O estreito de Ormuz, com o Irã destacado (Getty Images)
Repórter
Publicado em 8 de maio de 2026 às 06h01.
À medida que o Irã mantém o controle efetivo do Estreito de Ormuz, apesar de tréguas, negociações, bloqueios navais e ultimatos, os EUA do presidente Donald Trump buscam uma reabertura urgentemente – além dos efeitos econômicos sobre os preços e disponibilidades de produtos essenciais como gasolina e fertilizantes, o bloqueio também causa fortes danos políticos ao republicano, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato, que decidirão os assentos da maioria do Congresso.
Para esse fim, o Comando Central militar americano, ou CENTCOM, anunciou, no domingo, 3, a implementação do “Project Freedom”, que visa ao envio de mais de 100 aeronaves e 15 mil soldados para o Irã. A ideia é coordenar esforços com embarcações comerciais para que elas possam completar a passagem por Ormuz com segurança, apesar de não envolver escoltas armadas.
Mesmo assim, ainda se sabe pouco sobre o funcionamento planejado da operação, que segue uma ideia relativamente vaga – uma promessa de apoio militar, mas, até então, sem planos para a formação de comboios defensivos.
Um artigo do think tank Council on Foreign Relations (CFR) descreve o projeto como uma medida arriscada que pode levar à escalada de um conflito que, embora ainda ativo, já perdeu intensidade.
A organização diz ainda que os riscos envolvidos em uma operação dessa escala podem fazer com que o Project Freedom se torne apenas “uma outra meia-medida improvisada em um conflito que avança de erro em erro. Enquanto o Irã ainda for capaz de atacar embarcações comerciais, poucos barcos vão arriscar o curso.”
De acordo com a Lloyd’s Market Association (LMA), uma associação de cerca de 100 empresas que medem riscos para navios comerciais e plataformas de petróleo, cerca de 1.000 embarcações comerciais seguem presas pelo bloqueio de Ormuz ou afetadas pelos bloqueios navais americanos. A bordo dos navios estão aproximadamente 20 mil marinheiros, presos no Estreito. Desses veículos, ao menos 25 foram atingidos por tiros desde o início do conflito.
A LMA disse ainda que, apesar das propostas do Project Freedom, não houve consulta do governo americano às empresas envolvidas sobre como as embarcações seriam guiadas com segurança pela passagem.
O secretário de defesa americano, Pete Hegseth, disse na terça, 5, que as operações americanas atuais no estreito seriam temporárias e que, em breve, outras nações deverão assumir parte da responsabilidade pela segurança marítima. Todavia, o secretário de Estado Marco Rubio adicionou que “a responsabilidade primária do Projeto Freedom está com os EUA”, e que o país continuaria os esforços para reabrir a passagem de maneira “sistemática”.
Iranianos em frente a cartaz que diz "o Estreito de Ormuz segue fechado", em Teerã, na quarta-feira, 8 de abril. O Irã ainda mantém alto nível de controle sobre a passagem, que usa como moeda diplomática. (Atta Kenare/AFP)
Mesmo com a chegada iminente de mais equipamentos, armas e tropas americanas, o Irã mantém que o Estreito está totalmente sob seu controle. “O Project Freedom [Projeto Liberdade, em português] é o Projeto Impasse”, escreveu o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, em uma publicação nas redes sociais.
“Os EUA devem ter cuidado para não serem arrastados de volta para um beco sem saída por pessoas mal-intencionadas”, disse em referência a conflitos americanos custosos e inconclusivos no Oriente Médio no passado.
No geral, o controle do Irã sobre a passagem permanece soberano, apesar dos bloqueios navais americanos em seus principais portos no Estreito.
Um artigo do Centro de Política para Energia Global da Universidade de Columbia, em Nova York, argumenta que “o bloqueio imposto pelos EUA às exportações de petróleo do Irã não causará danos catastróficos, nem mesmo muito graves, à indústria petrolífera iraniana. Se e quando o bloqueio for suspenso, o Irã provavelmente poderá retomar a produção prontamente, a cerca de 70%, e recuperar a maior parte de sua capacidade pré-guerra em poucos meses.”
Todavia, isso não significa que o bloqueio não trouxe dificuldades significativas ao Irã, que já enfrenta sérios problemas econômicos.
O Wall Street Journal nota que os dois meses de guerra já impuseram um custo severo à economia iraniana, com mais de um milhão de desempregados, preços elevados de alimentos e um apagão de internet prolongado que prejudicou drasticamente os negócios online.
Mesmo assim, apura o artigo do CFR, como o Irã não é uma democracia, e protestos não são permitidos, é improvável que o regime iraniano ceda a essas pressões só porque a população enfrenta dificuldades. No começo do ano, o regime não hesitou em matar dezenas de milhares de manifestantes durante intensos protestos contra a situação econômica precária que serviram de prelúdio para o conflito.
"O regime islâmico enfrenta sanções dos EUA de uma forma ou de outra desde 1979 e demonstrou capacidade de adaptação e sobrevivência. Teerã está agora redirecionando o comércio do Golfo Pérsico para o Mar Cáspio e para rotas terrestres com países vizinhos, como o Azerbaijão, a China, o Paquistão, a Turquia e o Turcomenistão. O Irã não é uma ilha como Cuba, que pode ser facilmente isolada por um bloqueio naval", elabora o artigo.
Conforme se torna cada vez mais claro para líderes em ambos os lados que escaladas militares e o uso de força não reabrirão o Estreito, e, aproveitando o controle de Ormuz, o Irã assume uma posição cada vez mais proativa e incisiva nas negociações de paz.
De acordo com o veículo de notícias americano Axios, Teerã propôs prazos de um mês para negociações relacionadas à reabertura da passagem, o fim do bloqueio americano e o fim das hostilidades tanto no Irã quanto no Líbano, e mais um mês para negociações relacionadas ao programa nuclear iraniano, outro estopim dos ataques.
“Resumindo, o melhor que podemos esperar, de forma realista, agora, após o fracasso épico da Operação Epic Fury [codenome da operação que iniciou os ataques contra o Irã, em conjunto com Israel], é a restauração do status quo anterior à guerra, quando o Estreito de Ormuz estava aberto a todos”, conclui o CFR.