Eleição no Peru: apuração entra nos últimos votos, e Castillo ainda lidera

Com os últimos votos sendo apurados nas regiões mais afastadas e no exterior, o esquerdista Pedro Castillo se declarou vencedor. Órgãos eleitorais do Peru ainda não oficializaram o resultado

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Atualizado às 14h02 com as parciais da apuração no Peru. Siga acompanhando para novas atualizações.

A apuração dos votos na eleição presidencial chega a seu quarto dia no Peru nesta quinta-feira, 10. O candidato de esquerda, Pedro Castillo, declarou ter ganhado a disputa no país contra a ex-congressista Keiko Fujimori, mas o resultado não é ainda oficial.

"Seremos um governo respeitoso da democracia e da Constituição atual, e faremos um governo com estabilidade financeira e econômica", disse Castillo no pronunciamento.

Órgãos eleitorais do Peru ainda não declararam um vencedor, devido à margem apertada entre os candidatos, de menos de 100.000 votos.

Os peruanos foram às urnas no domingo, 6, e votaram no segundo turno da disputa entre Castillo, que é professor e membro do Perú Libre, e de Fujimori, candidata do Fuerza Popular e dona de um dos sobrenomes mais influentes da política peruana, filha do ex-ditador Alberto Fujimori.

Com mais de 99% das urnas apuradas, fica cada vez mais difícil uma reversão da vantagem de Castillo, embora uma virada no resultado geral ainda seja matematicamente possível.

Desde segunda-feira, 7, Fujimori e apoiadores também têm acusado, sem apresentar provas, a existência de fraude nas cédulas de papel na eleição. Na eleição de 2016, quando também foi derrotada, Fujimori já havia feito os mesmos questionamentos.

Na noite desta quarta-feira, 9, a candidata também convocou uma coletiva de imprensa na qual defendeu a impugnação de 500.000 votos, que alega terem sido fraudados.

Jorge Salas, presidente do Júri Nacional de Eleições (JNE, em espanhol), responsável por oficializar os ganhadores, rechaçou na terça-feira, 8, a acusação de Fujimori e disse que "a fraude está na imaginação febril de alguém". Os pedidos de impugnação terão de ser analisados pelo JNE, que deve avaliar o caso antes de declarar um vencedor. O processo deve ainda levar dias.

As autoridades eleitorais têm pedido "paciência" aos eleitores e candidatos para que aguardem o fim da apuração oficialmente.

Fujimori começou a apuração na frente devido a seu bom desempenho em regiões próximas à capital Lima, mas Castillo virou à medida em que chegaram os votos das áreas mais afastadas do Peru, como as regiões andinas e ao Sul do país.

Resultados no Peru

A apuração é realizada pelo ONPE, sigla em espanhol para Escritório Nacional de Processos Eleitorais do Peru. É comum que o Peru leve dias até ter um vencedor oficial devido ao maior tempo para contar os votos de áreas mais afastadas do país. 

  • No total, Castillo lidera com pequena margem, 50,2% dos votos contra 49,8% de Fujimori.
  • Segundo o ONPE, 99% das urnas foram contabilizadas até às 13h18 desta quinta-feira (horário de Brasília), quando foi divulgada a última parcial.
  • Castillo tem 72.000 votos de vantagem. O candidato chegou a estar mais de 100.000 votos à frente, mas a diferença diminuiu com os votos para Fujimori no exterior.
  • A diferença entre os dois candidatos também já foi superior a 100.000 votos de vantagem para Fujimori por seu melhor desempenho na região de Lima, onde os votos são contados mais rapidamente.

O voto no Peru é impresso, o que faz com que as cédulas em regiões mais distantes dos centros de apuração demorem mais a ser contabilizadas.

Dos votos que faltam, há sobretudo as cédulas de peruanos no exterior, onda há liderança com folga de Fujimori, e das regiões mais afastadas dos Andes e da Amazônia dentro do Peru, onde Castillo tem mostrado vantagem.

  • VOTOS INTERNOS: Castillo lidera contra Fujimori nos votos dentro do Peru, com mais de 170.000 votos de vantagem e o total de urnas apuradas chegando a 99,5%.
  • VOTOS NO EXTERIOR: Quase 92% das urnas foram apuradas fora do país, e Fujimori lidera com folga, com 66% dos votos e pouco mais de 100.000 votos de vantagem.

Acusação de fraude

Em pronunciamento na noite de segunda-feira, Fujimori disse que sua equipe havia recebido uma série de denúncias de supostas fraudes no processo eleitoral, como a impugnação de urnas que lhe seriam favoráveis.

“Tem havido uma série de irregularidades que nos preocupam e acreditamos que é importante mostrar isso, e sobretudo chamar os cidadãos para nos ajudar a saber se existem outras irregularidades como as que foram reveladas ao longo destes dias”, disse Fujimori em comunicado à imprensa.

A expectativa é que sua campanha entre com uma série de processos no juri eleitoral para contestar votos impugnados.

O JNE será o responsável por analisar os recursos de ambas as partes. Estão na mira das críticas de Fujimori sobretudo as urnas impugnadas enviadas para análise do JNE, mais de 1.300 até o momento. É o caso das urnas onde foram encontrados votos rasurados, ilegíveis, entre outros, e o órgão eleitoral terá de avaliar esses casos.

Especialistas apontam que o número não é maior do que o de eleições passadas, e que sempre há um montante de votos impugnados no processo de voto em papel.

O ONPE, responsável pela apuração, também passou nos últimos dias a desmentir acusações de impugnação indevida de urnas em seu perfil no Twitter.

O chefe do ONPE, Piero Corvetto, também compartilhou uma postagem na qual membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) afirmam à imprensa que o processo peruano transcorreu dentro da legalidade. A OEA divulgará seu relatório oficial sobre as eleições peruanas nos próximos dias.

O resultado acirrado visto na apuração já era esperado pelas pesquisas, que mostraram empate técnico. Com as acusações de Fujimori, cresce o temor de que parte da população peruana não aceite um dos dois vencedores.

Na eleição de 2016, Fujimori, que é candidata pela terceira vez, perdeu por apenas 0,24% dos votos para o ex-banqueiro Pedro Pablo Kuczynski (o PPK), após ter ficado no topo em todas as pesquisas uma semana antes, e também acusou fraude.

O presidente interino do Peru, Francisco Sagasti, havia pedido antes do pleito que os candidatos e seus partidos respeitassem o resultado da eleição.

“Eu invoco especialmente aqueles que estão concorrendo neste segundo turno, e suas organizações políticas, a respeitar escrupulosamente a vontade do povo peruano expressada nas urnas”, disse Sagasti em uma mensagem à nação transmitida pela televisão.

Protestos na sede da ONPE

Centenas de peruanos protestaram na sede da autoridade eleitoral do país, em Lima, nesta terça-feira, enquanto a apuração dos votos se aproximava do fim.

"Estamos protestando por conta do flagrante roubo eleitoral. A autoridade eleitoral está jogando a favor do sr. Castillo, eles estão tentando cometer fraude em seu favor", disse Fernando Tavera, um manifestante pró-Fujimori do lado de fora da autoridade eleitoral.

Apoiadores de Castillo também se dirigiram ao local para expressar seu apoio em contraprotestos. Ambas as manifestações eram pacíficas.

Lourdes Morales, que apoia Castillo, disse: "acreditamos que é um escândalo a maneira que Fujimori aumentou seus números na votação", em referência à maneira que a conservadora aos poucos foi diminuindo a margem em relação a Castillo por grande parte do dia. "E isso gera incerteza", completou.

Quem são Fujimori e Castillo

Os peruanos foram às urnas em uma eleição das mais polarizadas da história recente. A crise política no Peru fez com que no primeiro turno o país tivesse nada menos que 18 candidatos na disputa, nenhum deles tendo mais de 20% dos votos nas pesquisas.

Nenhum dos candidatos que chegou ao segundo turno teve o apoio de parte significativa do eleitorado: Castillo venceu o primeiro turno com 18,9% votos e Keiko teve 13,4%. 

Representando o establishment político e a continuidade do projeto neoliberal de seu pai, o ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko é ex-congressista e chegou ao segundo turno apesar de ser acusada de lavagem de dinheiro e ver seu partido envolvido com o escândalo da Lava Jato peruana. É a terceira vez que a política concorre à presidência. 

Já Castillo, que é professor e se define como de extrema esquerda, foi visto como a grande surpresa da eleição, e não despontava como favorito nas pesquisas até então. Em 2016, se tornou conhecido ao liderar uma greve nacional de professores que ganhou grandes proporções. No entanto, fora o movimento, não teve cargo político de destaque e é visto como uma incógnita.

Lado a lado, os candidatos Pedro Castillo (homem, com chapéu e camisa) e Keiko Fujimori (mulher, de terno) seguram bandeira do Peru e posam para foto com um documento em mãos Candidados presidenciais do Peru, Pedro Castillo e Keiko Fujimori: eleição acirrada

Candidados presidenciais do Peru, Pedro Castillo e Keiko Fujimori: eleição acirrada (Sebastian Castaneda/Reuters)

Com 51 anos, Castillo defende maior participação do Estado na economia e políticas marxistas, mas também é conservador em pautas de costumes, como a ampliação de direitos de LGBT e mulheres. Sua posição ambígua em relação aos setores mais modernos da esquerda atraiu parte dos votos de peruanos mais conservadores fora dos grandes centros.

Na outra ponta, a tendência é que, se eleito, Castillo tenha de se aliar a grupos da esquerda mais progressista para governar. Nos últimos dias, o candidato recebeu apoio de nomes progressistas latino-americanos como o presidente argentino, Alberto Fernández, e o ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, que pediu nas redes sociais que Castillo se atenha à democracia.

Dança das cadeiras

Todos os ex-presidentes recentes do Peru estiveram envolvidos em escândalos de corrupção. A crise política do país chegou a seu ápice no último mês de novembro, quando o Peru teve três chefes de Estado em uma semana em meio a intensos protestos, que deixaram ao menos dois mortos.

O último ciclo eleitoral foi complexo no país. Após eleito em 2016, PPK teve de renunciar por estar envolvido em escândalos de corrupção e não ter apoio do Congresso; seu vice, Martín Vizcarra, assumiu prometendo reformas contra a corrupção, mas terminou sofrendo impeachment em meio também à forte oposição no Congresso, amplamente fujimorista.

Após o impeachment de Vizcarra, a população foi às ruas em novembro em questionamento ao Congresso e às lideranças políticas. Acabou tirando do poder o recém-empossado Manuel Merino, líder do Congresso que arquitetou o impeachment de Vizcarra e seria, em sua ausência, o presidente interino. Com a saída de Merino, por fim, assumiu o atual presidente Sagasti, que prometeu não concorrer nas eleições e ser um líder transicional até que o próximo presidente fosse eleito. 

Crise econômica

O próximo presidente vai herdar um país com profundos desafios econômicos e sociais. O Peru é um dos países mais afetados pela covid-19, com uma das maiores taxas de mortalidade do mundo relativas ao tamanho da população.

A média móvel de mortos em sete dias, que chegou a 400 em abril com as novas variantes do coronavírus, voltou a cair e está perto de 200 vítimas diárias no momento, segundo o site Our World In Data, da Universidade de Oxford.

Enquanto isso, a vacinação engatinha: menos de 10% da população recebeu ao menos uma dose da vacina e menos de 4% recebeu a imunização completa.

O produto interno bruto do país também caiu 11,2% em 2020 em meio à pandemia, e o desemprego oficial na região de Lima, uma das principais métricas usadas no país, superou em alguns meses do ano passado os 16%, maior taxa da série histórica neste século. Mais de 3 milhões de peruanos deixaram a classe média diante do empobrecimento do país.

(Com Reuters e Estadão Conteúdo)

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