Mundo

Enchentes em países da Ásia já deixam mais de mil mortos

Balanço mais recente aponta um aumento no número de vítimas na Indonésia, Tailândia e Sri Lanka após intensas chuvas

Província de Aceh, na Indonésia: número de mortos pelas enchentes no país subiu para mais de 500 (Chaideer Mahyuddin/AFP)

Província de Aceh, na Indonésia: número de mortos pelas enchentes no país subiu para mais de 500 (Chaideer Mahyuddin/AFP)

Publicado em 1 de dezembro de 2025 às 07h30.

Última atualização em 1 de dezembro de 2025 às 13h59.

As enchentes que atingem Indonésia, Sri Lanka e Tailândia depois de um forte temporal já deixaram pelo menos 1.012 mortos, segundo dados atualizados nesta segunda-feira, 1º de dezembro. A ilha indonésia de Sumatra é, até agora, a região mais afetada.

Na Indonésia, o último balanço da Agência Nacional para a Gestão de Desastres (BNPB) elevou o número de mortos de 442 para 502, enquanto os desaparecidos passaram de 402 para 508. O país também registra 2.500 feridos e cerca de 550 mil evacuados.

A Tailândia também atualizou seu balanço nesta segunda-feira, registrando 176 mortos e perdas multimilionárias em várias províncias do sul, apesar do recuo das águas nos últimos dias.

No Sri Lanka, o número de vítimas continua a crescer: autoridades elevaram para 334 o total de mortos confirmados, enquanto 337 pessoas seguem desaparecidas.

Indonésia: declaração de desastre nacional

As chuvas provocaram o transbordamento de rios e deslizamentos de terra na Indonésia, afetando 1,4 milhão de pessoas, sobretudo nas províncias de Sumatra do Norte, Aceh e Sumatra Ocidental, onde vivem mais de 20 milhões de habitantes.

Testemunhos apontam que casas e comércios foram levados pela força da água, e famílias inteiras precisaram improvisar refúgios junto aos poucos muros que permaneceram de pé.

Apesar de as inundações, causadas pelas fortes chuvas da monção e por um ciclone tropical incomum que atingiu a ilha na semana passada, começarem a ceder em algumas áreas, ao menos três subdistritos da província de Aceh, no norte de Sumatra, seguem inacessíveis para as equipes de resgate.

A situação superou a capacidade de alguns governos locais, que, ao lado de grupos civis, solicitaram ao governo central a declaração de desastre nacional. Esse recurso foi usado apenas três vezes nas últimas três décadas, incluindo a pandemia de covid-19 e o tsunami em 2004.

À EXAME, especialistas explicam as causas da tragédia e apontam paralelos entre os eventos extremos na Ásia e os desastres recentes no Brasil, como as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, e a tragédia de Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 2022.

Deli Sergang, Indonésia, em 27 de novembro de 2025. Tailândia, Malásia e Sri Lanka também foram atingidos (Anadolu / Colaborador/Getty Images)

Uma região de monções, mas que foi atingida por falta de estrutura

Para explicar por que esses países são tão vulneráveis, Gerardo Portela, engenheiro, PhD em riscos e segurança e consultor do Centro de Operações e Resiliência do Rio de Janeiro (COR-Rio), destaca que o Sudeste Asiático convive historicamente com as monções — sistemas de ventos que provocam precipitações extremamente intensas.

Essa é uma região conhecida por monções de verão, fenômenos que já produzem chuvas muito, muito elevadas. É algo imposto pela própria geografia local”, afirma Portela.

O sofrimento é inversamente proporcional ao grau de desenvolvimento técnico da engenharia de prevenção, afirma o engenheiro. "Cidades que têm sistemas de drenagem avançados suportam melhor o impacto, como é o caso de Singapura.”

Segundo ele, antes de avaliar a tragédia nos quatro países, é importante observar como Singapura respondeu à mesma tormenta.

“Singapura tem sistemas de drenagem de referência internacional. As ruas são desenhadas para captar água em grande volume e direcioná-la rapidamente para canais estruturantes.”

Um ano com ciclos climáticos maiores e incertezas científicas

O ano de 2025 marcou um agravamento incomum da temporada de monções, e especialistas apontam o pano de fundo climático global como explicação. Para Pedro Jacobi, professor e pesquisador da USP, com formação em Ciências Sociais, Economia e mestrado em Harvard, a região vive um padrão climático cada vez mais acelerado.

“O que a gente observa é que tem aumentado muito a incidência e a turbulência dessas monções”, diz. “Essa concentração de chuvas numa velocidade tão alta acelera o movimento das águas e potencializa a destruição,” afirma o professor.

Portela complementa com uma análise técnica dos ciclos climáticos. Além das estações tradicionais, ele conta que o planeta passa por ciclos maiores de aquecimento e resfriamento que duram décadas ou séculos.

“Estamos hoje num ciclo de aquecimento, que tem a influência humana, mas que pode também ser ampliado por fatores naturais ainda não totalmente compreendidos,” afirma o engenheiro Portela.

A ciência ainda investiga anomalias como alterações magnéticas no Atlântico Sul ou efeitos de tempestades solares, diz Portela.

“Temos dados muito precisos dos últimos 200 anos, mas pouco sobre o comportamento climático em escala de milênios. A influência humana no aquecimento é real, mas pode não ser a única variável”, afirma.

West Sumatra, Indonésia, em 27 de novembro de 2025 (Anadolu / Colaborador/Getty Images)

Emergência sem prevenção

Governos da região decretaram estado de emergência, anunciaram indenizações e pediram desculpas. Para Portela, porém, o problema é estrutural, e a resposta chega tarde.

Há uma diferença entre resposta à emergência e prevenção. Quando não se tem prevenção, a resposta fica muito mais cara e menos eficaz”, afirma.

Jacobi concorda e afirma que a escala atual de mortes, que chegaram a 600 óbitos, reflete não só o desequilíbrio climático global, mas também a vulnerabilidade das populações mais pobres.

A vulnerabilidade define quem vive e quem morre. Casas em encostas, ocupações irregulares, baixa manutenção de estruturas de proteção, tudo isso amplifica tragédias.”

O alerta brasileiro

Os eventos no Sudeste Asiático dialogam diretamente com os desastres recentes no Brasil.

Jacobi destaca que, no Rio Grande do Sul, a falta de manutenção dos diques e sistemas de proteção agravou o impacto das chuvas de 2024.

Eram estruturas criadas desde a década de 1960, que não receberam a manutenção necessária. Isso não pode ser ignorado”, diz.

Em 2022, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, o fator decisivo foi a ocupação de áreas altamente vulneráveis.

Muitas vítimas estavam em áreas sujeitas a deslizamentos. A lógica da vulnerabilidade se repete no mundo.”

A tragédia asiática, segundo Portela, deveria acender uma luz vermelha para o Brasil - e a solução passa por algo que o país ainda não tem: uma metodologia nacional obrigatória de análise de riscos climáticos.

“Cada estado e cada município deveria ser obrigado a fazer análises de risco usando técnicas consagradas, como Hazop e Hazid. Não pode ser opinião: tem que ser engenharia”, afirma.

O engenheiro especialista em risco explica que já recomendou ao Senado a criação de um “mapa anual de risco climático” para o país, revisado a cada dois anos.

O Brasil precisa classificar riscos em aceitáveis, moderados ou inaceitáveis. Riscos inaceitáveis exigem ações imediatas, remover moradores, reforçar infraestrutura, impedir tragédias anunciadas.”

O COR-Rio (Centro de Operações e Resiliência do Rio de Janeiro), segundo Portela, já começou a adotar esse modelo com apoio de ferramentas da ONU.

“Ainda estamos no início, mas sabemos como fazer. Já há cenários mapeados e é possível expandir isso para todo o país.”

Vista aérea do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) inundado no centro da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em maio de 2024 (Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (SEDAC)/Divulgação)

Como evitar novas tragédias: infraestrutura, ciência e planejamento contínuo

Enquanto os países do Sudeste Asiático iniciam a limpeza e a reconstrução, os especialistas reforçam que a transformação necessária é mais profunda.

“Os planos de ação climática precisam priorizar prevenção, antecipação e reordenação urbana. Não dá para reagir só depois da tragédia”, afirma Jacobi.

Portela novamente reforça o papel da engenharia e Singapura como exemplo. “É preciso atualizar normas e construir infraestrutura preparada para volumes atípicos. Singapura mostra que é possível.”

*Com informações da EFE

Acompanhe tudo sobre:ÁsiaChuvasDesastres naturaisIndonésiaSri LankaTailândia

Mais de Mundo

EUA diz ter bombardeado embarcação no Oceano Pacífico

EUA anuncia sanções contra 'frota fantasma' do Irã por repressão a protestos

UE quer manter congeladas represálias de 93 bilhões de euros aos EUA por 6 meses

Premiê da Alemanha diz que não pode aceitar o plano do Conselho de Paz de Trump