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‘Nos EUA a indústria é defendida de fato’, diz CEO da Gerdau

O presidente Gustavo Werneck afirma que a concorrência desleal do aço importado pressiona os resultados no Brasil e detalha o investimento bilionário da Gerdau para este ano

Gustavo Werneck, CEO da Gerdau: “Não temos um problema de demanda. Estamos em todos os segmentos da economia. O problema é que essa demanda vem sendo suprida por uma competição desleal” (Leandro Fonseca/Exame)

Gustavo Werneck, CEO da Gerdau: “Não temos um problema de demanda. Estamos em todos os segmentos da economia. O problema é que essa demanda vem sendo suprida por uma competição desleal” (Leandro Fonseca/Exame)

Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 08h00.

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00Estados Unidos, Brasil, sustentabilidade e inteligência artificial. Quatro palavras que ajudam a explicar o momento da Gerdau, que completa 125 anos neste mês em meio a decisões estratégicas que envolvem investimentos bilionários, mineração sustentável e o uso crescente de tecnologia nas usinas. Ao mesmo tempo em que avança nessas frentes, a companhia enfrenta no Brasil uma “prova de fogo”: a concorrência desleal do aço importado.

“O aço muitas vezes chega ao Brasil mais barato do que a matéria-prima que exportamos. Está faltando o país defender um pouco mais a indústria”, afirma Werneck, em entrevista ao podcast De Frente com o CEO, da EXAME.

Hoje presente em sete países — Brasil, Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Peru e Uruguai —, a Gerdau tem na América do Norte sua principal fonte de resultados. Mais de 60% da geração bruta de caixa vem da operação americana.

“Essa decisão de ir para a América do Norte tem mais de 40 anos. É nos Estados Unidos que estamos tendo os resultados mais robustos da nossa história; lá, a indústria é defendida de fato”, diz o executivo.

Segundo o CEO, o impacto de medidas protecionistas, como as tarifas adotadas pelo presidente Donald Trump, foi praticamente nulo para a companhia, já que a produção de aço ocorre localmente. “A gente compete de igual para igual com qualquer produtor de aço no mundo. O que não dá é competir com aço que vem subsidiado com dinheiro público.”

Aço chinês e o desafio no Brasil

Apesar da resiliência da demanda interna, a entrada de aço importado — especialmente da China — tem pressionado os resultados no país. Hoje, mais de 30% do consumo brasileiro é atendido por produtos estrangeiros.

“Não temos um problema de demanda. Estamos em todos os segmentos da economia. O problema é que essa demanda vem sendo suprida por uma competição desleal”, diz Werneck.

O contrassenso, segundo o CEO, é que a empresa fundada no Brasil em 1901 tenha hoje sua principal geração de caixa fora do país. “Essa penetração desleal corrói nossos resultados e compromete investimentos futuros.”

Ainda assim, Werneck diz manter uma visão otimista. “Não gosto de falar em proteção, porque parece que somos uma indústria deficiente. O que defendemos é isonomia. Esperamos que mais cedo ou mais tarde, o governo federal vai ampliar os mecanismos de defesa.”

R$ 4,7 bilhões em investimentos e foco em mineração sustentável

Para 2026, a Gerdau prevê um plano de investimentos de R$ 4,7 bilhões — valor inferior aos R$ 6 bilhões de 2025, mas com foco claro em projetos estratégicos.

"As prioridades são a expansão da unidade de Midlothian, no Texas, um novo centro de reciclagem em Pindamonhangaba (SP) e a implantação de uma nova plataforma de mineração sustentável em Miguel Burnier, distrito de Ouro Preto (MG)", afirma.

O maior desembolso, de R$ 3,2 bilhões, será destinado ao projeto de mineração em Minas Gerais. Prevista para entrar em operação no primeiro semestre de 2026, a plataforma terá capacidade de produzir 5,5 milhões de toneladas de minério por ano, sem uso de barragens. O minério será transportado por mineroduto até a usina de Ouro Branco, com reservas estimadas em 476 milhões de toneladas — o suficiente para garantir cerca de 40 anos de produção.

Além de reduzir emissões, o projeto deve gerar cerca de 5 mil empregos na região. “É uma operação feita com os mais altos requisitos ambientais e legais. Não à toa, somos uma das poucas empresas do mundo com certificação IRMA”, afirma o CEO.

ESG na prática: reciclagem, sucata e impacto social

Na agenda ESG, Werneck reforça que a Gerdau sempre buscou traduzir compromissos em ações concretas. Um dos principais exemplos é o uso da sucata metálica, responsável por mais de 70% da capacidade produtiva da companhia.

“Aquilo que muitos veem como descarte — uma bicicleta velha, um fogão antigo — para nós é matéria-prima.”

A empresa é hoje a maior recicladora de sucata metálica da América Latina, com cerca de 10 milhões de toneladas por ano. Cada tonelada reciclada evita a emissão de 1,5 tonelada de CO₂. “Além do impacto ambiental, existe um impacto social enorme. O Brasil tem cerca de 1 milhão de pessoas que tiram seu sustento da reciclagem, e são histórias que queremos contar.”

IA, competitividade e sobrevivência

A tecnologia, segundo Werneck, deixou de ser opcional no setor de aço. “Para nós, é questão de sobrevivência.” A Gerdau já utiliza algoritmos e gêmeos digitais nas usinas, o que trouxe ganhos relevantes em produtividade e redução de custos de manutenção.

O alerta do CEO é ter foco no uso da IA. “Tecnologia só faz sentido se estiver conectada ao negócio. Caso contrário, você investe e não captura resultado.”

Veja a entrevista completa de Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, no podcast "De frente com CEO"

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