César Bochi, do Sicredi: o desafio é popularizar o cooperativismo de crédito no país (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 06h01.
Última atualização em 5 de agosto de 2026 às 12h05.
PORTO ALEGRE* — O aumento da inadimplência no campo, os juros ainda elevados e a queda da rentabilidade em diversas culturas levaram bancos e cooperativas a rever o ritmo de concessão de crédito ao agronegócio. No Sicredi, porém, a avaliação é que a desaceleração do setor não altera os fundamentos de longo prazo do agro brasileiro.
Segundo o diretor-presidente da instituição, César Bochi, a cooperativa administra uma carteira superior a R$ 140 bilhões destinada ao agronegócio, o que a coloca entre os maiores financiadores privados do setor no país. Hoje, quase metade de todo o crédito concedido pelo Sicredi tem como destino produtores rurais.
"O Brasil é uma fortaleza no agronegócio. Somos referência mundial em tecnologia, pesquisa e produtividade. É um setor que vai atravessar esse ciclo", disse Bochi, em entrevista à EXAME.
A confiança, no entanto, vem acompanhada de maior seletividade. Dados da Serasa Experian mostram que a inadimplência entre produtores rurais chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, alta de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior e de 0,6 ponto sobre o trimestre anterior. O avanço reflete a combinação de custos financeiros elevados, preços mais pressionados para algumas commodities e problemas climáticos enfrentados em diferentes regiões do país.
Na carteira rural do Sicredi, a inadimplência também aumentou. O índice passou de 0,3% há três anos para cerca de 2,9%, mas ainda permanece abaixo da média do sistema financeiro, segundo Bochi.
Diante desse cenário, a cooperativa seguirá expandindo o crédito, mas em ritmo mais moderado. "A velocidade e o apetite de crescimento são menores", afirmou.
A expectativa é liberar aproximadamente R$ 72 bilhões para a safra 2026/27, acima dos R$ 69 bilhões desembolsados no ciclo anterior. O crescimento, porém, será acompanhado por uma análise de risco mais rigorosa e maior atenção à capacidade de pagamento dos produtores.
Para Bochi, o atual ciclo também reforça a necessidade de profissionalização da gestão nas propriedades rurais. Além do financiamento, o produtor precisa ampliar o uso de ferramentas para reduzir riscos, como seguro rural, operações de hedge para proteção de preços, diversificação de culturas e planejamento financeiro de longo prazo.
"Temos que ajudar cada vez mais o produtor a fazer conta e trabalhar com cenários", disse. Segundo o executivo, em algumas situações a recomendação da cooperativa será postergar investimentos quando a contratação de novas dívidas comprometer o equilíbrio financeiro da operação.
Bochi afirmou que o Sicredi seguirá concentrando sua atuação na agricultura familiar e nos médios produtores. Hoje, segundo ele, a cooperativa responde por mais de 30% das operações do Pronaf. Entre os grandes produtores, porém, sua participação ainda é pequena, entre 1% e 2%.
Na avaliação do executivo, o cenário de juros elevados, volatilidade cambial, eventos climáticos e incertezas geopolíticas pressiona a rentabilidade do setor, mas não muda a perspectiva de longo prazo para o agronegócio brasileiro.
"O agro está ligado à segurança alimentar, à segurança energética e a uma demanda global crescente. Esses fundamentos permanecem", afirmou.
*O repórter viajou a convite do Sicredi