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Por que Milei mudou as regras de mineração em geleiras na Argentina

Iniciativa do presidente, Javier Milei, permite às províncias redefinir as áreas de proteção de geleiras para expandir as operações de mineração, apesar da resistência de ambientalistas

Argentina: Manifestantes protestam contra mudança na lei das geleiras, que protege as massas de gelo, conforme parlamentares votam na mudança (Tomas Cuesta/AFP)

Argentina: Manifestantes protestam contra mudança na lei das geleiras, que protege as massas de gelo, conforme parlamentares votam na mudança (Tomas Cuesta/AFP)

Publicado em 10 de abril de 2026 às 06h01.

Nessa quinta, 9, a Câmara dos Deputados da Argentina deu a aprovação final à reforma da Lei das Geleiras com 137 votos a favor, 111 contra e três abstenções, após quase 12 horas de debate.

A reforma já havia sido aprovada pelo Senado em fevereiro, apesar da resistência de ativistas ambientais, e delega autoridade e responsabilidade pela proteção de geleiras do Instituto Argentino de Pesquisas de Neve e Gelo (IANIGLA) para os governos provinciais, a fim de incentivar a mineração.

"A partir de agora, nosso país volta a ter um verdadeiro federalismo ambiental e uma política inteligente e soberana para a exploração de seus recursos", disse o presidente, Javier Milei, em um comunicado após a votação.

Milei afirmou que a modificação da lei, em vigor desde 2010, era um passo necessário para atrair investimentos da mineração: "Os ambientalistas determinados a impedir o progresso da República Argentina perderam novamente", comemorou.

O bloco governante contava com o apoio de aliados de direita e parlamentares de províncias andinas como Mendoza, San Juan, Catamarca e Salta, que concentram a maior parte dos projetos de mineração e onde se localiza grande parte das geleiras do país.

“Água vale mais do que ouro”

Enquanto o debate ocorria, milhares de pessoas foram às ruas e participaram de protestos contra a reforma, entoando slogans como "Água vale mais que ouro" e "Tirem as mãos das geleiras". Essas massas de gelo são importantes fontes de água doce para o mundo, pois alimentam rios e reservatórios.

Organizações ambientalistas alertaram que a medida agravará a crise climática e anunciaram que a contestarão judicialmente. "Sem água, não podemos nem pensar em um projeto de crescimento e desenvolvimento", disse a congressista Natalia de la Sota.

Segundo um levantamento nacional de 2018, a Argentina possui aproximadamente 17.000 massas de gelo com mais de um hectare, incluindo geleiras e geleiras de detritos — ou seja, massas de gelo cobertas por rochas. No noroeste da Argentina, onde se concentram os projetos de mineração, essas massas de gelo encolheram 17% na última década, principalmente devido às mudanças climáticas, segundo o IANIGLA.

Os defensores da reforma argumentam que ela esclarecerá os critérios atualmente "imprecisos" relativos às áreas protegidas e devolverá às províncias o poder de decidir sobre seus recursos. Enquanto isso, parlamentares da oposição argumentaram que a reforma é inconstitucional por contradizer tratados internacionais e afirmaram que coloca em risco as reservas hídricas.

A aprovação da reforma representa mais uma vitória parlamentar para Milei, que impôs a desregulamentação trabalhista em fevereiro, apesar dos protestos repetidos nas ruas.

O presidente busca impulsionar a capacidade da Argentina de extrair cobre, lítio, ouro e prata e frequentemente cita o Chile, país vizinho e maior produtor mundial de cobre, localizado na mesma Cordilheira dos Andes, como exemplo. Segundo uma projeção do Banco Central, a Argentina poderá triplicar suas exportações de mineração até 2030.

Enrique Viale, presidente da Associação Argentina de Advogados Ambientalistas, disse à agência de notícias AFP que a reforma é "feita sob medida para grandes empresas transnacionais de mineração" e que "coloca em risco o abastecimento de água para 70% dos argentinos".

"A crise climática global é uma realidade que todos os seres humanos que vivem neste planeta estão vivenciando. Atacar as geleiras só agrava a situação", disse Diego Salas, diretor de comunicação do Greenpeace Argentina.

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