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Um diploma, zero emprego: a crise dos graduados na China

China forma número recorde de alunos, mas mercado encontra dificuldade em absorver novos profissionais à medida que a IA ganha espaço

Entregadores na China: trabalho vira opção para jovens que não conseguem trabalho em sua área de formação (Cheng Xin/Getty Images)

Entregadores na China: trabalho vira opção para jovens que não conseguem trabalho em sua área de formação (Cheng Xin/Getty Images)

Publicado em 15 de julho de 2026 às 06h03.

A China enfrenta um dilema: sua aposta na tecnologia e na inteligência artificial lhe dá uma forte margem competitiva geopolítica; ao mesmo tempo, milhões de graduados das melhores universidades do país têm dificuldade em encontrar empregos, já que enfrentam mercados saturados e competem por vagas cada vez mais escassas, à medida que a mesma tecnologia toma vagas de entrada em uma economia que se automatiza.

Este ano pode significar o pior cenário até agora. Embora a taxa de desemprego entre jovens de 16 a 24 anos na China seja de 15,6% — patamar semelhante ao do Reino Unido (16,2%) e da União Europeia (15,1%) —, o mercado de trabalho chinês tem se mostrado particularmente desafiador para recém-formados diante da rápida transformação da segunda maior economia do mundo.

Graduados em áreas como humanidades, artes e línguas enfrentam uma demanda cada vez menor por suas qualificações, enquanto universidades reformulam seus currículos para atender à estratégia do governo de liderar setores de alta tecnologia, eliminando, em larga escala, cursos considerados obsoletos.

O desafio é agravado pelo volume recorde de novos profissionais. Desde 2022, mais de 10 milhões de estudantes concluem o ensino superior na China a cada ano, número que continua em expansão. Com isso, as autoridades enfrentam a tarefa de criar, anualmente, oportunidades de emprego para um contingente equivalente à população de um país europeu de médio porte.

Todavia, nos últimos anos, o governo chinês não apresentou estatísticas oficiais para as taxas de desemprego entre a juventude. Mesmo assim, internautas na plataforma Xiaohongshu, equivalente ao TikTok, fizeram pesquisas informais, e o cenário é preocupante: uma de junho feita por um formando de 2025, com mais de 14 mil correspondentes, revelou que 10 mil desses seguiam desempregados.

Um problema desde 2020

Rua em Tsingdao, na China (Leandro Fonseca /Exame)

Segundo o jornal britânico The Guardian, o desemprego entre a juventude é um problema sério na China desde 2020, sem melhora nos últimos seis anos. A tendência foi originalmente desencadeada pela mudança da China para um modelo de crescimento econômico baseado principalmente na produtividade e na manufatura. À medida que essa abordagem econômica se tornou a prioridade do país, surgiu um conflito entre as competências dos formandos e as novas demandas do mercado de trabalho.

O impacto da IA, que, apesar de ser uma tendência global, é um foco central na China, exacerbou o problema e agora passa a automatizar uma miríade de empregos de nível inicial. Segundo a plataforma, até mesmo formandos com experiência em TI enfrentam dificuldades para ingressar no setor.

Em resposta à crise, o sistema de educação superior chinês — diretamente controlado pelo Estado — cortou mais de 12 mil programas de graduação, especialmente nas áreas de artes e ciências humanas, entre 2021 e 2025, aponta o Guardian. Ao mesmo tempo, introduziu mais de 10 mil novos cursos em campos emergentes, principalmente em setores relacionados à IA e aos semicondutores.

O mercado de trabalho também sofre os impactos da desaceleração da economia chinesa. Diante de tarifas comerciais mais agressivas, do consumo interno enfraquecido e do envelhecimento acelerado da população, Pequim reduziu sua meta de crescimento do PIB para uma faixa entre 4,5% e 5%, a mais baixa desde 1991. O cenário econômico mais contido tem limitado a criação de vagas e agravado as dificuldades de inserção dos milhões de recém-formados que chegam ao mercado todos os anos.

O consumo interno e o avanço tecnológico estão no cerne do atual plano quinquenal, que ditará a política econômica da China nos próximos cinco anos.

O desemprego entre graduados tornou-se uma das principais preocupações das autoridades chinesas, que vêm adotando uma série de medidas para estimular as contratações. Entre elas está uma campanha nacional de seis meses, lançada no mês passado, para incentivar empresas a ampliar a oferta de vagas.

Em março, o governo também anunciou planos para utilizar a inteligência artificial como ferramenta para criar 12 milhões de empregos urbanos em 2026, por meio de programas de capacitação em larga escala e estágios voltados a setores emergentes de rápido crescimento.

Enquanto essas iniciativas ainda não produzem resultados, um número crescente de recém-formados tem recorrido a trabalhos flexíveis, como entregas por aplicativo, integrando a vasta economia de "bicos" da China, que já emprega mais de 200 milhões de pessoas.

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