Negócios

Silvio Santos conseguirá bater a Natura com a Jequiti?

Carisma do empresário e apresentador não basta para que sua marca de cosméticos cresça

jequiti (Divulgação)

jequiti (Divulgação)

DR

Da Redação

Publicado em 7 de fevereiro de 2011 às 15h59.

São Paulo - Desde a semana passada, o empresário e apresentador Silvio Santos enfrenta um desafio: transformar uma de suas empresas na nova estrela do grupo. O posto era ocupado pelo banco PanAmericano, vendido ao BTG Pactual após a descoberta de um rombo de 4 bilhões de reais. A aposta mais óbvia é que seu lugar seja ocupado pela marca de cosméticos Jequiti. Mas, para enfrentar pesos-pesados do setor de beleza, será necessário muito mais que os sorrisos fartos de Silvio, promovendo os produtos da Jequiti nas tardes de domingo.

O maior trunfo da Jequiti é atuar em um setor que cresceu cerca de 13% por ano, nos últimos cinco anos. Em 2009, as vendas líquidas desse mercado somaram 29,9 bilhões de reais, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec). Na base da expansão, está o conhecido fortalecimento da classe C.

“A Jequiti tem condições de ser o carro-chefe do grupo”, diz Paulo Castanho Manzini, coordenador do curso de pós-graduação em gestão estratégica de negócios da Veris Faculdades, do Ibmec. “Mas, para isso, é necessário adotar uma profissionalização mais sólida”, afirma. Procurada por EXAME.com, a Jequiti preferiu não se pronunciar.

Trabalho de base

Essa profissionalização não quer dizer apenas a contratação de bons executivos, capazes de conduzir o negócio de modo correto e lucrativo. O desafio começa na própria base da empresa. A Jequiti aposta em um modelo de vendas consagrado pela Avon e pela Natura - o porta-a-porta. É, ainda, o mesmo mercado que O Boticário pretende disputar com a nova marca que está lançando, a Eudora. E isso significa encarar três problemas.


O primeiro é ampliar o número de consultoras. “O desafio para ser bem-sucedido em vendas diretas é escala. A escala é o que faz com que uma empresa prospere”, afirma Rodolfo Guttilla, vice-presidente da Abevd (Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas).

É verdade que a Jequiti vem crescendo nesse item. Em 2009 (últimos dados disponíveis), a empresa contabilizou mais de 118.000 consultoras - um salto de 236% sobre 2008. Apesar disso, a marca ainda está bem atrás da Natura, por exemplo, que encerrou o ano retrasado com um pouco mais de um milhão de consultoras, sendo 879.700 brasileiras - 20,5% mais que em 2008.

Volume de vendas

Também não basta que Silvio convença mais mulheres a vender seus produtos. O segundo desafio é fazer com que elas tenham um desempenho tão bom ou melhor que as revendedoras concorrentes. E, nesse ponto, a Jequiti também tem muito que avançar. No ano retrasado, a empresa faturou 218,4 milhões de reais, o que corresponde a uma venda média de 1.850 reais por consultora por ano.

Para comparar, basta lembrar que cada consultora da Natura, no mesmo período, vendeu cerca de 6.580 reais - o que rendeu uma receita líquida total de 4,2 bilhões de reais.

Analistas de mercado que acompanham a Natura costumam dizer, em seus relatórios, que uma consultora recém-chegada demora até seis meses para atingir o mesmo nível de vendas das veteranas. Por isso, se não quiser ver seus catálogos escanteados em reuniões de vizinhas no final de semana, a Jequiti terá de investir pesado em treinamento, para ampliar o potencial de vendas de cada consultora.

De casa

Para solucionar esse dois problemas - aumentar o número de consultoras e fazer com que vendam mais -, a Jequiti precisa dominar rapidamente a arte da venda direta. E esse é o terceiro desafio: adquirir o mesmo nível de competência de duas concorrentes já veteranas nessa prática. A Avon entrou nisso em 1886 (sim, você leu certo), quando começou a vender perfumes de porta em porta - e hoje contabiliza mais de cinco milhões de revendedoras no mundo. Já a Natura trabalha com vendas diretas desde 1974.


Mas nem tudo são pedras no caminho da Jequiti. Basta lembrar que Silvio Santos começou sua carreira como mascate, apurou o faro vendendo panelas nas lojas do Baú da Felicidade nos anos 50 e 60, e desenvolveu uma sintonia quase instintiva com o público da classe C - as famosas “colegas de trabalho” que lotam seu auditório. “Um grande ativo da Jequiti é que Silvio conhece bem essa classe econômica”, diz Rafael Mônaco, professor do MBA Executivo da ESPM.

A Jequiti nasceu com traço familiar que é comum a muitas empresas do Grupo Silvio Santos. Hoje, porém, a companhia cultiva ares de profissionalismo. Apesar de uma das seis filhas estar na diretoria da Jequiti, a empresa fez uma reestruturação ainda em 2008. Com esse processo, o então diretor da Natura na Argentina (marketing, vendas e planejamento), Lásaro do Carmo Junior, desembarcou na empresa. Executivo com experiência no setor, Lásaro é o atual presidente da Jequiti.

Sem perfumaria

A situação é bem diferente da do ex-presidente do Panamericano Rafael Paladino, concunhado do Silvio Santos que entrou no grupo com as experiências acumuladas de personal trainer, administrador de academias e diretor de uma rede de postos de gasolina. A Jequiti conta com uma gestão mais profissional, o que não é regra em todo o grupo.

Ter uma gestão mais profissionalizada é fundamental, hoje, para que a Jequiti se destaque entre as empresas do Grupo Silvio Santos. Isto porque o rombo do banco PanAmericano despertou a desconfiança do mercado sobre a seriedade de todo o grupo.

“O principal obstáculo, nesse momento, é essa desconfiança o modelo de gestão do grupo. Silvio precisa mostrar que Jequiti está preparada”, diz Manzini, do Ibmec. E, para crescer, a Jequiti precisa atrair investidores. E todos sabem que, para o mercado, maquiagem só é bem-vista no rosto das mulheres. Está aí o PanAmericano como aviso.

Acompanhe tudo sobre:EmpresasPersonalidadesBancosAmérica LatinaDados de BrasilBilionários brasileirosBanco PanAmericanoSilvio SantosBancos quebradosGrupo Silvio SantosCosméticos

Mais de Negócios

Google apresenta nova forma de fazer compras online com IA

Projeto com DNA da Faria Lima forma talentos para o futebol global

Ele criou um assistente com IA para alunos — e descobriu algo maior

Ele não tem nem 30 anos e já fatura R$ 12 milhões com pão, sorvete e drinks