Em meio ao aperto econômico chinês, milhões apostam em aplicativos, empregos temporários e no setor informal (Cheng Xin/Getty Images)
Repórter
Publicado em 14 de agosto de 2026 às 06h00.
A desaceleração da economia chinesa está pressionando o mercado de trabalho e ampliando a dependência de empregos temporários e por aplicativo, segundo reportagem do Financial Times (FT). O fenômeno ocorre após anos de crise imobiliária, consumo fraco e crescimento aquém do padrão histórico do país.
Mesmo sem estatísticas oficiais detalhadas sobre subemprego, sinais de saturação já aparecem em setores como o transporte por aplicativo e as entregas. Motoristas de táxi e de plataformas relatam ao FT longas jornadas e queda de renda. Segundo o Centro de Pesquisa sobre Novas Formas de Emprego da China, mais de 53 milhões de pessoas trabalhavam como entregadores ou motoristas de aplicativo em 2025. O número cresceu em cerca de 10 milhões em apenas dois anos.
O mesmo centro estima que o emprego flexível, categoria que inclui trabalho temporário, autônomo e atividades de plataforma, chegará a 320 milhões de pessoas neste ano. Em 2024, eram 280 milhões.
Trabalhadores na China: as demissões, assim como outros episódios referentes à economia, tornaram-se assuntos sensíveis do ponto de vista político (Gilles Sabrié/The New York Times) (Gilles Sabrié/The New York Times)
Economistas afirmam ao FT que a expansão da chamada gig economy - um fenômeno no mercado de trabalho em que trabalhadores preferem empregos temporários, flexíveis, de freelancer ou até informais em vez de empregos tradicionais integrais - deixou de ser apenas uma válvula de escape para o desemprego.
Em várias cidades, a oferta de trabalhadores já supera a demanda por corridas e entregas.
A cidade de Shenzhen, por exemplo, declarou formalmente, em junho, que o mercado de transporte por aplicativo estava saturado. Outras administrações locais também relataram excesso de motoristas cadastrados nas plataformas.
O crescimento econômico perdeu força em indicadores como o investimento, as vendas no varejo e a confiança do consumidor: a percepção de piora nas perspectivas de emprego tem pesado sobre o consumo das famílias.
Apesar disso, a taxa oficial de desemprego urbano permanece próxima de 5% há anos. Todavia, especialistas afirmam que o dado não captura trabalhadores subempregados, desalentados ou que retornam ao interior do país.
A força de trabalho chinesa vem encolhendo desde o pico registrado em 2015, quando superava 800 milhões de pessoas. Em tese, a redução da oferta de mão de obra deveria pressionar os salários para cima.
O que ocorre, porém, é o contrário: consumo fraco, risco de deflação e desaceleração dos salários urbanos. Em 2025, uma das medidas de crescimento salarial caiu para 3,4%, o menor nível da série histórica.
Analistas do HSBC avaliam que a demanda por trabalho está caindo mais rapidamente do que a oferta de mão de obra. Entre os fatores citados estão a automação industrial, a crise imobiliária e o avanço da inteligência artificial.
Trabalhadores de aplicativos de delivery na China: setor se torna alternativa tão valiosa que mercado está se saturando (Beiyi SEOW, ZHANG Yuanhao) (Beiyi SEOW, ZHANG Yuanhao/AFP)
O mercado de entregas mostra sinais claros da perda do poder de compra das famílias chinesas. Trabalhadores relatam redução de 20% a 50% nas tarifas cobradas por pedido nos últimos anos.
Em Guangzhou, entregadores dizem que precisam trabalhar mais horas para manter o mesmo rendimento. Jornadas de 11 horas por dia tornaram-se comuns em regiões com alta concentração de pedidos.
A renda mensal varia significativamente entre os trabalhadores. Alguns conseguem receber entre 6 mil e 13 mil yuans por mês (entre R$ 4.600 e R$ 10 mil), enquanto os mais precários relatam ganhos de cerca de 2 mil yuans (R$ 1.500) após os custos.
O setor também passou a absorver trabalhadores de áreas tradicionais, como a construção civil e a manufatura. Muitos migraram após atrasos salariais, queda na atividade ou dificuldade de recolocação.
Graduados universitários também estão entrando nas plataformas. A China terá mais de 12 milhões de novos formandos em busca de emprego neste ano, o que intensifica a competição por vagas urbanas.
Economistas do Standard Chartered alertam ainda que empregos flexíveis oferecem menor estabilidade de renda, proteção trabalhista mais fraca e cobertura incompleta de seguridade social. Esses fatores tendem a reduzir ainda mais a disposição para consumir, o que fere a economia chinesa, levando o atual plano quinquenal a enfatizar o consumo interno como prioridade econômica.
Por sua vez, pesquisadores independentes consultados pelo Financial Times descrevem o equilíbrio atual do mercado de trabalho como frágil. Há trabalhadores ocupados, mas em condições consideradas de baixa qualidade e com renda próxima ao nível de subsistência.
O crescimento do emprego urbano continua positivo, porém muito mais lento do que antes da pandemia. Em 2025, o aumento líquido foi de cerca de 2 milhões de postos, em comparação com dezenas de milhões por ano no período anterior.
No longo prazo, a redução da população pode aliviar parte da pressão sobre o mercado de trabalho. Mas, segundo os analistas, uma recuperação consistente dos salários dependerá de melhora da demanda doméstica e de maior dinamismo econômico.