Com pagamentos, o WhatsApp vai virar o WeChat, o super app chinês?

O WhatsApp anunciou pagamentos direto pelo app no Brasil. Na China, as empresas de tecnologia já dominam não só as redes sociais, mas as finanças

O WhatsApp sacudiu o mercado brasileiro nesta segunda-feira, 15, ao anunciar uma função de pagamentos pelo aplicativo. A opção de pagar amigos e empresas pelo WhatsApp estará disponível a partir das próximas semanas.

A nova funcionalidade marca a estreia do maior aplicativo de mensagens do Brasil (e de boa parte do mundo) no segmento financeiro. E pode ser um passo a mais do Facebook em um plano de aumentar a quantidade de serviços disponíveis em seus aplicativos — indo além das redes sociais.

O maior exemplo vem da China: o WeChat, o “WhatsApp chinês”, tem mais de 1 bilhão de usuários e está em mais de 90% dos celulares do país. Por ele, é possível fazer de tudo, de trocar mensagens a jogar ou comprar online. Mas seu braço financeiro, por meio do WeChat Pay, é parada obrigatória para comerciantes em toda a China, devido à alta disseminação entre os clientes.

O Brasil é o primeiro país onde o serviço do WhatsApp foi lançado de forma oficial. O país é o segundo maior mercado do WhatsApp, com 120 milhões de usuários ativos mensais, atrás da Índia. No mundo, são mais de 1 bilhão de pessoas.

“Eu não sei se o WhatsApp quer eventualmente ter tudo que o WeChat tem, mas certamente a parte financeira do WeChat é algo no qual o Facebook se espelha”, diz Bruno Chan, presidente e fundador da fintech sino-brasileira CrediGO, que oferece gestão de contas bancárias para pessoas físicas e opções de divulgação de serviços para instituições financeiras. A CrediGO tem parte da equipe na China e é acelerada por lá.

Enquanto no Brasil o mercado de pagamentos ficou mais pulverizado nos últimos anos, com competição entre bancos, varejistas e fintechs, na China há praticamente um duopólio. O WeChat, que é controlado pela empresa de tecnologia Tencent, divide o mercado de pagamentos com o Alipay, braço financeiro da varejista online Alibaba.

Por ora, o serviço de pagamento do WhatsApp será mais simples que o do WeChat, sem uma carteira digital. O dinheiro que um usuário enviará aos contatos pessoa física virá de um cartão de débito; depois, cai direto na conta do destinatário. A transferência é instantânea para pessoas físicas. Nos pagamentos para empresas, o pagamento pode ser feito também por cartão de crédito (o prazo nesse caso será de um dia no débito e dois no crédito).

O WhatsApp não armazenará, portanto, o dinheiro dos clientes. Os pagamentos serão processados pela Cielo, única adquirente parceira anunciada por ora.

Para duas fontes do mercado ouvidas pela EXAME, é uma possibilidade grande que o Facebook, no futuro e após os testes, integre uma carteira digital própria ao app.

Uma carteira digital armazena o dinheiro e, só depois, o usuário decide se quer transferi-lo a uma outra conta bancária. É o formato usado pelo WeChat e por fintechs como PicPay ou Mercado Pago no Brasil, e, nos Estados Unidos, por nomes como a Venmo, do PayPal (que, com mais de 40 milhões de usuários e popularidade entre os jovens, virou até verbo em inglês e resiste às investidas do Facebook no país).

Pagamento pelo celular na China: país pulou a fase dos cartões, puxado por suas duas gigantes de tecnologia, Tencent, dona do WeChat, e Alibaba

Pagamento pelo celular na China: país pulou a fase dos cartões, puxado por suas duas gigantes de tecnologia, Tencent, dona do WeChat, e Alibaba (VCG/VCG via Getty Images/Getty Images)

A busca pelo super app

O WeChat também vem de um cenário um pouco diferente das redes sociais ocidentais por ter o que os especialistas chamam de um ecossistema completo, com diversos serviços oferecidos dentro do app. A Tencent ganha sobretudo com publicidade em jogos na plataforma.

Já o Facebook é dono das maiores redes sociais do mundo ocidental: além da rede social homônima e do WhatsApp, controla também o Instagram. Juntas, as redes somam mais de 3 bilhões de usuários ativos. A principal receita é também com publicidade — com exceção do WhatsApp, que não tem anúncios.

Nos últimos anos, o Facebook dá passos para ampliar seu ecossistema. Lançou opções de compras dentro da rede social (principalmente de itens usados em grupos) e o Facebook Pay, sua opção de pagamentos — a tecnologia por trás das transferências no WhatsApp.

Nos Estados Unidos, já há desde 2017 a opção de transferir dinheiro a amigos pelo Facebook Messenger, que é mais usado entre os americanos do que o WhatsApp.

Mark Zuckerberg, fundador e presidente do Facebook, ainda não tem um ecossistema comparável ao do WeChat, e não se sabe até que ponto deseja ter um. Mas ter usuários ativos em larga escala e uma série de serviços reunidos no mesmo ambiente é uma vantagem para chegar lá.

O mesmo vale para outras empresas de tecnologia americanas, como Apple, Google e Amazon. É graças ao conceito de ecossistema que a Apple consegue, por exemplo, vender softwares e outros produtos plugados a seu carro-chefe, os celulares iPhone.

Os que chegam mais perto de um ecossistema como esse no Brasil vêm do varejo, diz um relatório do banco UBS divulgado ontem após o anúncio do WhatsApp. O Mercado Pago e a Ame Digital, segundo o UBS, têm os formatos mais capazes de resistir às grandes redes sociais e empresas de tecnologia.

O Mercado pago se pluga aos milhões de usuários do Mercado Livre, que, só no Brasil, responde por um terço das vendas online. As controladoras da Ame Digital, B2W e Lojas Americanas, têm mais de 20% do e-commerce brasileiro.

Ainda assim, a frequência de uso de uma varejista é de, no máximo, algumas vezes por ano ou, para os clientes mais fiéis, algumas compras por mês, e a tendência é que nem todos os contatos de um usuário usem o mesmo app.

A Alibaba é uma exceção porque domina o comércio eletrônico chinês há duas décadas. Enquanto, no Brasil, o varejo online é mais pulverizado. A China também também tem mais de 40% das compras online, enquanto o Brasil tem na casa dos 6% (ainda que essa taxa deva subir para 10% diante da pandemia neste ano). Ponto para o WhatsApp e as empresas de tecnologia.

“Eles [o WhatsApp] têm uma vantagem competitiva insuperável, que é uma hora e meia por dia de contato direto com o usuário. Ninguém tem isso”, afirmou em entrevista anterior à EXAME o ex-executivo da Cielo e da PagSeguro, Davi Holanda, hoje na plataforma Bankly, que oferece serviços financeiros. 

Pagamento no Brasil: QR Codes e carteiras digitais vinham crescendo em 2019, mas ainda perdem para cartões e dinheiro

Pagamento no Brasil: QR Codes e carteiras digitais vinham crescendo em 2019, mas ainda perdem para cartões e dinheiro (Germano Lüders/Exame)

Taxas altas no WhatsApp

Na outra ponta, uma das barreiras do serviço do WhatsApp até agora é uma taxa alta, de 3,99% por transação para empresas que quiserem aceitar pagamentos pelo app. Para os clientes pessoa física, o serviço de pagamentos será gratuito.

É uma das taxas mais altas do mercado para a função débito. Com a disseminação de novas opções de maquininhas de cartão e carteiras digitais, os custos às empresas usuárias vinham ficando cada vez mais baratos. Hoje, já é possível encontrar taxas menores do que 2% em empresas como PagSeguro, Mercado Pago, Rede, Safra Pay e C6 Pay. A própria Cielo, parceira nos pagamentos do WhatsApp, tem taxa menor, de 2,39% no débito.

Na China, a taxa no WeChat e do AliPay fica abaixo de 0,7% para as empresas.

A soma de preços baixos e alta adesão dos clientes fez WeChat Pay e Alipay dominarem mesmo o mundo offline. A China pulou a fase das maquininhas e dos cartões e foi direto para o QR Code nos pontos de venda, uma tecnologia ainda pouco disseminada entre o público no Brasil.

O WhatsApp, por ora, também não ofereceu no novo serviço nenhuma opção com QR Code. Isso não impede a ferramenta de ser usada mesmo pelos comerciantes de lojas físicas, embora as taxas mais altas, novamente, possam ser um empecilho.

É com base na experiência chinesa que carteiras digitais vinham tentando fincar a bandeira no varejo brasileiro. Os QR Codes físicos, posicionados em balcões de bares e restaurantes, começaram a ganhar as grandes cidades no último ano. (Já durante a pandemia, os QR Codes foram usados por mais de 2 milhões de usuários para doar em lives de artistas).

Para os consumidores, outra trava do setor até agora é uma certa “bagunça de códigos”: cada QR Code só funciona no app de sua respectiva marca, o que leva a uma dezena de apps que o cliente precisaria ter. Foi um desafio pelo qual a China não passou com o duopólio Alibaba e Tencent.

Com tantas carteiras digitais surgindo, pode acontecer uma consolidação nos próximos anos, segundo disse anteriormente à EXAME Guilherme Horn, conselheiro da AB Fintechs e executivo do banco BV. “Afinal, o usuário não terá cinco aplicativos financeiros”, disse.

O setor de pagamentos brasileiro também se prepara neste ano para outra revolução: o PIX, serviço de pagamentos instantâneos regulado pelo Banco Central e que entra em vigor em novembro. O PIX é aguardado sobretudo pelas fintechs, que veem na medida do BC um incentivo à concorrência com os bancões e à redução das taxas.

Com a chegada do WhatsApp, o PIX, outrora criticado pelos grandes bancos, também pode ser incentivado até pelas instituições financeiras, já que, nele, os bancos e fintechs podem se mostrar uma opção competitiva ao WhatsApp.

Seja como for, o WhatsApp ainda terá travas antes de dominar o setor financeiro do Brasil como o WeChat dominou a China. Mas pode estar só no começo.

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