Donald Trump: Presidente dos EUA em anúncio de aumento de tarifas para dezenas de países (Brendan Smialowski/AFP)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 29 de dezembro de 2025 às 06h01.
Empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos tiveram em 2025 seu ano mais desafiador da história. O governo do presidente Donald Trump decidiu impor uma tarifa de 50% aos produtos brasileiros, o que gerou prejuízos e incertezas.
A tarifa foi anunciada em 9 de julho, com o objetivo de pressionar o Brasil a cancelar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado.
A taxa, de 50%, foi aplicada inicialmente a todos os itens, mas logo foram surgindo exceções, que deixaram de fora itens importantes, como aeronaves e suas peças.
Entre julho e setembro, houve semanas difíceis, em que o governo brasileiro encontrou portas fechadas ao procurar autoridades americanas, e a situação parecia sem solução.
No entanto, o impasse foi desfeito a partir de setembro. Após uma série de conversas de bastidores, envolvendo tanto autoridades quanto empresários e entidades setoriais, o presidente Trump se reuniu com o presidente Lula nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU.
Depois disso, vieram outras conversas entre os dois presidentes e uma série de alívios ao tarifaço, como a retirada de mais produtos da lista e uma sinalização de normalização das relações.
No entanto, apesar da melhora no cenário, ainda há diversos produtos sob efeito de tarifas. Segundo cálculo da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), 62,9% dos produtos brasileiros exportados aos EUA ainda são alvo de alguma tarifa extra, seja de 10%, 40% ou 50%.
A última rodada de isenções foi anunciada em 20 de novembro, e contemplou itens como carne, café, frutas e outros produtos agrícolas. Já itens como calçados, máquinas, mel e móveis seguem sobretaxados.
Os presidentes Donald Trump e Lula, durante reunião na Malásia, em 26 de outubro (Andrew Reynolds/AFP/AFP)
Em meio às idas e vindas das taxas, houve redução de exportações do Brasil para os EUA de US$ 1,5 bilhão em produtos, entre agosto e novembro de 2025, segundo estudo da Amcham.
Ao mesmo tempo, em 15 de 21 setores analisados, as empresas não conseguiram redirecionar os produtos que iam para os EUA rumo a outros mercados. Esses setores somaram perdas de US$ 1,2 bilhão, com destaque para mel, pescados, plástico, borracha, madeira, metais e material de transporte.
Além disso, alguns produtos têm mais dificuldade para encontrar outros compradores.
No setor de máquinas e aparelhos elétricos, por exemplo, as exportações para os Estados Unidos recuaram US$ 104,5 milhões, enquanto as vendas para o restante do mundo cresceram US$ 650 milhões no período, o que à primeira vista sugere compensação.
No entanto, os principais produtos afetados no mercado americano, como transformadores e geradores, não tiveram o mesmo desempenho em outros destinos: as exportações de transformadores caíram 23,1% para os EUA e 40,9% para o resto do mundo, enquanto as de geradores recuaram 54,6% para os EUA e cresceram apenas 2,3% nos demais mercados.
Os setores que conseguiram compensar suas perdas e redirecionar produtos foram os de produtos vegetais; gorduras e óleos; químicos; pedras preciosas; máquinas e aparelhos elétricos; e máquinas e instrumentos mecânicos.
“O estudo sugere que não é possível compensar plenamente as vendas da maioria dos produtos exportados para os Estados Unidos por meio do seu redirecionamento a outros destinos. A estratégia de diversificação é bem-vinda, mas não substitui o papel do mercado americano, cujo tamanho, escala e características são únicos", diz Abrão Neto, presidente da Amcham.
Para 2026, o governo brasileiro, as entidades setoriais e empresas esperam que as negociações avancem, para retirar do tarifaço os produtos restantes.
Há pressa para tentar resolver a questão no começo do ano, antes que as eleições presidenciais no Brasil e no meio de mandato nos EUA dominem o foco das autoridades.
"É importante aproveitar essa janela de oportunidade, pois ela não necessariamente fica aberta de maneira indefinida. Ano que vem é um ano em que muito da atenção no Brasil já se volta para dentro. Então, há um senso de urgência em se aproveitar essa janela e continuar se tendo avanços nas conversas", disse Neto.
O embaixador Roberto Azevedo, ex-diretor da Organização Mundial do Comércio, reforça a questão temporal. "O tema precisa ser resolvido, sob a perspectiva americana, antes de o processo eleitoral ganhar ímpeto", disse, em um evento no final de novembro.
Para Azevedo, o Brasil terá de ser pragmático nas negociações, uma vez que elas não seguirão o roteiro tradicional de pedidos e ofertas.
"Vai ser mais um jogo de sedução interesseira. O momento com os EUA é de oportunidade. Mas essa janela de oportunidade é evidentemente efêmera. Muitas coisas podem acontecer, inclusive tensões da política externa dos Estados Unidos, que tende a ser muito transacional e volátil", afirmou.