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Mão de vaca? Descubra por que os americanos estão menos altruístas

A The Economist analisa o declínio das doações nos Estados Unidos, apontando fatores econômicos, políticos e sociais que reduzem o número de contribuintes

Filantropia: especialistas projetam "aumento de doações e redução do número de financiadores" (Sven Hoppe/picture alliance/Getty Images)

Filantropia: especialistas projetam "aumento de doações e redução do número de financiadores" (Sven Hoppe/picture alliance/Getty Images)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 25 de dezembro de 2025 às 14h23.

No final de cada ano, entre presentes e festas, os americanos tradicionalmente destinam parte de sua renda à caridade. No entanto, em 2025, espera-se que menos pessoas façam doações em comparação com anos anteriores, segundo dados compilados pela The Economist.

De acordo com o Fundraising Effectiveness Project (FEP), o número de doadores nos Estados Unidos caiu cerca de 3% nos primeiros nove meses de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, o que aponta para o quinto ano consecutivo de retração no número de contribuintes.

Entre famílias com patrimônio acima de US$ 1 milhão, a participação em doações caiu de 91% em 2015 para 81% em 2024, segundo pesquisa do Bank of America.

O cenário pressiona ainda mais as organizações sem fins lucrativos. Segundo o Giving USA, um relatório anual baseado em pesquisas da Universidade de Indiana, as doações totais — incluindo indivíduos, empresas, fundações e legados — cresceram apenas 3,3% em termos reais em 2024, chegando a pouco mais de US$ 590 bilhões, após uma queda registrada na pandemia.

Embora a decisão de Donald Trump de fechar a agência oficial de ajuda externa dos Estados Unidos tenha ganhado as manchetes, outros países ricos estão cortando a ajuda de forma mais discreta, analisa a The Economist.

Dados da OCDE indicam que a assistência oficial ao desenvolvimento dos maiores doadores do mundo caiu em 2024 pela primeira vez em seis anos.

Apesar disso…

Embora fatores políticos e críticas a certas instituições possam influenciar a percepção sobre doações, o declínio é parte de uma tendência mais ampla.

A diminuição da porcentagem de americanos que doam ocorre há pelo menos uma década, incluindo períodos sem mudanças políticas significativas.

Pesquisas da consultoria McKinsey mostram que preocupações com o custo de vida são um fator importante: quase metade dos entrevistados em novembro declarou preocupação com o aumento dos preços, e quase um quarto relatou dificuldade em fechar as contas. O motivo mais citado para não doar em 2024 foi a impossibilidade de arcar com os custos.

Fatores religiosos

A mudança nos padrões de religiosidade também contribui para a queda. Muitos ensinamentos religiosos incentivam a generosidade, e a participação religiosa impulsionou historicamente a filantropia nos Estados Unidos.

Mas uma pesquisa recente do Gallup revelou que a fé está declinando mais rapidamente nos Estados Unidos do que em qualquer outro país já pesquisado pelo instituto, e as doações para grupos religiosos, que antes representavam a maior parte das contribuições, caíram para menos de um quarto do total em 2024.

Redução do número de doadores

O setor de filantropia está cada vez mais dependente de um número menor de doadores significativos. Amir Pasic, da Escola de Filantropia da Família Lilly da Universidade de Indiana, afirmou à The Economist que se desenha um cenário de "aumento de doações e redução do número de financiadores".

Os novos super-ricos, em sua maioria jovens fundadores de empresas de tecnologia, continuam concentrados em ampliar suas fortunas, em vez de direcioná-las à filantropia.

Entre os doadores mais conhecidos do Vale do Silício, o movimento dos “altruístas eficazes” (EA, na sigla em inglês) recuou desde a prisão de seu principal apoiador, Sam Bankman-Fried, por fraude.

Segundo um blog oficial do movimento, as doações do EA devem somar US$ 863 milhões em 2025, abaixo dos mais de US$ 1 bilhão registrados em 2022.

Entre os grandes doadores, alguns aumentaram substancialmente suas contribuições: a Fundação Gates planeja investir US$ 200 bilhões nos próximos 20 anos, e Mackenzie Scott, ex-esposa de Jeff Bezos, doou US$ 7 bilhões em 2025.

No entanto, essas doações extraordinárias não substituem a base mais ampla de doadores da classe média, cuja participação tem diminuído ao longo do tempo.

Em resumo, a filantropia americana enfrenta uma mudança estrutural: menos pessoas estão doando, mas aquelas que contribuem, doam em quantias cada vez maiores, criando um cenário de concentração da generosidade em um grupo restrito.

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