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Irã poderia fechar outra rota estratégica do petróleo

Após pressionar o Estreito de Ormuz, Teerã sinaliza que pode usar os houthis para bloquear a passagem de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho elevando os riscos para o comércio global

Mar Vermelho, por onde passa uma das mais importantes rotas marítimas do mundo, em risco de ser fechada pelo Irã  (NASA)

Mar Vermelho, por onde passa uma das mais importantes rotas marítimas do mundo, em risco de ser fechada pelo Irã (NASA)

Publicado em 16 de julho de 2026 às 06h01.

O conflito no Oriente Médio pode ganhar um novo capítulo caso o Irã decida ampliar a pressão sobre os Estados Unidos e seus aliados por meio do fechamento do estreito de Bab el-Mandeb, passagem marítima que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden.

A avaliação é de analistas ouvidos pela agência Reuters, que apontam a possibilidade de Teerã recorrer aos rebeldes houthis do Iêmen — grupo armado patrocinado e ideologicamente alinhado com o Irã —  para ameaçar uma das principais rotas do comércio internacional.

Junto de Ormuz, Bab el-Mandeb é uma das rotas marítimas mais importantes do planeta. Todos os meses, entre 1.000 e 1.100 grandes navios de carga atravessam o estreito, transportando cerca de 75 milhões de toneladas de mercadorias. A passagem também é fundamental para o setor energético, com o fluxo diário de aproximadamente 4,2 milhões de barris de petróleo e derivados, além de concentrar cabos submarinos responsáveis por cerca de 15% do tráfego mundial de dados da internet.

A preocupação aumenta, já que o Irã demonstrou sua capacidade de bloquear totalmente o tráfego no Estreito de Ormuz. A abertura de uma segunda frente elevaria os riscos à navegação comercial e ao abastecimento energético global.

O cenário se dá em meio às tensões militares renovadas entre o Irã e os Estados Unidos. Enquanto forças americanas ampliam os ataques contra alvos iranianos, os houthis intensificam suas ofensivas na região, o que especialistas interpretam como parte da estratégia iraniana de expandir o conflito para além do Golfo Pérsico.

Na avaliação dos analistas, a ameaça de comprometer simultaneamente duas das principais rotas marítimas do planeta representa um instrumento de pressão sobre Washington e seus aliados, elevando o custo econômico de uma eventual escalada militar.

A ameaça houthi

Manifestantes Houthis, aliados ao Irã, que atuam no Iêmen (Mohammed Hamoud/Getty Images)

A possibilidade de bloqueio ganhou força após declarações de Mohammed al-Farah, integrante da liderança política do movimento Ansarullah, outro nome para os houthis. Segundo ele, as forças do grupo estariam preparadas para fechar o estreito de Bab el-Mandeb caso a Arábia Saudita intensifique os ataques contra o Iêmen.

Al-Farah afirmou que os Estados Unidos estariam incentivando ações militares sauditas e advertiu que um agravamento do conflito poderia resultar no fechamento conjunto dos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb. Segundo sua estimativa, a medida teria potencial para elevar o preço internacional do petróleo a até US$ 200 por barril.

Para estudiosos da política do Oriente Médio consultados pela Reuters, o movimento iraniano busca demonstrar que o país tem capacidade de ameaçar simultaneamente os dois principais corredores marítimos utilizados pelo mercado internacional de energia. A estratégia transformaria uma disputa regional em um problema de alcance global.

Na avaliação dos analistas, o risco imediato não é necessariamente uma guerra em larga escala, mas uma escalada gradual do conflito, na qual cada lado aumenta a pressão sem ultrapassar o limite de um confronto direto. Esse processo amplia a instabilidade e torna mais difícil prever os próximos passos das partes envolvidas.

Ataques no Mar Vermelho já afetaram o comércio mundial

Os houthis já demonstraram capacidade de causar impactos significativos no comércio internacional. Desde o início da guerra na Faixa de Gaza, em outubro de 2023, o grupo passou a atacar embarcações comerciais que cruzavam o Mar Vermelho, alegando que seus alvos eram navios ligados a Israel em apoio aos palestinos.

As ofensivas obrigaram grandes companhias de navegação a alterar suas rotas, desviando embarcações pelo extremo sul da África. A mudança aumentou os custos de transporte, alongou os tempos de viagem e levou os Estados Unidos e o Reino Unido a realizarem ataques contra posições houthis, além da criação de uma força naval internacional para proteger a navegação.

Segundo Andreas Krieg, pesquisador do King's College London, o fechamento do Bab el-Mandeb seria uma espécie de "última opção" estratégica para o Irã, a ser utilizada apenas se Teerã concluísse que um conflito de maiores proporções se tornasse inevitável. Ainda assim, ele avalia que uma intensificação dos ataques americanos contra infraestrutura iraniana pode aumentar essa possibilidade.

Já Abdulaziz Sager, presidente do Gulf Research Center, afirma que os países do Golfo acreditam cada vez mais que as alternativas diplomáticas com o Irã estão se esgotando. Apesar disso, ele considera improvável que os Houthis promovam uma escalada sem autorização direta de Teerã e alerta que qualquer tentativa de interromper a navegação no Bab el-Mandeb provavelmente provocaria uma resposta militar mais ampla por parte dos Estados Unidos e de seus aliados.

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