Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, ao ser levado por agentes para audiência em Nova York (XNY/Star Max/GC Images/Getty Images)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 06h01.
Um documento, divulgado pelo Departamento de Guerra, ajuda a entender os planos militares do governo de Donald Trump. A Estratégia Nacional de Defesa (NDS) de 2026 reúne as prioridades militares que o país adotou e ajuda a explicar as razões consideradas pelo governo americano em ações recentes, como a invasão da Venezuela e os ataques ao Irã.
A NDS, publicada em 23 de janeiro (leia aqui, em inglês), resume as táticas militares que serão usadas para implantar a Estratégia de Segurança Nacional, divulgada pela Casa Branca em dezembro. O novo documento apresenta três argumentos centrais: "América primeiro", "paz pela força" e "senso comum".
"Seremos a espada e o escudo para deter a guerra, com a meta da paz, mas prontos para lutar e vencer as guerras necessárias à nação, se formos chamados", diz o documento, elaborado pelo Departamento de Guerra.
A NDS aponta quatro linhas principais de ação: defender o território americano, deter a China pela força, não pelo confronto, fazer os aliados gastarem mais em defesa e ampliar a indústria americana de defesa.
Assim, o avanço dos EUA sobre a América Latina é colocado como parte da estratégia de defesa do solo americano. O continente é apontado como a origem de imigrantes irregulares e de drogas que chegam ao território dos EUA. Ao mesmo tempo, há uma defesa de que os americanos afastem a presença de potências estrangeiras da região.
Para este objetivo, os EUA colocam como prioridade ter controle sobre a Groenlândia, o Golfo do México e o Canal do Panamá.
Ao mesmo tempo, há pressão para que os países da região atendam às demandas americanas. Caso contrário, poderão ser feitas novas operações como a invasão da Venezuela, em 3 de janeiro, que prendeu o presidente Nicolás Maduro.
Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM, avalia que a estratégia deixa claro que há possibilidade de invasão de mais países. "Não descarto ações em Cuba e na Nicarágua. Para mim, são os dois próximos alvos", diz.
Rudzit avalia que uma ação militar na Groenlândia parece menos provável, pois ainda não há movimentação de tropas. "Washington ficou seis meses levando para o Caribe as capacidades naval e aérea para uma ação militar", afirma.
A NDS dedica bastante espaço à relação com a China, apontada como a segunda maior potência global. A tática para o país asiático é a de impedir que o país supere os EUA, mas sem partir para um confronto direto.
"Nossa meta não é dominar a China, estrangular ou humilhar. Nossa meta, em vez disso, é prevenir que qualquer um, incluindo a China, seja capaz de nos dominar ou a nossos aliados. Na essência, é atingir um equilíbrio de poder que permita a todos nós aproveitarmos uma paz decente", diz o documento.
Ao mesmo tempo, a estratégia determina que sejam criadas condições para que os EUA negociem em posição de superioridade. "Seremos fortes, mas sem confrontos desnecessários", diz o material.
"Os EUA não querem que a China domine o Leste Asiático, em especial Taiwan, embora não citem Taiwan diretamente para não ser confrontacionista com a China", diz o professor Rudzit.
Taiwan abriga fábricas de chips de última geração, usados pelos EUA. "Se a China controlar isso, controlará a economia digital o mundo", afirma o especialista.
Em outro eixo da estratégia, há destaque para que aliados reduzam a dependência militar dos EUA. "Na Europa e em outras partes, os aliados vão tomar a frente contra ameaças que são menos severas para nós e mais [severas] para eles, com apoio mais limitado os EUA."
Assim, uma das ações é que os aliados da Otan elevem seu gasto em defesa para 3,5% do PIB, além de 1,5% em segurança, totalizando 5%.
O plano defende ainda reforçar a indústria militar americana e trazer fábricas de volta ao país, limitando o modelo de produção integrada com o exterior, que vigora há décadas.
A NDS dedica, ainda, capítulos a três países além da China: Irã, Coreia do Norte e Rússia.
O documento reafirma que o Irã não poderá ter armas nucleares, e que os americanos seguirão fornecendo armas a Israel e outros aliados no Oriente Médio para se defenderem de eventuais ataques do Irã, embora esses países também terão de investir em defesa, cada vez mais, os seus próprios recursos.
A Coreia do Norte é apontada como uma ameaça direta ao Japão e à Coreia do Sul, assim como o de um ataque nuclear ao território americano.
Já a Rússia é apontada como uma ameaça "persistente, mas gerenciável", pois o país sofre com dificuldades econômicas e demográficas. Ao mesmo tempo, a estratégia diz que os europeus terão de se dedicar mais à proteção contra os russos, pois os americanos irão aumentar esforços para defender seu território e conter a China.