Houthis: ataques dos rebeldes contra a Arábia Saudita aumentaram a tensão no Mar Vermelho nesta segunda-feira, 14 (AFP Photo/Al-Masirah TV)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 12h12.
O governo do Irã negou, nesta segunda-feira, 14, estar envolvido nos conflitos entre os rebeldes Houthi, no Iêmen, e a Arábia Saudita no Mar Vermelho. Em coletiva de imprensa, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, afirmou que "o Irã não interfere nos assuntos iemenitas”.
Teerã teria reuniões com o governo saudita para definir melhor a situação em Ormuz, de maneira semelhante a como fizeram com Omã, mas as negociações foram atrasadas também nesta segunda-feira.
Na Europa, o polêmico programa nuclear iraniano retornou aos holofotes após a delegação persa ter sido vetada pelo governo austríaco de participar na conferência anual da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em Viena.
Os houthis anunciaram nesta segunda-feira o lançamento de “dezenas de mísseis balísticos e drones” contra alvos militares no sul da Arábia Saudita, em resposta aos ataques das forças militares do reino. Os ataques provocaram alertas da Defesa Civil saudita nas cidades de Khamis Mushait e Abha.
O porta-voz militar dos houthis, Yahya Saree, afirmou, em coletiva de imprensa, que os ataques atingiram “hangares de aviões de combate, radares, pistas de pouso, depósitos de munição e outros alvos” na base aérea Rei Khalid, em Khamis Mushait.
Segundo Saree, a ofensiva foi uma retaliação aos ataques aéreos realizados pela Arábia Saudita no Iêmen. Ele acusou Riade de realizar “mais de 300 ataques aéreos nos últimos cinco dias” em território iemenita.
A retomada dos combates acontece em um país que já enfrenta uma das maiores crises humanitárias do mundo. Os houthis tomaram a capital, Saná, em 2014, obrigando o governo internacionalmente reconhecido a transferir sua sede para Aden.
No ano seguinte, a Arábia Saudita liderou uma coalizão militar em apoio ao governo. Após anos de guerra, uma trégua mediada pela ONU em 2022 reduziu os combates até a retomada da ofensiva neste ano.
A nova escalada já provocou uma onda de deslocamentos. Segundo a agência da ONU para migrações, 86 mil pessoas foram obrigadas a fugir de suas casas desde a retomada dos confrontos, número que cresceu em 10 mil em apenas um dia.
A ONU também informou no fim de semana que mais de 2 mil pessoas fugiram do Iêmen para o Djibouti desde quinta-feira para escapar dos combates entre as forças governamentais e os insurgentes.
Em 2025, a ONU havia estimado que 17 milhões de iemenitas enfrentavam dificuldades para conseguir alimentos e que 1 milhão estava em situação de fome extrema.
O Irã apoia politicamente os houthis e considera o grupo parte de seu “eixo de resistência” contra Israel, mas negou participação direta na retomada dos confrontos.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, afirmou, em coletiva de imprensa: “O Irã não interfere nos assuntos iemenitas”.
Segundo Baqaei, os houthis são “totalmente independentes” e “tomam suas decisões em função de seus próprios interesses”. O governo iraniano sustenta que os combatentes são independentes e nega exercer controle militar sobre o grupo.
Apesar da negativa, Teerã apoia os houthis há anos, inclusive com armas e tecnologia, mas nega exercer controle militar sobre o grupo.
Os houthis passaram a desempenhar papel mais direto no conflito regional desde julho, quando começaram combates no Mar Vermelho entre o grupo e os sauditas.
A ofensiva ocorre depois de os houthis assumirem, na semana passada, o controle da costa iemenita do Mar Vermelho e do Estreito de Bab el-Mandeb. O grupo também tomou a cidade portuária de Mocha e a ilha de Perim.
A movimentação aumentou a importância estratégica da passagem. Com o Estreito de Ormuz bloqueado pelo Irã, Bab el-Mandeb se tornou uma rota fundamental para as exportações de petróleo sauditas.
Os houthis também declararam um bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita. A situação aumenta a pressão sobre Riade e consolida uma segunda frente de risco para o transporte de petróleo na região.
Uma reunião entre o Irã e outros países do Golfo para discutir a navegação pelo Estreito de Ormuz foi adiada nesta segunda-feira, afirmou Esmaeil Baqaei na mesma coletiva de imprensa em que discutiu a atuação iraniana no Iêmen.
O encontro deveria tratar do futuro da passagem marítima e de um possível acordo semelhante ao estabelecido entre Irã e Omã. Segundo a AFP, o adiamento ocorreu a pedido de alguns países da região.
Teerã acusou Riade de utilizar o conflito no Iêmen como “pretexto” para postergar as negociações. Uma nova data deverá ser definida em coordenação com Omã.
A combinação entre os ataques aos sauditas, os riscos no Mar Vermelho e a situação em Ormuz voltou a pressionar o mercado de petróleo. O Brent avançou 2,8%, para US$ 107,54 por barril, enquanto o WTI subiu 2,9%, para US$ 102,93.
O mercado também reagiu ao fechamento temporário de um importante oleoduto saudita após um ataque com drones na sexta-feira, 11. Segundo autoridades sauditas, a ação foi atribuída a combatentes apoiados pelo Irã no Iraque.
O oleoduto East-West permite que o país transporte petróleo até o Mar Vermelho sem passar por Ormuz.
Segundo compradores e operadores do setor, a interrupção pode levar a uma perda de até 4% da oferta mundial de petróleo caso não seja solucionada rapidamente.
A tensão envolvendo o Irã também avançou no campo diplomático. O chefe da Organização de Energia Atômica iraniana, Mohammad Eslami, foi impedido de participar da conferência anual da AIEA, em Viena.
Teerã acusou os Estados Unidos de pressionar a Áustria. O funcionário da Organização de Energia Atômica do Irã, Behrouz Kamalvandi, classificou a decisão, em coletiva de imprensa, como “maliciosa” e afirmou que ela cria um precedente de pressão política sobre a organização.
Os Estados Unidos confirmaram que se opuseram a uma exceção que permitiria a entrada do dirigente, considerado uma pessoa submetida a sanções. O secretário de Energia americano, Chris Wright, afirmou, em coletiva de imprensa em Washington, que Eslami é uma pessoa sancionada e que o governo americano se opôs à exceção.