Amazônia:No Brasil, uma das principais parceiras da Microsoft nesse plano é a startup re.green, que atua na restauração ecológica de áreas degradadas na Amazônia e na Mata Atlântica (Ricardo Lima/Getty Images)
Editor de Negócios e Carreira
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 13h30.
A Microsoft tem firmado contratos com empresas de diferentes partes do mundo para remover dióxido de carbono da atmosfera.
A iniciativa faz parte da meta da companhia de se tornar carbono negativa até 2030 e remover todas as suas emissões históricas até 2050. No Brasil, uma das principais parceiras da empresa nesse plano é a startup re.green, que atua na restauração ecológica de áreas degradadas na Amazônia e na Mata Atlântica.A re.green já assinou dois contratos com a Microsoft, com prazos de 15 e 25 anos. Juntas, essas parcerias preveem a remoção de quase 6,5 milhões de toneladas de carbono e a restauração de 33 mil hectares de florestas nativas. Segundo Thiago Picolo, CEO da re.green, a primeira entrega de créditos está prevista para o primeiro semestre de 2026.
“A parceria com a Microsoft é resultado de mais de um ano de diligência técnica, financeira e jurídica. Eles viraram a empresa do avesso, e isso foi positivo. Isso validou nosso modelo e atraiu outros clientes”, afirma Picolo.
A estratégia da Microsoft prioriza, em primeiro lugar, a redução das emissões de carbono nas suas operações.
A remoção entra como uma solução para lidar com emissões residuais — aquelas que a empresa não consegue evitar com mudanças diretas. Para isso, a empresa investe em soluções que variam de reflorestamento a tecnologias de captura direta de carbono e armazenamento geológico.
“Com qualquer forma de remoção de carbono, alguém precisa comprar os créditos para que o modelo econômico funcione. Nosso papel é ajudar a construir esse mercado”, diz Phillip Goodman, diretor do portfólio de remoção de carbono da Microsoft.
“A Microsoft só compra uma fração dos créditos de cada projeto. Esperamos que outros compradores venham depois, já sabendo que aquele projeto passou por uma análise rigorosa.”
Além da re.green, a Microsoft mantém parcerias com outras empresas no Brasil, como a Mombak, também focada em reflorestamento, e a Terrad, que aplica uma técnica chamada de intemperismo de rochas — processo que acelera reações químicas naturais para capturar carbono no solo e levá-lo para os oceanos.
Esses projetos fazem parte de um portfólio diversificado, que inclui ainda contratos com iniciativas em países como Estados Unidos, Suécia, Bolívia, Dinamarca, Índia e Canadá.
A re.green atua com compra ou arrendamento de terras de baixa produtividade, especialmente antigas áreas de pasto, para transformá-las em florestas tropicais.
Segundo Picolo, cerca de 75% das áreas sob gestão da empresa são próprias, e os 25% restantes operam por meio de contratos de arrendamento de longo prazo, com duração de até 50 anos.
A restauração é feita com apoio de tecnologia. Drones equipados com sensores LiDAR ajudam a mapear o terreno e monitorar o crescimento da biomassa.
As imagens são comparadas ano a ano para calcular a quantidade de carbono removida. Algumas áreas exigem plantio ativo, com até 1.600 mudas por hectare e dezenas de espécies nativas.
Outras conseguem se regenerar naturalmente, desde que fatores como gado, gramíneas exóticas e formigas sejam controlados.
“A gente usa ciência e dados para definir onde plantar, onde regenerar, quantas mudas usar, e quais espécies são mais adequadas. O crédito de carbono que vendemos é uma expressão direta do carbono estocado na floresta restaurada”, explica Picolo.
Segundo ele, o objetivo da empresa é recuperar 1 milhão de hectares de floresta ao longo dos próximos 15 anos. Para isso, a re.green defende que restauração ecológica deve ser uma atividade lucrativa.
“Se não for economicamente viável, não escala. O setor só vai atrair capital em volume suficiente se houver retorno financeiro”, diz.
A Microsoft mantém critérios rigorosos para fechar acordos de remoção de carbono.
Esses critérios foram desenvolvidos em parceria com a organização Carbon Direct e incluem fatores como durabilidade, adicionalidade, mensuração e consulta a comunidades locais.
“Durabilidade é central. Nós avaliamos quanto tempo o carbono vai permanecer fora da atmosfera. Algumas soluções removem carbono por décadas, outras por séculos ou milênios. O portfólio precisa equilibrar isso”, afirma Goodman.
O executivo destaca que o Brasil é um ponto estratégico dentro do plano global.
“É uma região com alto potencial de escala e com oportunidades para soluções baseadas na natureza, como o reflorestamento, e soluções tecnológicas, como o intemperismo de rochas. A Microsoft quer estar presente em ambos os tipos”, diz.
Além da re.green, a Microsoft mantém contratos com empresas como a sueca Stockholm Exergi, que está adaptando uma planta de bioenergia para capturar carbono de resíduos florestais e armazená-lo sob o fundo do mar no Mar do Norte.
Também apoia a americana Lithos, que espalha rochas moídas em lavouras para capturar carbono por meio de reações químicas naturais.
E firmou acordo com a Agoro Carbon Alliance, que trabalha com agricultores para aplicar técnicas de agricultura regenerativa nos Estados Unidos.
O número é duas vezes maior que o volume contratado no ano anterior, e nove vezes maior do que em 2023. A empresa não divulga o valor financeiro investido em cada contrato.
O foco, segundo Goodman, está na métrica de toneladas de carbono removidas — e na capacidade de ajudar a desenvolver um mercado mais confiável e previsível.
“A gente está tentando criar um mercado funcional. Ao anunciar publicamente os projetos que passaram pelos nossos critérios, queremos facilitar a vida de quem vai comprar depois”, afirma.
Para a re.green, a parceria com a Microsoft é um passo importante para ganhar escala e atrair outros compradores com metas de neutralidade.
“A gente vê esse contrato como uma âncora. Ele nos dá previsibilidade e nos ajuda a planejar a expansão de forma estruturada”, diz Picolo. “Nosso sonho é que esse tipo de negócio vire um setor econômico de verdade.”
Desde 2020, a Microsoft estabeleceu uma meta que vai além da neutralidade de carbono.
A empresa pretende, até 2030, remover da atmosfera mais carbono do que emite anualmente e, até 2050, compensar todas as emissões geradas desde a sua fundação, em 1975.Isso inclui o carbono emitido ao longo de décadas de operação, antes mesmo de o tema entrar na agenda ambiental global.
Segundo a empresa, a estratégia combina redução direta de emissões com contratos de longo prazo para remoção de carbono, voltados especialmente para emissões que não podem ser eliminadas apenas com mudanças operacionais.