. O resultado foi retração agravada.

A decisão estratégica foi redimensionar o produto, mantendo essência e processo produtivo, mas oferecendo versões menores. O receio inicial era o “trade down”, que caracteriza a escolha do consumidor por uma versão mais barata, menor ou mais simples de um produto ou serviço que antes consumia em uma categoria superior, e a possível redução do ticket médio. A solução foi estruturar testes com proteção de risco aos franqueados pioneiros.

Segundo dados apresentados, as porções menores responderam por mais da metade do crescimento e por grande parte da recuperação da lucratividade. Não houve ampliação de portfólio. Houve ajuste de modelo.

O paralelo inevitável: o lixo invisível das empresas

O exemplo do produto descartado nas lojas é uma metáfora direta ao que acontece dentro das companhias.

Empresas acumulam:

  • Linhas de produtos pouco rentáveis
  • Processos que perderam sentido
  • Campanhas que não geram impacto proporcional
  • Tecnologias subutilizadas
  • Camadas de decisão que atrasam execução

O desperdício raramente está apenas no estoque físico. Ele se manifesta no tempo disperso, na energia da equipe fragmentada e na margem corroída por complexidade.

Redes maduras, em especial, sofrem desse fenômeno. A cada ciclo de expansão, adicionam-se novos itens, novos projetos, novas exigências. Poucas vezes alguém pergunta: o que pode sair?

A complexidade não gerenciada atua como redutor silencioso de rentabilidade. E seu impacto é cumulativo.

Economia global: expansão com menos gordura

O contexto global torna esse debate ainda mais relevante. Em ciclos de volatilidade econômica, com pressão sobre custos e consumo mais criterioso, margens deixam de ser protegidas por volume. O crescimento passa a exigir eficiência estrutural.

Modelos inchados sofrem mais. No franchising, isso se intensifica porque o sistema é uma equação distribuída, isto é, se a unidade perde rentabilidade, a rede perde tração. Sustentabilidade não nasce do faturamento consolidado. Nasce da saúde financeira do ponto de venda.

Em ambientes macroeconômicos instáveis, simplificação deixa de ser opção estética e se torna ferramenta estratégica.

O recado para o franchising brasileiro

Para o setor de franquias no Brasil, o aprendizado é direto:

  1. Proteger a economia da unidade deve anteceder a expansão: crescimento territorial não compensa modelo operacional fragilizado;
  2. Nem toda tendência precisa virar projeto: inovação sustentável exige critério claro de impacto na margem e na execução;
  3. Simplificar é decisão de liderança, não de operação: cortar exige coragem estratégica, especialmente quando o corte envolve algo tradicional ou simbólico;
  4. Revisão de portfólio deve ser recorrente: o que foi relevante no ciclo anterior pode hoje representar dispersão.

Reduzir não é recuar

Existe um equívoco comum no ambiente empresarial: associar corte à fraqueza. Na prática, a ausência de corte costuma indicar falta de foco. Eliminar excessos antes de acelerar cria base para crescimento estável.

Por isso, escalar a partir de evidência concreta reduz improviso. Proteger margem sustenta expansão.

Em vez de perguntar “o que mais podemos lançar?”, talvez a pergunta estratégica para 2026 seja outra: O que estamos mantendo que já não fortalece a economia da unidade?

No franchising, especialmente em redes maduras, a resposta a essa pergunta pode definir quem cresce com consistência e quem apenas amplia estrutura.

Crescer também é saber cortar.

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