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Mocotó Inbasa: o que aconteceu com o 'whey protein' dos anos 80

Vendida como proteína numa era sem suplementação esportiva, a marca cresceu com publicidade massiva

Mocotó Inbasa: produto era de Roberto Marinho, fundador da TV Globo (Reprodução)

Mocotó Inbasa: produto era de Roberto Marinho, fundador da TV Globo (Reprodução)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 08h29.

Antes de whey protein, creatina e pré-treino, academia no Brasil tinha outro combustível.

E ele voltou a circular nesta semana no Instagram, em vídeos granulosos e cheios de nostalgia: o comercial da geléia de mocotó Inbasa, a geleia vendida como proteína para quem queria ganhar músculo nos anos 80.

A propaganda reapareceu em reels e posts nostálgicos, repetindo a pergunta que marcou uma geração: “E você, come mocotó Inbasa? O que que você acha?”.

A resposta vinha com sorriso no rosto e câmera focada no corpo definido. O físico era o argumento.

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Chamado hoje de “whey protein dos anos 80”, o mocotó ocupou esse espaço simbólico antes da chegada do soro do leite em pó.

O futuro da marca, porém, não acompanhou o sucesso cultural.

Um suplemento antes do suplemento existir

A geleia de mocotó era feita a partir do colágeno extraído das patas do boi, misturado com açúcar e aromatizantes.

Do ponto de vista nutricional, entregava aminoácidos como glicina e prolina, importantes para tecidos conjuntivos, mas não tinha o perfil completo de aminoácidos associado à hipertrofia muscular.

Isso pouco importava nos anos 80.

O mercado de suplementação esportiva praticamente não existia no Brasil. O whey protein, proteína extraída do soro do leite, só começaria a se popularizar no início dos anos 90, primeiro como produto importado e depois em versões nacionais.

Até lá, o mocotó ocupou esse vazio. Virou o “suplemento raiz” de quem frequentava academia, muito mais por construção simbólica do que por ciência nutricional.

A máquina de marketing por trás do pote

O sucesso do mocotó Inbasa não veio só do produto, mas da estrutura que o sustentava.

A empresa, fundada no fim da década de 60, pertencia diretamente a Roberto Marinho, fundador e dono da Globo. 

Era uma configuração incomum para o setor de alimentos.

Na prática, isso significava acesso privilegiado à principal vitrine do país.

A Inbasa usava tempo ocioso da programação da TV Globo para veicular seus comerciais, com custo muito menor do que o enfrentado por anunciantes externos. A exposição em horário nobre era constante.

Os filmes publicitários eram produzidos pela divisão responsável pelos efeitos especiais da emissora e por aberturas de programas como o Fantástico.

Para os padrões da época, era tecnologia avançada.

A geleia aparecia como um cubo brilhante, quase energético, reforçando a ideia de força e vitalidade.

O jingle e o copo que vendia junto

A comunicação não se limitava à academia. O jingle dizia: “Que surpresa é Mocotó Inbasa / A geleia que eu gosto mais de comer…”.

A mensagem buscava também o público infantil, tentando posicionar o produto como alimento nutritivo do dia a dia.

A embalagem ajudou a escalar o negócio. O mocotó era vendido em copos de vidro, semelhantes ao copo americano ou ao copo de requeijão, com tampa metálica de pressão. O slogan deixava isso claro: “A criança fica com a geleia, a mamãe fica com o copo”.

Nas classes C e D, o copo era reaproveitado como utensílio doméstico. Não era só comida. Era consumo com reaproveitamento, um diferencial importante para a época.

A venda e o começo do fim

Nos anos 90, o Grupo Globo iniciou o desmonte de operações fora do núcleo de mídia.

Roberto Marinho precisava capitalizar o grupo para investir na construção do Projac, inaugurado em 1995, e na expansão para TV por assinatura e telecomunicações.

Negócios periféricos entraram na lista de venda.

Em março de 1997, a Inbasa foi adquirida pela Arisco, então comandada por João Alves de Queiroz Filho. O valor da transação nunca foi divulgado.

A produção foi transferida do Rio de Janeiro para Goiás. A fábrica de São João de Meriti foi desativada. A marca seguiu existindo, mas já sem a mesma força.

A canibalização corporativa

A morte da Inbasa não foi imediata. Veio em camadas.

Em 2000, a Arisco foi vendida para a americana Bestfoods por cerca de 490 milhões de dólares. Pouco depois, a Unilever comprou a Bestfoods globalmente.

A nova controladora fez uma revisão de portfólio. A prioridade passou a ser marcas globais fortes, como Hellmann’s e Knorr, e marcas locais líderes, como a própria Arisco em temperos.

A geleia de mocotó não entrou nessa conta.

Era um produto de nicho, margem baixa e processo industrial complexo, baseado no cozimento de colágeno animal. Manter uma linha dedicada não fazia sentido econômico.

No início dos anos 2000, a marca Inbasa foi descontinuada. Sem anúncio e sem substituto.

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