O presidente dos EUA, Donald Trump (à esquerda), e o príncipe herdeiro e primeiro-ministro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman. Os países, apesar de diferenças ideológicas, têm bons laços diplomáticos (Chip Somodevilla/Getty Images)
Repórter
Publicado em 19 de julho de 2026 às 08h01.
A guerra entre os EUA e o Irã levou os países do Golfo a reavaliar a parceria estratégica construída com os Estados Unidos ao longo de décadas, aponta um estudo do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS).
Tradicionalmente baseada na troca entre investimentos e garantias de segurança, a relação passou a ser questionada por governos que agora se perguntam se o alinhamento com Washington aumentou, em vez de reduzir, sua vulnerabilidade a ataques.
Nos últimos anos, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos ampliaram significativamente seus investimentos em tecnologia, em parceria com os Estados Unidos. Segundo o CSIS, juntos, os três países destinaram cerca de US$ 2,5 trilhões a projetos no setor, incluindo centros de inteligência artificial, infraestrutura de computação e parcerias com empresas como Amazon, Nvidia, OpenAI, Oracle e SoftBank.
O objetivo era claro: transformar o Golfo em um dos principais polos globais de inteligência artificial e diversificar as economias historicamente dependentes do petróleo.
Essa estratégia, porém, foi posta em risco pelo conflito. Ataques iranianos contra infraestrutura energética, portos, aeroportos e grandes centros urbanos abalaram a imagem de estabilidade da região, considerada por investidores internacionais um ambiente seguro para projetos de longo prazo.
Com isso, nos bastidores das monarquias do Golfo, as autoridades passaram a discutir se o estreito alinhamento com os Estados Unidos, de fato, garantiu maior segurança. A percepção ganhou força especialmente nos Emirados Árabes Unidos, que aprofundaram a cooperação com Israel após os Acordos de Abraão e acabaram mais expostos às consequências do conflito, enquanto países como Catar e Kuwait mantiveram posições diplomáticas mais equilibradas.
Irã: guerra amplia cautela e faz petróleo saltar (Atta Kenare/AFP/Getty Images)
Estimativas do banco Goldman Sachs, citadas no artigo, indicam que um conflito prolongado poderia reduzir o PIB do Catar e do Kuwait em até 14%, enquanto a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos sofreriam perdas de aproximadamente 3% e 5%, respectivamente.
Além do impacto econômico direto, o CSIS enfatiza que o fechamento do espaço aéreo, o aumento dos custos de seguro e a ameaça constante de drones e mísseis suscitam preocupações quanto à permanência de executivos, engenheiros e profissionais estrangeiros responsáveis por sustentar os projetos de modernização.
Outra preocupação diz respeito à infraestrutura tecnológica da região. Segundo analistas, centros de dados utilizados por bancos e serviços públicos do Golfo também hospedavam sistemas ligados a operações militares norte-americanas, o que tornava essas instalações potenciais alvos de ataques iranianos. Teerã chegou a listar instalações de empresas como Amazon Web Services (AWS), Microsoft, Google, Nvidia, Oracle e Palantir entre os objetivos considerados militares.
O conflito também atingiu setores estratégicos da economia regional. O fechamento temporário do Estreito de Ormuz reduziu drasticamente a capacidade de exportação de petróleo da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, do Iraque e do Kuwait, enquanto ataques contra instalações da QatarEnergy interromperam parte da produção de gás natural liquefeito e elevaram os preços da energia na Europa.
A infraestrutura digital também sofreu impactos. Ataques com drones atingiram centros de dados da AWS nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein, afetando serviços bancários, sistemas de pagamento e plataformas digitais utilizadas por milhões de pessoas. O episódio levou empresas a reconsiderar novos investimentos na região diante dos riscos crescentes para projetos de longo prazo.
Apesar das incertezas, os governos do Golfo não demonstram intenção de abandonar suas ambições tecnológicas nem de romper com Washington. A tendência observada por especialistas é a busca por maior autonomia estratégica, preservando as parcerias econômicas com os Estados Unidos, mas reduzindo a exposição política e militar decorrente desse alinhamento.
Na avaliação do CSIS, os países do Golfo continuam interessados em diversificar suas economias, investir em inteligência artificial e consolidar novos setores produtivos. Entretanto, o conflito reforçou a percepção de que a estabilidade regional é condição essencial para esses planos. Caso os governos concluam que a parceria com os Estados Unidos representa um risco crescente à sua segurança, parte dos investimentos poderá ser direcionada a novos parceiros internacionais, em busca de condições mais favoráveis.