Lucas Affonso, CEO da Freedom: "Vendo mão de obra digital" (Divulgação/Divulgação)
Freelancer
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 06h01.
Última atualização em 9 de fevereiro de 2026 às 13h04.
A adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras acelerou, mas ainda esbarra em um problema básico: processos manuais, dados espalhados e decisões lentas. É nesse gargalo que uma nova geração de empresas de IA tenta se posicionar.
Uma delas é a Freedom, companhia brasileira focada em agentes de inteligência artificial para médias e grandes empresas. Ela acaba de anunciar uma captação de R$ 14,5 milhões em uma rodada liderada por Bertha Capital, Big Rider, Bossa Invest e investidores-anjo.
O investimento marca uma virada estratégica na companhia, que entra em uma fase focada em escala, consolidação e crescimento de longo prazo. Na última semana, a empresa fez a primeira aquisição ao comprar a Nalk, plataforma de gestão de dados de marketing e vendas baseada em IA.
O movimento acontece após um ano de crescimento fora da curva. Em 2025, a Freedom avançou 900% no faturamento anual e 3.650% no faturamento mensal. Agora, a empresa aposta em aquisições como motor para acelerar escala, ampliar o portfólio e ganhar musculatura no mercado B2B.
“Eu cresci numa empresa de recrutamento e agora estou montando uma agência de agentes de inteligência artificial. Eu vendo mão de obra digital”, diz Lucas Affonso, fundador e CEO da Freedom.
A estratégia é clara: crescer rápido, ganhar mercado e usar a própria tecnologia para operar com custos mais baixos do que concorrentes tradicionais. O plano declarado é chegar a R$ 500 milhões de faturamento em até cinco anos.
Com a compra da Nalk, a Freedom dobra sua carteira de clientes, que já passa de 100 empresas, e incorpora uma tecnologia focada em centralizar dados de marketing e vendas, hoje espalhados entre CRM, plataformas de anúncios e planilhas.
A Nalk havia recebido investimentos do G4 Educação, grupo que registrou crescimento de 60% e faturamento de R$ 500 milhões em 2025. A startup chegou perto de R$ 1 milhão de MRR antes de a operação ser concluída. Com a transação, o fundador da Nalk, Yago Martins, passa a atuar como advisor da Freedom.
“Quando começamos a conversar, vi uma grande oportunidade de pegar essa tecnologia e atualizar usando agentes. Os dashboards estão sendo substituídos por agentes que entendem contexto e executam ações”, afirma Affonso.
A carteira da Nalk é considerada complementar à da Freedom, que atua com agentes para áreas como financeiro, vendas, RH e operações. A meta agora é escalar a base da Nalk em dez vezes ao longo do ano, dentro da estrutura do grupo.
A trajetória do fundador ajuda a explicar o apetite por crescimento. Aos 28 anos, Affonso começou a trabalhar aos 14 na empresa de recrutamento da família, onde passou por áreas como RH, marketing e operações. Mais tarde, empreendeu no setor de moda e fundou uma agência de publicidade durante a pandemia.
Em 2022, assumiu como CEO da empresa da família e liderou uma fase agressiva de expansão. “Levei a empresa de R$ 100 milhões para R$ 500 milhões de faturamento”, diz. No período, foram feitas oito aquisições, com crescimento médio próximo de 100% ao ano.
Apesar do avanço, a decisão de sair veio da vontade de construir um negócio próprio. Em uma viagem à China, Affonso teve contato com startups de tecnologia e decidiu empreender no setor de inteligência artificial no Brasil.
Após conversar com dezenas de fundos, encontrou apoio na aceleradora Big Rider, liderada por Jaime de Paula, fundador da Neoway, vendida à B3 em 2021 por R$ 1,8 bilhão. O projeto ganhou forma entre setembro de 2024 e janeiro de 2025, até chegar ao foco atual: agentes de IA para grandes empresas.
Desde o início, a Freedom seguiu uma lógica pouco comum no mercado de tecnologia. Em vez de priorizar produto, a empresa colocou vendas no centro da estratégia.
“Sempre tive a ideia de que, mesmo sendo uma empresa de tecnologia, eu sou uma empresa de vendas. Eu gastava 80% em vendas e 20% em produto. O cliente me diz o que ele quer, e depois eu transformo isso em produto”, afirma o CEO.
A abordagem ajudou a acelerar tração. Hoje, atende clientes como Panvel, Vibra, Grupo Cartão de Todos e Comerc.
A operação funciona com equipes enxutas. São pouco mais de 20 pessoas, mas, segundo Affonso, com capacidade produtiva equivalente a mais de 100 funcionários, graças ao uso interno dos próprios agentes de IA.
“O maior cliente da Freedom é a própria Freedom. A gente automatiza tudo”, diz.
Um dos diferenciais da empresa é a parceria com a Grant Thornton, que atua na validação e implantação dos projetos. O selo funciona como uma garantia de segurança, governança e qualidade na entrada em produção dos agentes, um ponto sensível para grandes empresas.
A Freedom mantém escritórios em São Paulo, Florianópolis e Manaus, região onde vem investindo para ampliar presença comercial. Para 2026, a meta é crescer doze vezes, sair de cerca de 100 para mais de 500 clientes e consolidar a marca em São Paulo. “Se ganhou São Paulo, ganhou o Brasil”, afirma Affonso.
A internacionalização fica para depois. Primeiro, o plano é provar escala no mercado brasileiro e manter crescimento anual de 100% nos próximos ciclos. Só então a empresa pretende desenhar a expansão para a América Latina.